Um ataque informático pode interromper operações; uma credencial comprometida pode facilitar uma retirada ilícita de carga; uma falha de comunicação pode atrasar a resposta. Na CIDIS 2026, autoridades, especialistas e operadores discutiram como enfrentar ameaças que cruzam sistemas digitais, pessoas e infraestruturas. Em Sines, essa preparação já passa por treinar equipas num ambiente que simula o porto.

Na Port Cyber Arena, em Sines, os formandos encontram sistemas e equipamentos que reconhecem da atividade portuária. Há redes informáticas, servidores, aplicações e modelos físicos de terminais. Durante os exercícios, esses sistemas são atacados e as equipas têm de identificar o problema, responder e recuperar a operação. Num dos modelos, o cenário é um terminal de contentores. Noutro, tanques, sensores, motores e válvulas reproduzem componentes de instalações de granéis líquidos ou gás. A formação permite observar como um incidente digital se pode traduzir numa perturbação física.

O caso foi apresentado por Ana Rita Martins, da Administração dos Portos de Sines e do Algarve (APS), na sessão de Segurança e Resiliência da CIDIS 2026, realizada em Lisboa, nos dias 19 e 20 de outubro.

Sob a condução do comodoro Sérgio Silva Pinto, o painel cruzou as perspetivas da Agência Europeia da Segurança Marítima (EMSA), do Banco Mundial, da APS, da Polícia Judiciária e da VMI Security. As ameaças discutidas foram dos drones à infiltração criminal, passando pelos ciberataques. Em comum, a necessidade de preparar uma resposta que envolva toda a comunidade portuária.

Treinar antes de a operação parar

A Port Cyber Arena foi desenvolvida pela APS no âmbito da agenda NEXUS. Combina tecnologias de informação com sistemas operacionais e aplicações utilizadas no contexto portuário. Ana Rita Martins descreveu formações em que os participantes começam por conhecer os equipamentos e os cenários, realizam exercícios e enfrentam depois incidentes com maior autonomia. Os formadores acompanham o desempenho e ajustam a dificuldade dos ataques simulados.

A preparação abrange técnicos, equipas de resposta a incidentes e gestores. Inclui também comunicação: quem deve ser informado, em que momento e quando é necessário escalar uma decisão. A tecnologia de proteção perde eficácia se as pessoas desconhecerem os procedimentos ou não conseguirem agir sob pressão. A formação procura tornar essa resposta mais rápida e coordenada, incluindo a recuperação após um ataque.

Edoardo Casarotto, do Banco Mundial, enquadrou a cibersegurança como uma condição para a continuidade das cadeias de abastecimento. Os sistemas partilhados entre autoridades, terminais, alfândegas, armadores e prestadores logísticos melhoram a circulação de informação. Criam também dependências através das quais uma perturbação se pode propagar.

O estudo apresentado pelo Banco Mundial, baseado num inquérito a 109 intervenientes do setor portuário, identifica diferenças de preparação entre economias de rendimento elevado e países de rendimento baixo e médio. A investigação conclui, porém, que nenhum ecossistema portuário parece estar plenamente preparado.

A resposta proposta é contínua: conhecer os ativos, avaliar vulnerabilidades, definir prioridades, testar medidas e incorporar as lições dos exercícios e incidentes. Os planos de continuidade precisam de responder a perguntas concretas. Que serviços devem ser restabelecidos primeiro? Quem comunica o incidente? Quem decide? Que entidades têm de participar? Em quanto tempo é possível conter a perturbação?

A partilha de informação entre organizações é outra componente. Um operador pode conhecer uma ameaça que os restantes ainda não identificaram; uma resposta isolada pode deixar dependências críticas por resolver.

 

As inspeções revelam falhas de preparação

Santiago Encabo, da EMSA, trouxe conclusões das inspeções realizadas no espaço europeu. Entre as fragilidades apontadas estão a atenção insuficiente aos exercícios, a atualização das avaliações de segurança perante novos investimentos e a consideração das ameaças digitais e dos drones.

Os exercícios podem ser encarados como mais uma obrigação a cumprir, mas permitem testar se os procedimentos funcionam e manter as equipas conscientes do risco. Os drones acrescentam uma nova dimensão à proteção dos portos. São utilizados em atividades legítimas, como inspeção e monitorização, mas podem também representar uma ameaça. A capacidade de distinguir situações depende de coordenação.

O exemplo apresentado é simples: para identificar uma operação suspeita, os responsáveis pela segurança precisam de saber que drones estão autorizados a trabalhar no porto. A informação operacional torna-se, assim, parte da proteção.

Vítor Ananias, coordenador de investigação criminal da Polícia Judiciária, alargou a discussão para além das mercadorias ilícitas encontradas num contentor. O crime organizado procura informação comercial, acessos, pessoas e empresas que lhe permitam explorar a cadeia logística. A rapidez, o volume de carga e a multiplicidade de intervenientes que tornam um porto eficiente oferecem também oportunidades de ocultação e infiltração.

“O alvo não é apenas o contentor”, sublinhou. A proteção precisa de abranger as condições que permitem movimentá-lo, incluindo credenciais digitais, procedimentos e informação interna.

Corrupção, recrutamento e intimidação foram identificados como vulnerabilidades humanas que os sistemas tecnológicos, por si só, não resolvem. A investigação criminal precisa de se articular com autoridades portuárias, alfândegas e operadores, e começar antes da chegada da carga ao destino.

O caso de Roterdão apresentado pela PJ ilustra a relação entre segurança digital e combate ao tráfico. A iniciativa Secure Chain, destinada a reduzir o uso ilícito de códigos PIN na libertação de contentores, foi associada a uma descida de 37 incidentes em 2022 para seis em 2024. A redução de uma vulnerabilidade exige, contudo, acompanhamento: as organizações criminosas podem adaptar o método ou procurar outro porto.

Tecnologia e preparação sob discussão

João Ilhéu, da VMI Security, defendeu o reforço da inspeção não intrusiva e a integração de dados dos contentores, documentação e imagens de raios X para apoiar a seleção orientada pelo risco. Na perspetiva apresentada pela empresa, o cruzamento da informação pode melhorar a capacidade de análise sem comprometer a continuidade dos fluxos. A decisão de intervir permanece nas autoridades.

O debate evidenciou diferenças na avaliação da preparação existente. Vítor Ananias considerou que há instrumentos, capacidades e cooperação relevantes, insistindo que a preparação precisa de ser permanentemente atualizada. João Ilhéu fez uma leitura mais crítica, defendendo maior capacidade de controlo para acompanhar o crescimento dos fluxos.

A diferença reapareceu na discussão sobre os scanners. A PJ recordou situações em que a contaminação da carga ocorreu depois da inspeção, mostrando os limites de uma medida isolada. O representante da VMI defendeu a combinação de várias camadas de informação e tecnologia.

O ponto comum foi a necessidade de ligar essas medidas à atuação das pessoas e à cooperação entre entidades. Detetar uma anomalia, investigar uma rede e manter uma operação segura são tarefas distintas que precisam de se reforçar.

Na arena de treino de Sines, essa articulação é exercitada antes de existir uma interrupção real. No trabalho policial, começa muitas vezes no país de origem da carga. Em ambos os casos, a capacidade de resposta depende de informação que chegue à entidade certa, a tempo de ser utilizada.