No final do segundo dia da SCM Digital Conference ocorreu um modelo de debate diferente: nove oradores entraram em palco divididos em três rondas, debatendo num registo de speed talks o tema “E agora, como se constrói a Supply Chain do Futuro?”. Os prismas de abordagem foram diversos e foram partilhadas experiências, pontos de vista, reflexões e soluções adoptadas nos seus sectores de actividade, que poderão ajudar outros profissionais a superar algumas dificuldades em tempo de pandemia.
Na primeira vaga, Nuno Marques, Head of Sales & Operations do Grupo Valérius, considera que as maiores dificuldades pelas quais passou estão associadas ao mundo VUCA. O que agora é uma realidade em pouco tempo pode deixar de o ser. Ao mesmo tempo, também veio acelerar e justificar aquilo que já estava a ser feito, na migração para o digital, e responder às necessidades da Geração Z através do potencial das novas tecnologias.
Bruno Gil, Iberian Supply Chain Manager da Eden Springs, conta que sentiram impacto na facturação, pois uma grande parte desta dependia das empresas, e o desafio passou por ajustarem-se a esta nova realidade.
Pelo lado tecnológico, Paulo Mestre, director de consultoria na PRIMAVERA em Portugal e Espanha, concorda com Nuno Marques no sentido de que estamos a viver o resultado de uma aceleração do que já estava em curso, e que já se falava na redução de custos e de tempo, e que esta pandemia trouxe ao de cima alguns pontos frágeis da cadeia. Também se mostra um adepto do uso da previsão como forma de antecipar problemas, e da partilha de dados para que esta tenha um resultado mais preciso.
Na segunda ronda contámos com Helena Chinelo, Intermarket Physical Logistics Manager na Nestlé Nespresso, que explicou que o alarme disparou ainda em 2019, quando tiveram o alerta do que poderia estar a vir e que no início sentiram um aumento no canal digital em detrimento do físico, pelo que tiveram de adaptar as suas operações e perceber como poderiam dar resposta às encomendas que tinham. Em termos de planeamento, a responsável conta que planeiam que volte pouco a pouco a ser o que era, caso não exista uma nova vaga, pois os clientes vão sentir a necessidade de ir a uma loja física e ter a experiência de toque dos produtos, mas que não vão abdicar totalmente desta experiência que foi comprar online.
No sector das bebidas, António Lameira, director de Logística e Planeamento Operacional da SuperBock Group, relembra como começaram por aproveitar o álcool que sobrava da produção da cerveja sem álcool para produzir álcool gel. O principal canal para onde distribuíam, o HORECA, sofreu quebras inéditas por ter fechado durante dois meses, mas que agora começa a recuperar. Por outro lado, as pessoas também começaram a consumir mais em casa, mas a cadeia que tinham estava alinhada com uma realidade anterior e que poderá não voltar ao que era tão cedo.
António Marcelo, Vice-President Global Supply Chain da Visteon Corporation, revela que através do novo Centro de Comando da Visteon, localizado em Portugal, conseguem gerir a cadeia de abastecimento de todo o mundo, e grande parte da supply chain da empresa situa-se na China. O responsável explica que trabalham com supply chains extremamente longas e complexas, e que por vezes não estão dependentes dos seus fornecedores directos.
“Se nós em determinada altura achávamos que conseguíamos controlar e que tínhamos o que é chamado end-to-end visibility, desde os fornecedores aos próprios clientes, posso-lhes dizer que tivemos situações em que tivemos de chegar ao tier 6” – António Marcelo
Para o responsável da Visteon, por as empresas já terem iniciado a caminhada para o 4.0 e para a automação, estas vão olhar menos para o custo de mão-de-obra e que isso fará com que países que eram tidos como não competitivos há alguns anos atrás, devido aos custos de mão-de-obra, se irão tornar extremamente competitivos devido ao nível de automação e digitalização.
A encerrar estes dois dias de conferência, totalmente inéditos tanto para a organização como para os oradores, os últimos três convidados sobem ao plâteau. Cláudia Brito, Director of Supply Chain and Logistics da Kencko, defende que existem três eixos principais na supply chain nos próximos tempos e que a pandemia irá potenciar: a tecnologia, os relacionamentos, nomeadamente com os fornecedores, e a sustentabilidade (social, económica e ambiental). Destaca ainda que para o futuro irá ter como principais desafios acompanhar o ritmo de uma start-up, pois estava habituada ao de uma multinacional já estabelecida, e agora tem de ir ao encontro da “velocidade e rapidez com que tudo acontece na Kencko”.
Telmo Simão, Supply Chain Manager do Grupo Brodheim & Optivisão, comenta que o core business do grupo são as lojas físicas, e de um momento para o outro viram-se privados do seu negócio, “com a agravante que no retalho de moda nós fazemos as compras com seis meses de antecedência, o que quer dizer que as compras para a colecção Outono-Inverno já estavam feitas e a a mercadoria começaria a chegar às lojas em Julho”.
Explica que devido à pandemia têm estado a negociar junto dos fornecedores e a tentar perceber de que forma podem adaptar as suas compras à nova procura, e saber qual será a dita “nova procura”, pois os forecasts de vendas têm por base crescimentos de períodos homólogos, e agora não têm um número histórico que sustente os novos forecasts.
Por isso, estão a tentar reverter a situação e, em vez de comprarem, terem um produto disponível em “book” para que, no caso de a procura aumentar, possam rapidamente disponibilizá-lo aos clientes. Ao mesmo tempo, estão em busca de novos canais de venda para conseguirem escoar esses produtos.
A terminar, Nuno Santos, Site Head Iberian Distribution da McCormick Company, conta que tiveram um crescimento na ordem dos 70% na casa-mãe nos últimos três meses. É que muitas famílias começaram a cozinhar mais em casa e até a fazer pão. Como a empresa também é detentora da marca Vahiné, o fermento de padeiro foi um dos produtos cuja procura disparou e cuja disponibilização tiveram que agilizar.
“Efectivamente, tivemos um bom problema: o mundo decidiu cozinhar” – Nuno Santos
Defende que devido a esta imprevisibilidade todos nós estamos a trabalhar num perfil adaptado, ou seja, sob pressão. Com mais ou menos vendas, todos procuram perceber de que forma conseguirão sair mais fortes desta pandemia, destacando que ela ainda não acabou e poderá haver um novo surto, ou uma nova doença a aparecer.
Têm por base alguns alicerces: a nível processual, garantir que os processos são user-friendly, de fácil aprendizagem, facilmente transmissíveis para novos colaboradores, em qualquer área da supply chain; a importância das pessoas, pois defende que quem levou a Margão para a frente nesta pandemia foram os pickers de armazém e os merchandisers que andam na rua; e a tecnologia, onde vão investir bastante nos próximos cinco anos, internamente na parte de automação de processos repetitivos, de armazenagem, dotando os seus colaboradores de melhores condições para fazerem o seu trabalho.
Poderá ver, ou rever, um resumo do segundo dia AQUI, ou o vídeo dos dois dias AQUI.
Os oradores:





