No arranque do CPO Forum promovido pela Deloitte, a mensagem foi clara: a função de Chief Procurement Officer está hoje no centro das decisões críticas das organizações. A gestão de custos continua a ser incontornável, mas é cada vez mais indissociável da resiliência, da gestão de risco e da capacidade real de execução, num contexto de crescente complexidade interna e externa.
Na intervenção inicial, Filipe Perdigão, Senior Partner da Deloitte, partilhou com a assistência as principais conclusões e tendências que emergem do Global CPO Survey de 2025, deixando evidente que o procurement atravessa uma mudança estrutural. Se durante anos o foco esteve sobretudo na eficiência e na poupança, o contexto atual trouxe novas exigências.
“O procurement deixou de ser apenas uma função de controlo. Hoje é chamado a garantir continuidade do negócio”, sublinhou. A leitura é corroborada pelos dados do Global CPO Survey 2025, que mostram um crescimento significativo das expectativas colocadas sobre a função, chamada a continuar a entregar valor num ambiente marcado por volatilidade, pressão sobre margens e risco crescente.
Apesar da evolução do discurso, o custo mantém-se como prioridade central. A necessidade de proteger margens continua a ser uma prioridade clara para as organizações, mas com uma nuance importante: reduzir custo isoladamente pode gerar novos riscos.
Reduzir custo sem considerar o risco pode comprometer seriamente a operação.
O desafio atual passa por equilibrar eficiência financeira com robustez operacional. Isso implica decisões mais complexas, muitas vezes tomadas com informação incompleta, num contexto em que esperar pela “decisão perfeita” deixou de ser uma opção.
Hoje, muitas decisões têm de ser tomadas sem visibilidade total. A inação passou a ser, ela própria, um risco.
Inteligência artificial: da expectativa à aplicação real
Após a apresentação das conclusões houve espaço para o diálogo e debate. A mesa redonda dedicada ao impacto da inteligência artificial na função de procurement, juntou Filipe Perdigão e Luís Matos, Senior Procurement Solutions Advisor EMEA da SAP à conversa com Filipe Barros, da Supply Chain Magazine.
A mensagem deste painel foi marcadamente pragmática. A IA é vista como um acelerador relevante, mas não como uma solução automática para os desafios do procurement.
“A inteligência artificial pode apoiar a decisão, mas não substitui a responsabilidade de decidir.”
Foi sublinhado que o verdadeiro valor da IA está na sua capacidade de libertar tempo, estruturar informação e antecipar padrões, desde que integrada em processos claros e acompanhada por equipas preparadas para a usar.
Mais dados não significam melhores decisões
Outro ponto destacado na mesa redonda foi o risco de confundir volume de dados com clareza.
“Ter mais informação não significa, por si só, decidir melhor.”
A discussão centrou-se na importância de alinhar tecnologia, processos e competências, evitando a tentação de automatizar problemas que são, na sua essência, organizacionais ou de governação.
Estamos, pois, perante um procurement sob pressão para entregar mais e mais depressa. Custos continuam no topo da agenda, mas já não sobrevivem sem tecnologia, gestão de risco e capacidade de decisão informada. A IA surge como uma alavanca relevante, mas o debate deixou claro que o futuro da função continuará a depender menos da ferramenta e mais da forma como as organizações decidem usá-la.
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