A tempestade Kristin não foi apenas um episódio de mau tempo extremo. Foi, sobretudo, um teste real à capacidade logística do país, num momento em que várias infraestruturas críticas falharam em simultâneo: energia, comunicações, acessos e coordenação operacional no terreno.

O rasto deixado pela intempérie — casas destelhadas e fortemente danificadas, empresas com instalações destruídas, armazéns e estufas colapsados, explorações agrícolas inviabilizadas, estradas bloqueadas e centenas de milhares de pessoas sem eletricidade, água ou comunicações — expôs uma realidade conhecida por quem trabalha em logística: sem coordenação e visibilidade, mesmo quando os recursos existem, a capacidade de resposta perde eficácia.

Nos dias que se seguiram à passagem da Kristin, o cenário agravou-se. A continuação do mau tempo, a previsão de precipitação intensa e os efeitos hidrológicos associados, como as cheias e inundações, passaram a incidir de forma cumulativa sobre um território já fragilizado. O impacto humano tornou-se mais evidente, com a confirmação de pelo menos nove vítimas mortais, algumas associadas a quedas de estruturas e outras a riscos indiretos da crise, como a utilização inadequada de geradores em habitações sem eletricidade.

À medida que as horas passaram, os problemas deixaram de ser apenas meteorológicos. Destelhamentos, inundações e danos estruturais exigiam respostas imediatas — lonas, plásticos, telhas, geradores, combustível, água, alimentos não perecíveis…  —, ao mesmo tempo que ruas e estradas obstruídas por árvores e destroços dificultavam a circulação de equipas e bens.

Neste contexto, a limpeza rápida de vias deixou de ser uma operação urbana ou municipal para se tornar uma pré-condição logística essencial. Cada estrada bloqueada representava um atraso no last mile da ajuda, na chegada de materiais de emergência e no restabelecimento de serviços básicos.

A resposta no terreno: capacidade humana, limites estruturais

Perante este cenário, várias organizações com experiência operacional assumiram um papel determinante. A Cruz Vermelha Portuguesa ativou um dispositivo nacional de resposta, com a distribuição de milhares de lonas, a mobilização de estruturas móveis de apoio a desalojados e o reforço de meios no terreno. Em algumas zonas, foram também disponibilizados geradores e soluções alternativas de comunicação para colmatar a falha das redes convencionais.

A Cáritas Portuguesa, através das suas estruturas diocesanas, reforçou a resposta local com recolha, triagem e distribuição de bens essenciais, criando fundos de emergência e atuando diretamente junto de comunidades particularmente afetadas. A proximidade ao território permitiu chegar a populações isoladas, num momento em que acessos e comunicações estavam profundamente condicionados.

Também o Corpo Nacional de Escutas manifestou disponibilidade para apoiar operações no terreno, alertando e sublinhando um princípio fundamental em contextos de catástrofe: o voluntariado só é eficaz quando integrado numa cadeia de comando clara. Boa vontade sem coordenação pode rapidamente transformar-se num fator adicional de fricção operacional.

Um dos pontos mais sensíveis deste episódio voltou a ser o sistema de comunicações de emergência. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil reconheceu falhas no SIRESP, provocadas por danos físicos em estações e infraestruturas, obrigando à utilização de estações móveis para assegurar a ligação entre os agentes no terreno.

Do ponto de vista logístico, este fator é determinante. A comunicação não é um acessório da operação, mas sim o seu sistema nervoso. Sem comunicações fiáveis, perde-se a capacidade de ter uma visão global das necessidades, de priorizar entregas, de evitar duplicações e de ajustar rotas em tempo real. A resposta continua, mas torna-se mais lenta, menos eficiente e menos escalável.

Materiais críticos e cadeias de abastecimento sob stress

Com a fase de resposta imediata a dar lugar a uma fase de estabilização, tornou-se evidente a escassez de materiais críticos: telhas, lonas, plásticos, madeira, ferramentas, geradores e combustível. A procura disparou, ao mesmo tempo que as cadeias normais de fornecimento estavam condicionadas por falhas energéticas, acessos bloqueados e interrupções nos transportes.

Foi neste cenário de risco acumulado, com novas previsões de mau tempo e 14 distritos sob aviso meteorológico agravado, que o sistema nacional de proteção civil deu um passo decisivo.

Ontem, 1 de fevereiro, pelas 17h30, foi ativado o Plano Nacional de Emergência de Proteção Civil (PNEPC). A decisão resulta do agravamento do cenário de risco para pessoas e bens, associado à previsão de elevada precipitação e aos impactos hidrológicos esperados (cheias e inundações) que incidem de forma cumulativa sobre um território ainda devastado pelos efeitos da tempestade Kristin. Em paralelo, o Governo decidiu prolongar o estado de calamidade até 8 de fevereiro, permitindo reforçar a mobilização de recursos e acelerar respostas.

Com a ativação do PNEPC ficam garantidos mecanismos de coordenação reforçados, integrados e de âmbito nacional, incluindo o estabelecimento de um fluxo de informação ininterrupto entre todas as áreas governativas e as entidades envolvidas, em apoio à Direção do Plano, assumida pela ministra da Administração Interna. Os mecanismos serão acionados de forma gradual e flexível, em função da evolução da situação.

Logística como eixo central da resposta

Do ponto de vista logístico, a ativação do PNEPC marca uma mudança clara de escala. Cria o enquadramento formal necessário para responder a várias das fragilidades expostas nos últimos dias: dificuldades de coordenação, falhas de comunicação, pressão sobre materiais críticos e desafios persistentes no acesso e na distribuição.

Mais do que uma decisão administrativa, este passo reconhece que, num quadro de crise prolongada e de risco climático recorrente, a logística não pode continuar a ser tratada como função acessória. Energia, comunicações, limpeza de vias, materiais de construção, geradores, capacidade de triagem e distribuição exigem comando, visibilidade e decisão centralizada.

Num contexto de eventos extremos cada vez mais frequentes, a proteção civil tem de estar preparada para o pior, esperando que este nunca se concretize. A população foi alertada para a gravidade da intempérie que se aproximava, mas os constrangimentos verificados no terreno mostram que a preparação logística para um cenário mais severo continua a ser um desafio. Em situações de catástrofe, a logística não se limita a apoiar a operação: é determinante para garantir que a ajuda chega onde é necessária, no tempo certo.

FOTO: ANEPC