Num setor onde cada hora conta e cada grau Celsius pode comprometer um tratamento futuro, a cadeia logística é tão crítica quanto o laboratório. Na BebéVida é ela que garante que 90 mil amostras mantêm intacto o seu potencial terapêutico.

Em 2.000 m² no centro do Porto, funciona uma operação altamente especializada que conjuga ciência, regulamentação e controlo logístico extremo. A BebéVida, fundada em 2004, é hoje responsável pela criopreservação de mais de 90 mil amostras de sangue e tecido do cordão umbilical, pertencentes a cerca de 60 mil famílias.

O que começa numa sala de partos termina em tanques de azoto líquido a -196ºC. Mas entre esses dois momentos existe uma cadeia crítica onde a variável determinante não é apenas biológica, é logística.

Do kit entregue aos pais ao armazenamento final, a empresa internalizou praticamente toda a cadeia de valor: transporte, processamento laboratorial, criopreservação e armazenamento. A única etapa que escapa ao seu controlo direto é a colheita, obrigatoriamente realizada em ambiente hospitalar.

A decisão de criar um laboratório próprio, em 2006, revelou-se estruturante. O atual edifício, inaugurado em 2011 e projetado para um horizonte de 40 a 50 anos, integra salas limpas que cumprem princípios de good manufacturing practices (GMP), assegurando condições controladas para o processamento das amostras.

A robustez do modelo é reforçada por acreditações internacionais exigentes, nomeadamente da FACT e da AABB, além do licenciamento nacional pela Direção-Geral da Saúde. Estas certificações permitem que as amostras possam ser utilizadas terapeuticamente em qualquer país que reconheça esses referenciais. A expansão internacional (Espanha, Roménia e, em breve, Suíça) tornou ainda mais evidente o peso da logística na equação.

72 horas, 22 graus: o intervalo crítico

Há um número que rege toda a operação: 72 horas. É esse o limite máximo entre a colheita e o arrefecimento controlado do produto biológico. E há uma temperatura que não pode ser ultrapassada: 22ºC ±2ºC.

Quando o sangue e o tecido do cordão são colhidos, encontram-se a 37ºC. Uma descida abrupta comprometeria a viabilidade celular. Por isso, o kit integra um data logger ativado no momento em que sai das instalações da empresa, permitindo rastrear continuamente a temperatura durante todo o percurso.

O acondicionamento inclui caixa de EPS de elevada densidade e barreiras térmicas adicionais. O kit é classificado como dispositivo médico e sujeito a aprovação do Infarmed.

Em Portugal e Espanha, o transporte terrestre facilita o cumprimento do prazo. Já na Roménia, onde o transporte aéreo é necessário, a complexidade aumenta: diferenças de pressão atmosférica, impossibilidade de transporte em porão devido a temperaturas negativas extremas e necessidade de coordenação dedicada com operadores especializados como a DHL.

Ao fim de semana, a gestão torna-se ainda mais sensível. Não apenas pelo custo acrescido, mas porque qualquer desvio pode comprometer a amostra. Se os critérios não forem cumpridos, a amostra é descartada, sem cobrança ao cliente. A taxa de incidência é residual (1 a 2 casos por mil), mas o risco nunca é considerado nulo.

 

A logística inversa: quando há um doente à espera

Se o transporte inicial é crítico, o circuito de libertação da amostra é ainda mais exigente. Quando existe indicação terapêutica, a amostra sai do laboratório a cerca de -150ºC num dry shipper com azoto líquido, incorporando monitorização contínua. O transporte é dedicado, acompanhado e sujeito a múltiplos planos de contingência. Existe literalmente um cronómetro em contagem regressiva.

Esta operação é assegurada pela World Courier (atualmente integrada na Cencora), especializada em transporte de produtos biológicos e órgãos para transplante. O contentor, de grande volume, não pode ser sujeito a raio-X, impõe restrições aeroportuárias específicas e exige coordenação milimétrica. A descongelação ocorre apenas à cabeceira do doente, numa curva térmica ascendente até aos 37ºC, imediatamente antes da infusão.

Apesar de residuais, como um seguro de vida que ninguém espera usar, os casos de aplicação terapêutica estão a aumentar, sobretudo no contexto da medicina regenerativa e de ensaios clínicos em patologias neurológicas.

A criopreservação é frequentemente percecionada como um serviço laboratorial mas, na prática, é uma cadeia logística altamente regulada, sensível ao tempo, temperatura, pressão e rastreabilidade.

O crescimento internacional da BebéVida, com Espanha já a representar quase o dobro das amostras mensais face a Portugal, reforça uma evidência: num setor onde a ciência avança, é a operação que garante que o potencial terapêutico chega intacto ao futuro. E, neste admirável mundo novo da medicina regenerativa, a logística não é suporte, mas um garante de viabilidade celular.

 

📖 Leia o artigo completo na edição 70 da Supply Chain Magazine, onde o diretor de Qualidade, João Couto Sousa, detalha os bastidores operacionais, os desafios regulatórios e os planos de expansão internacional deste laboratório português.