Num contexto económico e geopolítico desafiante, a LogiMAT 2026, que decorreu em Estugarda de 24 a 26 de março, fechou com máximos históricos e uma mensagem clara: a intralogística deixou de ser apenas uma área de otimização para se afirmar como espaço de decisão estratégica e investimento.
A intralogística parece ser uma daquelas áreas em que o contexto não trava o insvestimento e, durante três dias, Estugarda voltou a concentrar aquilo que está a mexer globalmente com a intralogística. A LogiMAT 2026 reuniu 1.671 expositores de 46 países e ocupou quase 69 mil metros quadrados de área de exposição, distribuídos por dez pavilhões completamente cheios. Pelo recinto passaram 69.856 visitantes, um novo máximo que ultrapassa os números de 2024 e reforça uma tendência de crescimento que não é apenas quantitativa.
O dado mais relevante não está na dimensão, mas no perfil de quem esteve presente. Mais de metade dos visitantes tinha poder de decisão nas suas empresas e uma parte significativa chegou à feira com projetos concretos para avançar. Um em cada quatro acabou por adjudicar contratos durante o evento ou imediatamente depois, o que não é um detalhe. É um sinal.
Num momento em que muitas organizações ainda ajustam expectativas face à instabilidade global, a intralogística mostra um comportamento diferente. Não espera. Ajusta-se e pede investimento.
De montra a espaço de execução
A LogiMAT tem vindo a mudar de natureza e esta edição torna isso evidente. A feira continua a ser um ponto de contacto com inovação, mas tornou-se sobretudo um espaço onde se fecha negócio. Os acordos anunciados ao longo dos três dias refletem essa maturidade, segundo a organização. Fala-se de integração de sensores em robótica autónoma, de sistemas de carregamento para frotas de robôs, de implementações em escala com inteligência artificial e de parcerias entre integradores e plataformas de software logístico.
Há uma linha comum nestes movimentos. As soluções deixam de estar em fase de teste para passarem a estar prontas para implementação. A conversa já não é sobre potencial, mas sim sobre aplicação.
Se olharmos para os segmentos mais representados na feira, percebemos rapidamente onde está o centro de gravidade do setor. As tecnologias de movimentação e armazém continuam a dominar, mas surgem praticamente lado a lado com software, sistemas de gestão e ferramentas de simulação. Equipamentos, plataformas digitais e soluções de automação aparecem cada vez mais interligados, quase como partes de um mesmo sistema.
Esta proximidade não é coincidência. Reflete uma mudança mais profunda. A eficiência deixou de depender de equipamentos isolados e passou a depender da forma como tudo se liga. A intralogística está a tornar-se um sistema integrado, onde hardware e software funcionam como camadas de uma mesma operação.
A automação continua a ser uma presença dominante, mas com um discurso diferente daquele que se ouvia há uns anos. Já não se trata de experimentar ou validar conceitos. Fala-se, isso sim, de escalar, integrar e adaptar.
Os sistemas apresentados refletem precisamente essa evolução. Surgem soluções híbridas que combinam operação manual e automatizada, robôs que trabalham de forma colaborativa com equipas humanas e plataformas que permitem gerir tudo em tempo real. A inteligência artificial aparece menos como elemento de demonstração e mais como ferramenta operacional, integrada nos processos de picking, planeamento e controlo.
O foco desloca-se da tecnologia para o contexto em que ela opera. O desafio já não é automatizar. É fazê-lo sem comprometer flexibilidade.
O fator humano continua no centro
O interesse é compreensível. A promessa de maior adaptabilidade em ambientes complexos ou pouco estruturados, abre possibilidades onde a automação tradicional encontra limites. Ainda é cedo para falar em escala, mas já não é cedo para ficar atento e acompanhar.
Apesar da forte presença tecnológica, a LogiMAT voltou a dar espaço a um tema recorrente. A dificuldade em atrair e reter talento continua a ser um dos principais desafios do setor. Iniciativas como o CareerDay ou os programas direcionados a startups e jovens inovadores procuraram precisamente aproximar novos perfis da intralogística e reposicionar a forma como esta área é percecionada.
Este esforço acompanha a transformação do próprio setor. À medida que a operação se torna mais tecnológica, também muda o tipo de competências necessárias. A intralogística está a deixar de ser vista como uma função de suporte, para onde convergem tecnologia, operação e decisão.
A LogiMAT 2026 não trouxe uma rutura com o que já vinha a acontecer, mas consolidou uma mudança de fase. A intralogística entrou definitivamente num ciclo de maturidade, onde a inovação já não se mede apenas pelo que é novo, mas pelo que é aplicável.
Num cenário marcado por incerteza, o setor responde com investimento orientado, integração de sistemas e foco na execução. Não se trata de acompanhar tendências. Trata-se de decidir. E é talvez essa a principal leitura desta edição. A intralogística deixou de ser apenas o lugar onde se ganha eficiência. Passou a ser o lugar onde se materializa capacidade de resposta.



