A carga pode ser do concorrente e viajar no nosso navio. O exemplo, partilhado no Dia do Transitário 2026, deu corpo a uma discussão sobre como crescer através da cooperação. Em Leixões, falou-se de capacidade partilhada, ligações por concretizar e recursos desperdiçados numa cadeia em que a eficiência de cada empresa depende também das restantes.

Carlos Moldes, número um do Grupo Moldtrans, subiu ao palco mas não se apresentou como um especialista. Preferiu dizer que era um homem com experiência, alguém que vai “acumulando juventude”. E, foi com essa experiência, que trouxe ao Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões uma história de entusiasmo pela ferrovia que continua à espera de um desfecho. Quando começou a trabalhar, há 45 anos, acreditava que o comboio era o futuro. Hoje, ainda acredita. “Continuo a pensar que o futuro está aí, porque o presente não ajuda muito”, observou.

A ironia atravessou uma das questões centrais do Dia do Transitário, que a Associação dos Transitários de Portugal (APAT) realizou esta sexta-feira, 23 de outubro, sob o tema “Escala e Eficiência: O Novo Paradigma Logístico”. Como ganhar dimensão, aproveitar recursos e ligar mercados quando as infraestruturas, os sistemas e os próprios intervenientes continuam a trabalhar a velocidades diferentes?

O presidente do Grupo Moldtrans trouxe uma resposta assente no trabalho diário. A intermodalidade pode ter conquistado espaço nos programas das conferências e nos encontros, mas há muito que faz parte da profissão. “Sempre fomos intermodais”, lembrou. Uma mercadoria que chega de outro continente, é desalfandegada, armazenada, encaminhada para uma ilha e distribuída no destino já exige essa capacidade de combinar meios e coordenar operações. Para quem olha de fora, pode parecer um percurso difícil. Para quem o organiza regularmente é o trabalho de todos os dias.

Carlos Moldes reconheceu os progressos nas ligações marítimas de curta distância, mas pediu às administrações condições para tornar a integração entre modos mais fácil de concretizar. Aos colegas de profissão, deixou outro recado: “Somos competidores, não somos inimigos.”

O concorrente vai a bordo

Pouco depois, na mesa-redonda moderada pela jornalista Ana Guedes Rodrigues, essa ideia ganharia um exemplo concreto. Duarte Rodrigues, administrador e COO do Grupo Sousa, contou como um grande armador, que concorria com o seu grupo numa ligação, optou por retirar o seu navio e comprar espaço no serviço do concorrente. Os contentores passaram a viajar a bordo do mesmo navio. A concorrência comercial manteve-se; a utilização da capacidade mudou.

“Vão os contentores do meu concorrente no nosso navio”, resumiu. Uma solução que permite cooperar numa parte da operação sem deixar de disputar o mercado.

Era uma resposta prática à pergunta sobre como ganhar escala. Partilhar capacidade, aproveitar fluxos e encontrar interesses comuns são possibilidades também para empresas que procuram os mesmos clientes. José António Ruiz, comissário do Governo espanhol para o Corredor Atlântico, recuperou o exemplo dos voos em código partilhado para defender uma maior colaboração na logística.

O debate passou igualmente pelos limites da dimensão. Num transporte marítimo marcado pela concentração dos grandes operadores, Duarte Rodrigues apontou oportunidades nos mercados de nicho, onde o conhecimento das necessidades e a proximidade ao cliente permitem construir uma oferta diferenciada. “O nosso core são nichos”, explicou, distinguindo esse posicionamento da competição pelos grandes fluxos globais.

Mas, a escala perde utilidade quando a cadeia acumula desperdícios. Ema Leitão, presidente da ANTRAM, colocou os motoristas no centro dessa discussão. “O nosso principal desafio hoje são as pessoas”, afirmou. Num setor confrontado com falta de profissionais, as horas passadas à espera são capacidade que se perde. Melhorar a articulação entre operações, adequar horários e partilhar informação pode ter um efeito concreto na disponibilidade do transporte, mas um camião imobilizado, à espera de carregar ou descarregar, é também um motorista que não pode estar a fazer outra ligação.

A dirigente insistiu também na complementaridade entre estrada e ferrovia. O camião assegura percursos de que os restantes modos precisam. Tratá-los como adversários dificulta a construção da cadeia que todos dizem ser unânimes em querer integrar.

A inteligência artificial entrou na conversa por essa via: como ferramenta para coordenar recursos, antecipar necessidades e reduzir trabalho administrativo. O entusiasmo veio acompanhado de uma chamada à realidade: a informação pode circular melhor, mas continuam a ser necessários profissionais, acessos e condições para carregar, transportar e entregar.

Ter um mercado não chega

Isabel Quintas, diretora de Internacionalização da AICEP, trouxe a perspetiva das empresas que procuram vender fora do país. Um produto pode ser bom e encontrar compradores; sem capacidade para o entregar, perde competitividade e confiança. “Hoje em dia já não se consegue falar de um produto sem falar de entrega. É impensável”, afirmou.

A questão começa, por isso, antes da expedição. A escolha de um mercado precisa de considerar a forma de lá chegar e de distribuir o produto depois da chegada. “A questão não é só levar o produto para o mercado, é distribuir o produto no mercado”, sublinhou.

Para as pequenas e médias empresas, com volumes insuficientes para determinadas soluções de transporte, agregar cargas e trabalhar em conjunto ganha importância. Há empresas com destinos comuns e necessidades distintas que podem encontrar vantagens nessa aproximação, desde que exista informação e capacidade para organizar a resposta. No final, Isabel Quintas deixou uma reflexão sobre a mudança nas expectativas dos clientes: se antes esperar por um produto podia ser sinal de sofisticação, hoje pode ser entendido como fragilidade.

Essa urgência contrasta com o tempo das infraestruturas. José António Ruiz foi particularmente crítico em relação aos prazos franceses para as ligações do Corredor Atlântico. Portugal e Espanha podem investir e articular projetos, mas a ligação ao restante continente depende de decisões tomadas para lá dos Pirenéus.

“Temos de conseguir que esta União Europeia seja uma união de verdade”, defendeu. A interoperabilidade, lembrou, ultrapassa a discussão sobre a bitola: envolve eletrificação, sinalização e compromissos entre países. Uma ligação nacional melhorada continua dependente do que encontra do outro lado da fronteira.

Também as regras ambientais foram discutidas à luz da competitividade. Duarte Rodrigues contestou os efeitos de uma aplicação regional de custos a uma atividade marítima global, alertando para a vantagem que pode ser criada para portos concorrentes fora da União Europeia. Ema Leitão defendeu que a transição energética precisa de soluções económica e operacionalmente viáveis. A preocupação comum era perceber quem suporta os custos e como chegam ao produto final.

Quando tudo chega, o esforço não se vê

Na abertura, Joaquim Pocinho, presidente da Direção da APAT, já tinha colocado o transitário nesse espaço entre as exigências do cliente e a complexidade do mundo: encontrar alternativas quando uma rota fica indisponível, interpretar regras, articular transportes, gerir documentação e risco. “Uma associação empresarial não pode limitar-se a reagir às decisões, tem de participar na sua construção”, afirmou, ao abordar a intervenção institucional da APAT e a necessidade de acompanhar os centros onde se definem as condições de funcionamento das empresas.

A logística foi apresentada como uma “infraestrutura invisível da economia”. Quando funciona, facilita o comércio e o investimento. Quando falha, expõe as fragilidades das empresas. Na mensagem de Paulo Paiva, presidente da Mesa da Assembleia Geral, lida por António Nabo Martins, diretor-geral da APAT, em sua representação, a cooperação surgira também como caminho para dar dimensão às empresas, a par da qualificação das pessoas.

À tarde, Tiago André Lopes retomou essa invisibilidade, mas por outro ângulo. O professor de Relações Internacionais da Universidade Lusíada, no Porto, chamou a atenção para um paradoxo: o esforço dos operadores para manter as mercadorias em movimento pode levar a sociedade a subestimar a gravidade das perturbações. Se os produtos continuam a chegar, ainda que mais caros ou com algum atraso, fica a sensação de que pouco mudou.

A análise das rotas alternativas trouxe a discussão de volta às condições concretas. Um corredor anunciado politicamente pode continuar dependente de infraestruturas por construir, capacidade limitada ou entendimentos entre países cuja estabilidade está longe de garantida. Para quem tem uma carga a encaminhar, uma linha desenhada num mapa só ganha valor quando pode ser utilizada.

Tiago André Lopes aconselhou o contacto direto com os investigadores, para trabalhar problemas específicos. Depois de tantas referências às redes e às parcerias, a troca mostrou como também essas ligações precisam de alguém que responda do outro lado.

O desafio deixado às empresas foi preparar cenários, identificar as operações que não podem parar e procurar perspetivas diferentes. Incluindo na academia. “Desafiem-nos. Peçam-nos para pensar convosco”, propôs. “Apresentem-me um problema para eu pensar e deem-me dois dias livres para pensar nele.”

Foi aí que a intervenção encontrou uma réplica da organização. A aproximação às universidades, ouviu-se, já tinha sido tentada, com protocolos e contactos nem sempre traduzidos em trabalho concreto. O convite à colaboração recebeu o relato das dificuldades em consegui-la.

 

Juntar mais vozes

Depois do almoço, o humorista Eduardo Madeira encontrou outra forma de pôr os transitários a trabalhar em conjunto: a cantar. Entre piadas, referências à profissão e uma canção dedicada à APAT, o artista foi pedindo a participação da sala. Por momentos, ganhar escala passou por cantar em uníssono e juntar o maior número possível de vozes ao refrão.

Esse “orgulho profissional” tinha atravessado logo no início da manhã a intervenção de Carlos Moldes. Ao recordar a pandemia, sublinhou o papel de quem continuou a fazer chegar alimentos, medicamentos e outros bens quando grande parte do mundo estava parada. “Não percamos o orgulho em tudo o que fazemos”, pediu. Aos mais jovens, deixou a convicção de que estão numa profissão com futuro.

No Terminal de Cruzeiros de Leixões, com o mar como pano de fundo e num dia consagrado a celebrar a atividade, a conversa regressou várias vezes a terra: às horas de espera de um motorista, aos carris que faltam, às ligações que dependem de decisões do outro lado da fronteira. Ficou claro que ganhar escala passa por resolver estes problemas, mas também por saber escolher com quem fazer o caminho. Por vezes, o primeiro passo é dar espaço a bordo à carga do concorrente.