Nos últimos meses, com períodos de confinamento alargados um pouco por todo o mundo e com restrições a afectarem a abertura das lojas de retalho, o e-commerce, e com ele as entregas de last mile, tiveram um crescimento (para não dizer explosão) exponencial. Esta parece ser uma tendência que veio para ficar. As razões para este crescimento parecem ser simples: por um lado a comodidade e facilidade do processo de compra; por outro, o aumento da velocidade e fiabilidade das entregas.

Este último ponto, decisivo no aumento das vendas online, veio colocar pressão (mais ainda) no last mile que já de si representa quase metade do custo total da supply chain de um produto. Mas não foi só na questão dos custos que esta explosão veio incidir. O aumento exponencial do e-commerce fez emergir aquele que poderá ser o verdadeiro desafio da próxima década para o sector: a sustentabilidade.

Como consequência do aumento do número de entregas, assistimos rapidamente a uma expansão no número de transportes necessários, com consequentemente agravamento de problemas já de si complexos como a gestão do tráfico e a poluição dos centros urbanos. Grandes cidades urbanas começaram a tomar medidas, criando zonas de tráfico limitado, por exemplo, limitando o número de veículos por empresa que podem aceder ao centro da cidade para realizar entregas (ou a tipologia dos mesmos) ou reduzindo a faixa horária em que os mesmos o podem fazer. Bastará uma acção política para revolucionar um sector e contribuir para a sua transformação numa indústria mais verde? A maioria dos estudos prevê que a indústria terá de reinventar-se para que possa continuar a ser sustentável seja económica como ambientalmente. O que podem então os profissionais do sector começar a fazer?

  • Apostar na mudança dos meios de transporte: a indústria confiou durante muito tempo na utilização de carrinhas a diesel para finalizar a entrega. É agora necessário electrificar as frotas e pensar em soluções como bicicletas de carga, drones ou robots autónomos (estes últimos podem parecer ficção científica mas serão realidade mais depressa do que aquilo que se pensa);
  • Ampliar a rede de micro-armazéns urbanos (que se acredita possam reduzir mais de 15% das emissões de carbono dos actuais transportes), aproximando os produtos do seu consumidor final e assim reduzir o impacto dos transportes. Aumentar também o número de Hub Centers ou lockers aos quais o cliente final se desloca para recolha do produto;
  • Potenciar a mudança nos hábitos de consumo, premiando clientes que escolhem entregas mais sustentáveis (por exemplo, em faixa de entrega nocturna onde o trânsito é inferior, com recurso a um veículo sustentável como uma bicicleta ou um veículo eléctrico ou que decidam agrupar diversas encomendas numa única entrega) e aumentando o preço das entregas rápidas não sustentáveis;
  • Investir na gig economy, desfrutando por exemplo dos movimentos pendulares dos cidadãos urbanos que podem transportar consigo encomendas durante os já existentes percursos casa-trabalho;
  • Continuar a desenvolver software capaz de analisar dados, prevendo o comportamento dos clientes, optimizando stocks e rotas para reduzir o impacto da pegada ecológica do last mile.

Com o aumento da pressão dos clientes para escolhas de vida mais sustentáveis, a pressão económica e de rentabilidade da indústria e a pressão do planeta que grita por sustentabilidade, a indústria do last mile não tem muito tempo para se reinventar e deve transformar-se numa indústria mais rápida, mais barata e forçosamente mais verde na próxima década.

Tiago Miguel Abreu, Delivery Station Manager  |  Amazon
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