A edição 73 da Supply Chain Magazine olha para uma supply chain que já não opera com a estabilidade como ponto de partida. Do tema de capa sobre gestão global e decisões sob pressão às peças sobre visibilidade, tecnologia, procurement, intralogística e talento, este número mostra como a capacidade de decidir com rapidez, critério e noção real do risco se tornou um dos principais fatores de diferenciação das operações.
A edição 73 da Supply Chain Magazine constrói-se a partir de uma ideia muito clara: a supply chain já não está a operar num contexto em que a estabilidade é o cenário base. É dessa mudança que parte o grande tema de capa, “Decidir fora de casa”, um trabalho que reúne vários testemunhos internacionais para mostrar como a instabilidade global não afeta todas as operações da mesma forma, mas obriga todas elas a rever a forma como decidem. Mais do que falar de disrupção, este artigo fala de responsabilidade, prioridade e escolha. Mostra que, em muitas cadeias de abastecimento, decidir deixou de ser otimizar e passou a ser assumir, de forma consciente, que risco aceitar, que compromisso proteger e onde absorver o impacto.
É precisamente isso que torna o artigo de capa o eixo mais forte da edição. Vasco Araújo, na Gordon Murray Automotive, mostra como num contexto de ultra-luxo e altíssima complexidade o custo da indecisão pode ser maior do que o de corrigir uma rota mais tarde. Paulo Simão, na FUSO Truck, reforça que o risco passou a ser o primeiro filtro e a resiliência o verdadeiro fator de decisão. Luís Velosa acrescenta que, em cenários de capacidade limitada, já não se trata de encontrar a solução ideal, mas de decidir onde o impacto vai acontecer. E Paulo Barbas, a partir da Noruega, mostra como redundância, contratos de longo prazo e buffers mais robustos deixaram de ser excessos para passarem a ser instrumentos de proteção operacional. O mérito deste trabalho está em não teorizar sobre a incerteza: mostra, com casos concretos, como ela está a redesenhar a decisão na prática.
A partir daí, a edição abre outras frentes, mas mantém a coerência. Em Procurement, o artigo “Cadeias de abastecimento às cegas”, baseado num estudo da Achilles, expõe uma fragilidade estrutural que continua por resolver: a falta de visibilidade para além dos fornecedores diretos. O retrato é preocupante. Apenas 6% das organizações dizem ter visibilidade completa sobre fornecedores Tier 2 e Tier 3, cerca de metade admite operar sem visibilidade efetiva além do Tier 1 e só 18% confiam plenamente nos dados de segurança reportados pelos fornecedores. A peça ganha ainda mais relevância porque mostra que a pressão regulatória passou a pesar mais do que o próprio carbono ou do que a pressão dos clientes nas estratégias de sustentabilidade. Ou seja: já não estamos apenas perante uma questão de eficiência ou boa prática, mas de conformidade, controlo e risco real.
Na intralogística, o artigo sobre a Jungheinrich dá corpo a outra discussão importante desta edição: a sustentabilidade quando sai do discurso e entra na operação. O foco está na reutilização de baterias de iões de lítio e no seu uso em empilhadores recondicionados, numa lógica de economia circular que a empresa apresenta como pioneira. O texto mostra bem porque é que este tema importa: mais de quatro mil baterias já foram testadas, o recondicionamento permite uma pegada de CO2 inferior em 90% face ao fabrico e a emissão total pode ficar 80% abaixo da de um empilhador novo, mantendo garantia de dois anos e uma performance ainda adequada para muitas utilizações operacionais. É uma das peças mais interessantes da revista porque cruza tecnologia, circularidade e viabilidade económica sem cair em generalidades.
Ainda na área da tecnologia, a reportagem sobre a LogiMAT e a SITL ajuda a perceber o momento europeu. “Duas feiras, uma mesma questão: decidir na nova supply chain” parte de Estugarda e Paris para mostrar que a Europa está hoje mais equipada do que nunca em tecnologia, soluções e casos de uso, mas continua confrontada com a distância entre o que já é possível fazer e aquilo que as empresas estão realmente dispostas a decidir. A leitura é particularmente boa porque desmonta a ideia da automação como grande rutura. O que a SCM identifica é outra coisa: mais maturidade, mais integração, mais modularidade e uma preferência crescente por soluções que resolvam problemas concretos, sem obrigarem a revoluções totais na operação.
Na secção de tecnologias, “Crescer sem perder o ADN” olha para a integração da tecnológica portuguesa F5IT no Grupo Seresco como um ponto de viragem, onde entram na equação a escala, a internacionalização e uma presença mais alargada, sem abdicar da proximidade e da capacidade de execução que construíram a reputação da empresa. O texto tem interesse porque não trata o crescimento como inevitavelmente positivo: coloca a questão certa, que é a de saber como ganhar dimensão sem perder identidade, especialização e relevância no terreno. E esse é hoje um dos dilemas mais sérios para muitas empresas tecnológicas ligadas à supply chain.
A entrevista ao responsável da Simplifae acrescenta outra perspetiva importante. A nova empresa nasce da centralização de várias plataformas europeias de eProcurement e Market Intelligence e assume uma aposta clara em simplificação, automação e soluções “AI-first”. O interesse do artigo está em mostrar como a tecnologia pode deixar de ser apenas ferramenta administrativa para passar a redesenhar estruturalmente processos de compra, gestão de fornecedores e decisão baseada em dados. Mais do que digitalizar o que já existe, a Simplifae fala em reorganizar o procurement para o tornar mais eficiente, mais inteligente e mais orientado para resultados.
A edição abre ainda espaço a uma leitura mais humana e estrutural do setor com a peça sobre a 4Operations. “Tornar a logística e os transportes sexy: uma missão possível” parte da visão de Paula Varela para tocar num problema que atravessa toda a cadeia: a dificuldade em atrair pessoas para a logística e os transportes, num momento em que o envelhecimento dos profissionais, a falta de atratividade e a fraca ligação entre escritório e operação no terreno continuam a fragilizar o setor. É um artigo importante porque lembra que a transformação da supply chain não depende apenas de tecnologia, investimento ou processos; depende também da capacidade de tornar o setor mais compreensível, mais valorizado e mais apelativo para novas gerações.
Mesmo nas peças mais laterais, a edição mantém esse fio condutor. Quer se fale de procurement, de intralogística, de visibilidade, de crescimento tecnológico ou de recrutamento, a questão que regressa é sempre a mesma: como operar bem quando já não há conforto, nem excesso de tempo, nem margem para separar decisão e execução. Hoje, a vantagem já não está apenas em ser eficiente. Está em conseguir decidir com clareza, com rapidez e com noção real das consequências.
Tudo isto, a par das habituais secções de análise e opinião, para ler na versão digital da Supply Chain Magazine.



