Numa altura em que a agenda das empresas está tão focada em transformação digital e em perspectivas de desenvolvimento sustentável, o procurement teve um lugar de destaque no SAP NOW 2021. “The road to sustainable procurement” foi o mote para uma conversa conduzida por João Botelho, Presidente da APCADEC, com foco nas experiências da Logoplaste e do Grupo Casais.

Ricardo Rodrigues, global supply chain & procurement manager da Logoplaste e António Carlos Rodrigues, CEO do Grupo Casais partilharam as mudanças e adaptações que as suas organizações tiveram que enfrentar ao longo do último ano e meio.

“A função de procurement tinha que se tornar mais proactiva em detrimento do reactivo, que é característico na nossa indústria”, começa por dizer António Carlos Rodrigues, CEO do Grupo Casais. No caso do Grupo Casais, que actua no sector da construção, uma obra é uma encomenda que se desmultiplica numa série de necessidades e o habitual é os técnicos de procurement reagirem a um conjunto de pedidos de solicitação para consulta e contratação.

“Aquilo que estamos a fazer passa agora mais por uma actividade proactiva, em que procuramos envolver esses nossos colaboradores num papel mais de desenho e de construção da própria solução ainda antes de termos encomendas porque, no fundo, aquilo que nos procuramos cada vez mais é levar aos clientes um conjunto de soluções, que conseguimos garantir que estão integradas, que funcionam. Para isso, temos que nós encontrar previamente essas soluções”. No Grupo Casais, a equipa de procurement está, assim, cada vez mais vocacionada para este papel de construção antecipada de soluções.

Informação e decisão

Ricardo Rodrigues, por seu turno, entende que se antes da pandemia o papel do procurement já era bastante importante, agora é-o ainda mais: “ultimamente estamos a ver muitas indústrias a terem graves problemas de fornecimento”. Por isso, o papel do procurement passa cada vez mais “por uma responsabilidade e uma criatividade ainda maiores” e pelo tentar “de uma forma mais sustentável voltar à normalidade do antes do Covid”.

Tanto a Casais como a Logoplaste estão a passar por um momento de transformação digital, o que leva João Botelho a querer saber as motivações na base dessa decisão, os desafios que as duas empresas têm encontrado e os resultados que esperam vir a alcançar. Ricardo Rodrigues lembra que “a transformação digital é contínua” e tudo passa por poderem tomar-se decisões baseadas em informação fidedigna, mais rapidamente e em qualquer lugar. Tudo passa pela informação e pela qualidade da mesma no apoio à tomada de decisão. “A transformação digital permite-nos tomar essas decisões em tempo real, com base em informação transparente e de forma rápida”, acrescenta o responsável da Logoplaste.

Já no caso do Grupo Casais, a motivação tem a ver com algo que está a afectar de modo menos positivo o sector da construção, que é a falta de competitividade quando comparado com outras indústrias, e que a Casais sentiu como uma oportunidade para alterar o próprio modelo do negócio, o que só seria possível tirando melhor partido das ferramentas digitais.

“Hoje, a tecnologia permite-nos, de facto, construir antes de construir e tornou-se viável antecipar o momento de interacção com o nosso cliente”, explica o CEO do Grupo Casais. “Daí que esta função, esta metodologia de trabalho e esta necessidade de alterar o modelo de negócio nos tenha levado a pensar como é que podemos construir um conjunto de componentes com parceiros e fornecedores para estarmos habilitados a entregar aquele valor que nos propomos entregar: estar ao lado do cliente quando ele idealiza o que pretende e nós darmos-lhe a solução integrada e que faz sentido”. O responsável do Grupo Casais acredita que deste modo conseguem não só atingir o que o cliente pretende com maior rapidez, como também de forma muito mais satisfatória.

Na busca pelas melhores soluções

É inegável o papel da tecnologia na criação de uma maior eficiência no procurement. Mas a eficiência pode e deve contemplar a sustentabilidade. O Grupo Casais tem consciência que actua numa indústria com grande impacto no ambiente e na sustentabilidade. “Necessitamos de extrair recursos naturais, necessitamos de os transformar e depois materializamo-los em edifícios, em infra-estruturas de que as pessoas necessitam”.

Quem fez as contas atribui 37% das emissões ao sector da construção, não só pelo construir mas pelo seu impacto quando um edifício já está em exploração e também pelo que acontece no fim do ciclo de vida do edifício, “porque se ele não for pensado para uma utilização sustentável isto significa que no fim de vida, depois de demolido, os materiais vão acabar num aterro”, sublinha António Carlos Rodrigues.

Por isso, aquilo que tem orientado o grupo português de construção na procura de alinhamento do negócio com modelos mais sustentáveis também tem passado muito pela procura de materiais de construção mais amigos do ambiente, “com baixos índices de carbono e alguns até conseguem capturá-lo, como é o caso da madeira, que já se utiliza há milénios, embora com pouca tradição em Portugal”. Por isso, o que o Grupo Casais tem estado a fazer com as suas equipas de design industrial, de engenharia e de arquitectura passa pela busca de melhores soluções e pela capacidade de as entregar.

O CEO do Grupo Casais lembra que “só vamos conseguir ser sustentáveis se tivermos construído uma narrativa e um conjunto de soluções já por si sustentáveis, deixando de ser meros executores do que nos encomendam”.

As compras e o procurement olham para a sustentabilidade por vários prismas, “mas um dos principais são os nossos fornecedores”, enfatiza o presidente da APCADEC. Questionado sobre se na Logoplaste já utilizam critérios específicos na escolha dos fornecedores a convidar nos processos de consulta e na escolha do fornecedor a quem fazem a adjudicação há algum critério de sustentabilidade, Ricardo Rodrigues esclarece que a empresa já começou há algum tempo a trilhar esse caminho: “saiu este ano o nosso segundo GRI Report onde uma das secções mencionada é o procurement vs. sustentabilidade. Temos um código de conduta para os nossos fornecedores e quatro pilares fundamentais: ética no negócio, responsabilidade ambiental, o trabalho e direitos humanos do próprio trabalho. Para que possam ser nossos fornecedores, há critérios específicos dentro desses pilares que devem ser satisfeitos e preenchidos”. Feita a avaliação, só se torna fornecedor quem atingir a pontuação mínima exigida para integrar o painel de fornecedores da empresa. A tecnologia é também aqui neste processo de avaliação e selecção de fornecedores um auxiliar precioso. Ricardo explica que já têm processos implementados mas que é natural que venham a focar-se ainda mais neste campo e buscar o desenvolvimento de novas soluções, seguindo a lógica da tão desejada melhoria contínua.

 

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