Após a devastação provocada pela depressão Kristin em dezenas de concelhos do centro de Portugal, a The Navigator Company anunciou medidas excecionais de apoio aos produtores florestais, flexibilizando temporariamente a sua política de receção de madeira. A decisão permite a entrada de madeira fina, normalmente excluída do processo industrial, numa resposta que combina estabilização económica, prevenção de especulação e reconstrução florestal num contexto de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.
A depressão Kristin deixou um rasto significativo de destruição em várias áreas florestais da região centro, afetando sobretudo madeira jovem, material que, em condições normais, não integra a cadeia produtiva da indústria de pasta e papel devido à sua reduzida eficiência industrial.
Perante este cenário, a Navigator anunciou que irá receber, nos próximos meses, madeira fina (entre 5 e 8 centímetros de diâmetro) proveniente dos cerca de 60 concelhos afetados, sem penalização até 30% do volume por carga.
A medida representa uma alteração clara às práticas habituais do setor, que tendem a desincentivar a comercialização deste tipo de madeira através de preços mais baixos ou limitação de aceitação, precisamente para evitar cortes prematuros e preservar o equilíbrio dos stocks florestais.
Uma decisão industrial com impacto territorial
Ao aceitar temporariamente matéria-prima de menor rendimento produtivo, a empresa assume um impacto nos seus custos operacionais, mas evita um risco estrutural maior: a fragilização da sua base de produtores florestais e o agravamento da desorganização territorial após a intempérie.
Além da flexibilização de receção, a Navigator compromete-se a: não desvalorizar madeira afetada por fenómenos catastróficos; criar medidas especiais de inspeção técnica e penalizar comercialmente intermediários que procurem explorar a situação de forma especulativa. Este último ponto é particularmente relevante num contexto pós-catástrofe, onde a volatilidade e a assimetria de informação podem gerar distorções.
Eventos como a depressão Kristin e as intempéries que lhe sucederam reforçam um padrão já identificado pelos principais relatórios internacionais: os fenómenos meteorológicos extremos deixaram de ser eventos raros e passaram a integrar o quadro estrutural de risco das cadeias de abastecimento.
No setor florestal, onde os ciclos produtivos se medem em anos ou décadas, a resiliência depende tanto da gestão ambiental como da estabilidade económica dos produtores.
A Navigator defende que a reconstrução deverá passar pela desobstrução de caminhos, limpeza das áreas afetadas e replantação ordenada, com vista à criação de uma floresta mais resiliente, capaz de absorver CO₂, regular o ciclo da água e mitigar erosão.
Mais do que uma medida pontual, esta decisão sinaliza um posicionamento: numa era de risco climático permanente, a indústria não pode limitar-se a gerir impactos, tem de integrar o risco climático nas suas políticas de sourcing, investimento e planeamento territorial.



