No arranque do CPO Forum promovido pela Deloitte, a mensagem foi clara: a função de Chief Procurement Officer está hoje no centro das decisões críticas das organizações. A gestão de custos continua a ser incontornável, mas é cada vez mais indissociável da resiliência, da gestão de risco e da capacidade real de execução, num contexto de crescente complexidade interna e externa.

 

No arranque do CPO Forum promovido pela Deloitte, a mensagem foi clara: a função de Chief Procurement Officer está hoje no centro das decisões críticas das organizações. A gestão de custos continua a ser incontornável, mas é cada vez mais indissociável da resiliência, da gestão de risco e da capacidade real de execução, num contexto de crescente complexidade interna e externa.

Na intervenção inicial, Filipe Perdigão, Senior Partner da Deloitte, partilhou com a assistência as principais conclusões do 2025 Global CPO Survey, evidenciando uma mudança estrutural no papel do procurement. Se durante anos o foco esteve sobretudo na eficiência e na poupança, o contexto atual trouxe novas exigências.

“O procurement deixou de ser apenas uma função de controlo. Hoje é chamado a garantir continuidade do negócio.”

Os dados do estudo confirmam essa pressão crescente: as expectativas sobre a função aumentaram significativamente, num cenário marcado por volatilidade, pressão sobre margens e riscos cada vez mais interligados.

Apesar da evolução do discurso, o custo mantém-se como prioridade central. A diferença está na forma como é abordado. Reduzir custos de forma isolada pode comprometer seriamente a operação e criar novos riscos.

Hoje, muitas decisões têm de ser tomadas com informação incompleta. Esperar pela “decisão perfeita” deixou de ser uma opção. A inação passou a ser, ela própria, um risco.

Casos práticos: sustentabilidade e execução no terreno

O evento trouxe também exemplos concretos de como estas tensões se materializam no dia a dia das organizações.

ANA – Aeroportos de Portugal apresentou o seu caso prático de Sustainable Procurement, com Ivo Diz, Head of Procurement, a mostrar como critérios ambientais e de sustentabilidade estão a ser integrados nos processos de compra, sem perder foco na execução operacional.

Já o painel dedicado à sustentabilidade como vantagem competitiva reuniu Susana Carvalho, Head of Sustainability & Climate Transition da Bondalti, e Tiago Dias, Global Circular Economy & ESG Value Chain Lead da EDP, numa conversa moderada por Inês Costa, Associate Partner da Deloitte. O debate mostrou como a sustentabilidade está a deixar de ser um tema reputacional para assumir um papel direto na criação de valor e na robustez das cadeias de fornecimento.

IA: da expectativa à aplicação real

A mesa redonda dedicada ao impacto da inteligência artificial no procurement juntou Luís Matos, Senior Procurement Solutions Advisor EMEA da SAP e Filipe Perdigão, da Deloitte, numa conversa com Filipe Barros, Executive Manager da Supply Chain Magazine.

A abordagem foi marcadamente pragmática. A IA é vista como um acelerador relevante, mas não como uma solução automática.

“A inteligência artificial pode apoiar a decisão, mas não substitui a responsabilidade de decidir.”

Foi sublinhado que o verdadeiro valor da IA está na sua capacidade de libertar tempo, estruturar informação e antecipar padrões, desde que integrada em processos claros e acompanhada por equipas preparadas para a usar.

Pessoas no centro da transformação digital

O 2025 Global CPO Survey reforça esta ideia, ao mostrar que as organizações com melhor desempenho são aquelas que equilibram tecnologia e competências humanas. A literacia digital tornou-se uma competência base para as equipas de procurement, implicando domínio dos processos core, compreensão do papel da tecnologia e capacidade de adaptação contínua.

Os números são claros quando se compara líderes e seguidores:

  • 96% das organizações líderes atingiram ou superaram as metas de poupança (vs. 80%);

  • 94% evitaram custos adicionais (vs. 75%);

  • 84% registaram maior satisfação dos stakeholders internos (vs. 59%);

  • 84% melhoraram o desempenho dos fornecedores (vs. 59%);

  • 56% fomentaram inovação de forma consistente (vs. 24%).

 

Resiliência em tempos de incerteza

Perante um ambiente cada vez mais volátil, os CPO identificam três prioridades claras para proteger o desempenho:

  • Diversificação de fontes de fornecimento (74%);

  • Maior visibilidade da cadeia de abastecimento (64%);

  • Reforço da colaboração e partilha de informação com fornecedores (61%).

Se o entusiasmo em torno de tecnologias como a IA generativa continua a crescer, o consenso é claro: sem pessoas preparadas, a tecnologia não entrega valor. A grande vantagem competitiva do procurement do futuro poderá estar precisamente nesse equilíbrio entre transformação digital e centralidade humana.

Uma análise mais aprofundada sobre os desafios e o futuro do procurement pode ser encontrada na edição #71 da Supply Chain Magazine.