A inteligência artificial está a acelerar a transformação do trabalho nas áreas de procurement e logística, com impacto direto em funções operacionais e repetitivas. Segundo um artigo publicado pelo portal The Chain, organizações mais avançadas poderão reduzir até 30% dos postos de trabalho transacionais num horizonte de 24 meses, enquanto cresce a procura por perfis estratégicos e orientados a dados.

A adoção de inteligência artificial na supply chain está a deixar de ser um exercício experimental para passar a ter impacto direto na estrutura das equipas. A questão já não é se a IA vai transformar estas funções, mas quais desaparecem, quais evoluem e com que velocidade.

De acordo com uma análise publicada pelo portal The Chain, funções com forte componente operacional e baseada em regras são as mais expostas. Entre elas, destacam-se os perfis ligados ao processamento de encomendas, processamento de faturas, acompanhamento de envios ou gestão reativa de stocks, atividades que sistemas baseados em IA conseguem executar de forma automática, contínua e em escala.

Alguns dos números avançados são particularmente expressivos: funções administrativas em procurement poderão ter até 95% de probabilidade de redução, enquanto perfis de compras mais rotineiras enfrentam um risco estimado de 70%, à medida que plataformas digitais passam a automatizar sourcing, comparação de fornecedores e até negociação de compras standard.

Também nas operações logísticas, tarefas como tracking, reporting e coordenação básica estão a ser progressivamente absorvidas por sistemas autónomos, capazes de monitorizar fluxos em tempo real, identificar exceções e escalar decisões sem intervenção humana.

Em contrapartida, o mesmo movimento está a reforçar a relevância de funções com maior componente estratégica. Perfis ligados à definição de estratégia de supply chain, gestão de risco, relacionamento com fornecedores e carriers, bem como governação de dados, tendem a ganhar peso. O papel do Chief Procurement Officer, por exemplo, não desaparece, mas transforma-se, com foco crescente em liderança estratégica suportada por tecnologia.

Surge também uma nova tipologia de funções, como especialistas em “AI enablement”, responsáveis por integrar agentes inteligentes nos processos, garantir qualidade de dados e alinhar tecnologia com necessidades operacionais.

O ritmo desta transformação não será homogéneo. Enquanto empresas com maior maturidade tecnológica poderão avançar rapidamente, com reduções significativas de funções operacionais em menos de dois anos, outras organizações poderão demorar vários anos a implementar níveis básicos de automação.

Ainda assim, a tendência é inequívoca. Mais de 90% dos responsáveis de procurement já estão a explorar ou a testar soluções de inteligência artificial, embora menos de 40% tenham passado da fase piloto para implementação efetiva.

Este desfasamento entre intenção e execução está a diminuir e com ele o tempo disponível para adaptação. Para profissionais da área, o impacto será tudo menos abstrato. Funções centradas exclusivamente em processamento transacional tornam-se progressivamente vulneráveis, num horizonte de três a cinco anos.

O reposicionamento passa por desenvolver competências em análise, tomada de decisão, gestão de risco e relacionamento, tudo áreas onde o julgamento humano continua a ser determinante. Como sublinha a análise, a economia poderá criar novas funções, mas esse processo não é imediato. Para muitos profissionais, a questão não será se surgem novas oportunidades, mas se conseguem chegar a tempo a essas novas funções.

IMAGEM: Infografia gerada por IA