Saber que embalagens circulam, onde acabam e como podem regressar à operação é um dos desafios que o PPWR coloca às empresas. Na primeira jornada da LogiPack, uma sessão promovida pela AIMMP trouxe a discussão para o terreno: organizar a reutilização, reunir informação e preparar as equipas. A feira continua amanhã, 28 de outubro, e prolonga-se até quinta-feira, no Centro de Congressos de Lisboa, na Junqueira.
Uma palete chega ao destino com a mercadoria. E depois? É descartada, recuperada, reparada ou volta a circular? A resposta pode parecer simples, mas conhecer estes percursos, à escala de uma cadeia de abastecimento, é um dos trabalhos que as empresas precisam de fazer para preparar a transição para sistemas de reutilização de embalagens.
O tema esteve em discussão esta terça-feira, 27 de outubro, na sessão “PPWR e o Futuro das Embalagens. A sua empresa está preparada?”, organizada pela AIMMP – Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal, no âmbito da segunda edição da LogiPack. António Lorena, managing partner da 3drivers, e Marta Résio, diretora de Sustentabilidade, Comunicação e Marketing da GS1 Portugal, abordaram as implicações do novo enquadramento para a logística e os passos que as empresas podem começar a dar.
O Regulamento Europeu de Embalagens e Resíduos de Embalagens, conhecido pela sigla inglesa PPWR, começou a aplicar-se de forma faseada em 12 de agosto de 2026. Várias exigências têm como horizonte 2030, o que coloca desde já às empresas decisões sobre materiais, processos, informação e organização dos circuitos.
“Tudo aquilo que nós queiramos que esteja implementado em termos de organização de sistema em 2030, hoje temos que começar a trabalhar nisto”, afirmou António Lorena.
Reutilizar exige conhecer o percurso da embalagem
Na intervenção, centrada nas embalagens de transporte, o responsável da 3drivers defendeu a necessidade de caracterizar melhor o sistema português. Quantas paletes estão no mercado? Como circulam entre os diferentes operadores? O que acontece quando chegam à distribuição ou ao fim de um percurso logístico?
Para António Lorena, estas perguntas são determinantes para perceber o ponto de partida e as mudanças necessárias. A reutilização depende da existência de circuitos que permitam recuperar as embalagens, prolongar a sua vida útil e assegurar a reparação quando necessário. Exige também informação que permita acompanhar e demonstrar o funcionamento desses circuitos.
O PPWR prevê, a partir de 2030, uma meta de pelo menos 40% de embalagens reutilizáveis dentro de um sistema de reutilização para determinados formatos de embalagem de transporte. Estabelece ainda requisitos específicos para movimentos entre instalações da mesma empresa ou de empresas ligadas, sujeitos ao âmbito e às exceções previstos no regulamento.
A dificuldade, salientou o consultor, está também na medição: acompanhar os movimentos, distinguir os circuitos e reunir dados fiáveis pode representar um trabalho significativo para os operadores.
Entre as questões lançadas ficou a possibilidade de uma estrutura coletiva, com participação dos produtores de embalagens, da logística, da distribuição e de outros intervenientes. António Lorena apontou os sistemas auto-organizados como uma das opções a discutir pelo setor e pelas autoridades nacionais.
O aumento da reutilização coloca desafios aos fabricantes de embalagens. Se cada unidade permanecer mais tempo em circulação, o negócio poderá passar a depender mais de atividades como reparação, gestão dos circuitos e serviços logísticos associados.
António Lorena defendeu que esta transição deve ser preparada com uma perspetiva de médio prazo, para dar às empresas condições para desenvolver outras fontes de receita e adaptar a sua atividade.
O responsável chamou também a atenção para os custos de acompanhamento e fiscalização e para a sua distribuição ao longo da cadeia. Na sua perspetiva, compreender o impacto sobre as empresas portuguesas é indispensável para organizar a aplicação do regulamento.
Começar pelo que a empresa já sabe
Marta Résio trouxe à sessão uma proposta prática: transformar a pergunta “a empresa está preparada?” num conjunto de verificações que permita identificar o trabalho feito e as lacunas existentes.
O primeiro passo é inventariar os formatos de embalagem e os mercados onde são colocados. Depois, identificar o papel da empresa na cadeia de valor – fabricante, importador, distribuidor ou uma combinação de funções – e reunir os dados sobre materiais, pesos, componentes e fornecedores.
A responsável da GS1 Portugal recomendou ainda que as empresas analisem as possibilidades de redução de embalagem, o espaço vazio e as soluções de reutilização e reciclagem, bem como as obrigações aplicáveis em matéria de rotulagem, documentação e responsabilidade do produtor.
Este levantamento precisa de responsáveis internos, prazos e acompanhamento. A informação pode existir em diferentes departamentos ou sistemas; o desafio é agregá-la, saber onde está e torná-la acessível a quem precisa de a utilizar.
Para iniciar esse trabalho, Marta Résio aconselhou as empresas a tirar partido dos recursos de que já dispõem. A aquisição de novas ferramentas deve decorrer das necessidades identificadas, com atenção aos meios disponíveis, sobretudo nas pequenas e médias empresas.
Nas perguntas do público, a capacidade de resposta das PME e o contributo da inteligência artificial trouxeram a discussão para os recursos necessários à adaptação.
A agregação e gestão de dados foi uma das aplicações destacadas por Marta Résio. A tecnologia pode aliviar o trabalho, mas exige organização interna da informação, regras de acesso e responsabilidades definidas.
António Lorena apontou também a possibilidade de utilizar reconhecimento de imagem para verificar o estado das embalagens. A aplicação depende, contudo, da forma como os circuitos estão organizados: num sistema fechado, com responsabilidades e pontos de recolha identificados, é mais fácil integrar operações de inspeção e reparação do que numa rede dispersa por múltiplos agentes.
As intervenções convergiram na necessidade de começar já pelo diagnóstico. Conhecer as embalagens utilizadas, os fluxos em que participam e a informação disponível permite estabelecer prioridades e perceber que mudanças exigem articulação com clientes, fornecedores e parceiros logísticos.
LogiPack continua amanhã
A sessão integrou o programa de conferências da LogiPack, que decorre até 29 de outubro no Pavilhão do Rio do Centro de Congressos de Lisboa, em Alcântara. A feira continua amanhã, quarta-feira, e na quinta-feira, das 10h00 às 19h00.
Promovida pela Fundação AIP, através da Lisboa FCE, a segunda edição reúne equipamentos, tecnologias e serviços para embalagem, armazenagem, intralogística, automação, transporte, distribuição e gestão da cadeia de abastecimento. O programa de conferências acompanha a exposição, com debates sobre inovação, sustentabilidade e adaptação às novas exigências do setor.


