A Boluda Shipping assinou um acordo para adquirir a totalidade da Samskip, incluindo os seus ativos e operações, numa integração que, segundo as empresas, dará origem à mais abrangente rede europeia de transporte marítimo de curta distância. A rede deverá reunir 32 navios e 18 rotas, com ligações do Norte da Europa à Península Ibérica, às Canárias e à África Ocidental. As duas empresas já operam em Portugal.
A conclusão da transação está prevista para 1 de janeiro de 2027, sujeita à aprovação das autoridades competentes e ao cumprimento das condições acordadas. Até lá, Boluda Shipping e Samskip continuarão a operar de forma independente. O valor do negócio é confidencial, segundo a comunicação da Samskip na Islândia.
A operação junta duas empresas familiares com posições complementares: a Boluda acrescenta à sua atividade de transporte marítimo e logística portuária a rede e a experiência multimodal da Samskip no Norte da Europa. O objetivo anunciado passa por aumentar as ligações e a capacidade disponível, com maior articulação entre transporte marítimo, ferroviário e rodoviário.
Segundo as empresas, a rede conjunta deverá abranger mercados em 28 países, com 21 terminais marítimos, cinco terminais ferroviários e mais de 500 camiões próprios. A movimentação logística anual prevista supera os 750 mil TEU. A Boluda Shipping manifesta ainda a intenção de investir no reforço da capacidade e na expansão das ligações, embora não detalhe, nesta fase, montantes ou projetos.
Uma expansão que já estava no horizonte
A aquisição dá uma nova dimensão à estratégia de internacionalização que a Boluda Shipping vinha a desenvolver. Em declarações à SCM, publicadas em setembro de 2023, Ricardo Jorge Alves, então country general manager da Boluda Lines Portugal, apontava a abertura de rotas em mercados considerados fundamentais como uma das prioridades da companhia.
O responsável identificava também na altura a ambição de alargar a presença na cadeia logística, com serviços porta a porta, armazenagem, seguros de mercadoria e procedimentos aduaneiros. A integração da Samskip enquadra-se nesse percurso, ao acrescentar uma rede multimodal e relações comerciais estabelecidas em vários mercados europeus.
As duas empresas já tinham experiência de trabalho conjunto. Em setembro de 2023, anunciaram um serviço de contentores entre Santander, Dublin e Liverpool, com uma frequência semanal. A operação assentava no terminal da Boluda em Santander, inaugurado em abril desse ano, após um investimento próximo de 40 milhões de euros.
Portugal já faz parte da rede
A presença das duas empresas no mercado português dá à operação interesse direto para os carregadores nacionais. A Samskip apresenta na sua oferta para Portugal ligações dos portos de Leixões e Setúbal a Tilbury e Roterdão, com acesso à sua rede multimodal no Norte da Europa. A Boluda divulga, por seu lado, serviços regulares de grupagem a partir de Leixões e Setúbal para Praia, Mindelo, Sal e Boa Vista, em Cabo Verde.
A integração poderá aproximar estas ofertas e alargar as opções de transporte disponíveis, mas o anúncio ainda não especifica novas escalas, frequências ou alterações aos serviços que abrangem Portugal. O alcance da operação para o mercado nacional dependerá, por isso, da forma como as duas redes forem articuladas após a conclusão da compra.
Roterdão deverá assumir um papel estratégico no desenvolvimento e na coordenação dos serviços. Além de acolher a sede da Samskip, a cidade recebeu novos escritórios da Boluda Shipping em junho de 2026, num reforço da presença da companhia no Norte da Europa.
Aquisição sucede à venda de serviços à CLdN
O acordo surge num ano de reorganização da Samskip. Em junho, a empresa anunciou ter recebido as autorizações necessárias para transferir para a CLdN os seus serviços de transporte entre Roterdão e o Reino Unido e a Irlanda. Essa atividade tinha, assim, sido objeto de uma operação anterior ao acordo agora anunciado com a Boluda.
Na nova estrutura, Ólafur Orri Ólafsson continuará como CEO da Samskip e acompanhará a integração. As empresas destacam também a importância da marca Samskip e das suas origens islandesas na continuidade do negócio.
Para os clientes, a promessa é a de uma oferta mais ampla, capaz de combinar percursos marítimos e ferroviários com recolha e entrega por estrada. Falta conhecer como essa escala se traduzirá em serviços concretos: que corredores ganharão capacidade, onde surgirão novas ligações e que tempos de trânsito poderão ser oferecidos. São essas decisões que determinarão o efeito da aquisição nas cadeias de abastecimento servidas pelas duas empresas.


