“É da interação entre tecnologia e pessoas que resulta uma maior produtividade para as operações.” Esta foi a conclusão que emergiu da mesa-redonda “No coração da operação – a intralogística a impulsionar o sucesso das empresas”. Um debate que assumiu o tema do Intralogística 2026, evento setorial organizado pela SCM e de que o Forum Braga foi palco na última quinta-feira, 29 de janeiro.
Foi um evento naturalmente centrado na tecnologia e no valor que aporta às operações logísticas, nomeadamente em termos de eficiência. Porém, a conversa moderada por Rui Silva, manager da Coplog, privilegiou um olhar sobre as pessoas como fator diferenciador.
A esse respeito, Sónia Silva, Project engineer, R&D Laboratory manager da Aumovio Advanced Antenna, começou por lembrar que a tecnologia fornece dados e factos para se tomarem as melhores decisões. E advogou que, neste âmbito, “não se deve descurar o valor acrescentado das pessoas, sendo importante integrar as pessoas nas tecnologias”, nomeadamente para ultrapassar eventuais resistências à sua adoção.
Na mesma linha de pensamento, Luís Tomás, Transport and Logistics director do Grupo RNM, defendeu que “é preciso assegurar que as pessoas conseguem tirar partido da tecnologia”, uma preocupação que deve abranger desde os trabalhadores de chão de fábrica aos que estão nas salas de controlo. Na sua opinião, a tecnologia deve adequar-se aos recursos humanos das empresas, elevando o potencial tecnológico precisamente com as pessoas.
Corroborando, Rui Castanheira, Supply Chain director da Amorim Cork, comentou que a tecnologia impacta nas equipas, pelo que importa partilhar informação que demonstre o valor das soluções tecnológicas e desafiar as equipas a contribuir. “Captar as pessoas para as soluções trará mais ganhos do que prejuízos”, sublinhou.
Soluções concretas para problemas reais
E sobre usar a tecnologia para tomar decisões falou precisamente o primeiro orador do dia: José Queiroga, senior manager da LTP Labs, debruçou-se sobre como a Inteligência Artificial (IA) está a reinventar as cadeias de abastecimento.
Na sua perspetiva, a logística constitui um sistema cognitivo, que enfrenta o desafio de passar de executor a orquestrador, que liga toda a cadeia, dos fornecedores à produção. E a tecnologia permite dar resposta a este desafio, com o seu valor a assentar, sobretudo, no potencial de reduzir custos e aumentar receitas. Não obstante, a adoção de IA e de IA Generativa na supply chain ainda está muito atrasada. Porém, “este não é um tema tecnológico, é sobretudo um tema de visão e de pessoas”.
Pedro Queiroga apresentou três casos práticos que demonstram como a IA contribuiu para colocar a logística no centro de valor das empresas. Também António Galrão Ramos, investigador sénior do INESC-TEC, deu a conhecer exemplos reais de aplicação da tecnologia, numa intervenção subordinada ao tema “Quando os algoritmos encontram a realidade: o trajeto do laboratório ao armazém”.
Contextualizando, focou-se no tema da eficiência volumétrica, uma questão que se coloca nos armazéns, com a necessidade de otimizar a carga, mas também no transporte, mais concretamente no empacotamento em contentores ou camiões. E, em ambas as situações, há dois objetivos subjacentes: maximizar o volume expedido, quando não há contentores suficientes, ou minimizar o número de contentores para expedir a volumetria disponível. “O problema, como está assim definido, parece dar resposta às necessidades práticas, mas, na verdade, é um problema de afetação geométrica. E, como tal, gera soluções que estão muito longe da sua aplicação prática, porque ignora um conjunto de restrições que têm impacto muito significativo na geração dessas soluções”, destacou, referindo-se a questões como o peso, a orientação da carga e a distribuição do peso nos eixos dos veículos, ou outras associadas à operação logística, como as prioridades de carregamento. Foi com a incorporação destas restrições no problema base que a investigação conseguiu chegar a soluções que podem ser utilizadas.
E foi exatamente sobre soluções que se pronunciou André Silva, area manager – International Operations, Planning & Transports da Worten, que deu a conhecer um caso prático, “baseado em convicção e com pouco investimento”. Com uma rede logística que definiu como “complexa”, pela existência de muitos canais e muitos formatos, destacou que, atualmente, a competição vai além do preço, acontece sobretudo no plano da experiência do cliente, procurando elevar os índices de satisfação e baixas as reclamações.
Foi neste cenário que o retalhista identificou que 30% das vendas online aconteciam depois da hora de corte da operação (19h00), tendo começado a germinar a ideia de entregar estes pedidos no dia seguinte e não em 48 horas, como vigorava. É esta a génese do PAHc – projeto de Alargamento da Hora de Corte, testado em 40% destas encomendas, em quatro zonas do país. Com a prova de conceito bem sucedida, o tempo agora é de implementação.
A Worten encontrou aqui uma oportunidade de diferenciação futura. E olhar para o futuro foi a recomendação que Pablo Navarro, head of Warehouse Equipment da Junghenrich Espanha, deixou, no contexto do desenho de armazém nas operações logísticas. Porque a realidade muda, as soluções de armazém têm de ser dotadas de flexibilidade e versatilidade para responderem a essa mudança. “A grande questão é: desenhamos para o presente ou para o futuro?”, questionou, defendendo que os armazéns têm de estar preparados para alterações de cenários.
Esta é uma mensagem que transmite aos seus clientes. E foi exatamente sobre trabalho colaborativo que se pronunciaram Marta Filipe, Commercial Strategy & Operations manager da Imeguisa, e Paulo Alexandre Luís, Logistics Planning coordinator da Vokswagen Autoeuropa. A colaboração entre as duas empresas assentou na convicção de que a tecnologia contribui para simplificar as operações, mas deve ter sempre em consideração o fator humano. Foi este pressuposto que conduziu as soluções desenvolvidas pela Imeguisa para a fábrica da Autoeuropa, colocando-as, simultaneamente, ao serviço da eficiência logística e das pessoas. E olhando para a intralogistica, não como um conjunto de meios individuais, mas como um sistema.
Também Vítor Alves, Portugal Sales manager da Koerber Supply Chain, levou a palco um caso de parceria. A empresa Manuel Patrício, que atua no setor da indústria alimentar, enfrentava dificuldades de armazenamento, pretendendo, assim, aumentar essa capacidade, mas também a flexibilidade de acesso aos produtos e reduzir os acidentes. O projeto desenvolvido envolveu a arrumação em altura, bem como a automatização da entrada e saída dos produtos, com resultados quantificados: a poupança de energia aumentou, as quebras de produto diminuíram, as linhas processadas por dia cresceram 25% e a capacidade de armazenamento duplicou.
O potencial da IA
Mais controlo, menos erros e menos interrupções são benefícios que estão associados à IA nos armazéns, como deu conta, na conferência, João Pedro Diogo, consultor em Gestão e Arquitetura de IA na Izzdone Consulting, numa intervenção focada na visão computacional. Numa analogia com o corpo humano, comentou que a visão computacional são os olhos, enquanto a IA é o cérebro, que trata as imagens colhidas pelas câmaras. E as câmaras podem ser de qualquer tipo, incluindo de telemóvel, podem estar em qualquer parte do armazém e em qualquer atividade, das mesas de embalamento às portas das docas. O que aportam é maior segurança e conformidade, além de que ajudam as pessoas a errar menos, com benefícios ao nível dos custos.
O tema teve continuidade na intervenção de Pedro Gordo, Supply Chain Business manager do Generix Group, que abordou o planeamento e a previsão de recursos dos armazéns com base em IA na ótica das soluções de recess management (RMS). Trata-se – disse – de um “extra mile” face ao WMS, que permite ir mais além na otimização de recursos: é holístico, mais inteligente e mais rápido, com benefícios ao nível da coerência, do desempenho e da flexibilidade.
É essa flexibilidade que permite responder a um mundo em aceleração, como diz a experiência de João Caracol, Service Line lead da Brighten Consulting, que levou a palco a sua visão sobre “como manter controlo num cenário cada vez mais complexo”. Assinalou, a propósito, a pressão que é colocada sobre a logística quando as operações crescem, mas, ao invés de serem redesenhadas, são tratadas com “pensos rápidos”. As decisões são tomadas de forma reativa, sem abordar os desafios reais. E, num cenário em que crescem os sistemas, os processos, os armazéns e as geografias, há que simplificar a logística – não para reduzir a ambição, mas para criar controlo e, deste modo, potenciar o crescimento.
É na simplificação que entram os agentes de IA, que libertam gestores e operacionais das tarefas repetitivas, permitindo-lhes canalizar esse tempo para pensarem o negócio. Esta mensagem esteve presente na apresentação de Daniel Baptista e Vítor Ferreira, Business developer, New Customer Acquisition e Supply Chain Product Owner da Cegid, respetivamente. Ao gerar previsões, alertas e análises inteligentes, a IA vai desencadear ações e, deste modo, tornar-se parte do coração de cada empresa.
As parcerias voltaram ao centro do evento com Rui Oliveira e Marco Andrade, Product manager e Sales manager da Tecnibite, respetivamente, e Tiago Silvestre, head of IT da Alloga-Logifarma (Cencora). Partilharam a experiência de 14 anos de aplicação do software XLog, uma solução “muito otimizada” para a empresa farmacêutica.
De volta aos casos práticos, Rui Morais e Óscar Lopes, Site Logistics Improvement manager e responsável pelos fluxos logísticos da Horse Aveiro, respetivamente, deram a conhecer o projeto de automatização do transporte de peças entre processos de fabrico. Um projeto que passou, essencialmente, pela alteração de fluxos de circulação dos empilhadores que transportam peças entre as diferentes zonas da fábrica. Até à intervenção, os equipamentos atravessavam zonas de passagem de camiões, além de que se verificavam deslocações em vazio, pouco eficientes. Com a mudança, a circulação no exterior foi minimizada, ganhou-se maior ergonomia nos equipamentos, diminuindo a ocorrência de incidentes, além de que foi possível reduzir o número desses equipamentos e dos operadores alocados.
Também Rui Marques, partner da Action Lean Consulting, partilhou uma experiência concreta de melhoria de processos em intralogística. No caso em análise, a metodologia lean foi a base que permitiu a eliminação de todos os processos que não aportam valor à operação.
Uma nova liderança precisa-se
As pessoas voltaram ao centro do Intralogística 2026 na reta final, pela voz de Paulo Sá, executivo em Logística, Operações e Tecnologia, numa intervenção subordinada ao tema “A logística do futuro já começou e será liderada, não automatizada”. Depois de um dia em que muito se falou de tecnologia, começou por deixar um alerta: é que a tecnologia mais cara não é a que custa mais dinheiro, é a que está na operação e não é usada. Cabe aos líderes decidir o que querem delegar na tecnologia e responsabilizar-se por essa decisão, mas também lhes compete compreender os processos para criarem valor real. É o conhecimento da operação que vai trazer vantagem competitiva, defendeu o especialista.
A última intervenção do dia deu continuidade ao tema da liderança. Carlos Sezões, managing partner da Darefy, advogou que a liderança está a mudar e que os líderes serão, acima de tudo, catalisadores. E está a mudar porque enfrenta duas revoluções em curso: a digital e a geracional. E, neste novo cenário, planificar, organizar, comandar e controlar deixam de ser funções de liderança, sendo substituídas por competências de gestão de competências e motivações das equipas, por pensamento estratégico, por literacia digital – saber o que essas ferramentas podem aportar à organização. Tem de ter empatia e influência, bem como agilidade. Sabendo que as máquinas vão tomar conta de grande parte das operações, o capital humano é o grande diferencial, a alavanca da diferenciação. Em suma, a tecnologia no centro da operação, as pessoas no centro da decisão.



