Um estudo do Grupo Adecco revela que 77% dos trabalhadores da logística se sentem confortáveis a colaborar com agentes de IA, mas apenas 27% foram envolvidos pelos empregadores na reformulação do trabalho. A análise internacional identifica falhas na formação, na preparação das lideranças e na participação das equipas.

A inteligência artificial está a mudar as competências exigidas na logística, mas a participação dos trabalhadores nessa mudança continua limitada. Embora 77% dos profissionais inquiridos pelo Grupo Adecco se sintam confortáveis a colaborar com agentes de IA, apenas 27% dizem ter sido envolvidos pelos empregadores na redefinição do trabalho afetado pela tecnologia.

As conclusões constam do estudo do Grupo Adecco “Where Talent and Technology Collide: How AI Is Shaping the Future of Logistics”, que cruza resultados de dois inquéritos internacionais realizados pelo grupo junto de trabalhadores e líderes empresariais. A análise aponta para um desfasamento entre a adoção tecnológica e a capacidade das organizações para preparar as pessoas que vão trabalhar com essas ferramentas.

Do lado das empresas, 55% dos dirigentes da logística afirmam que a IA já alterou as competências necessárias para determinadas funções e 34% referem que as próprias descrições de funções foram revistas. A formação, porém, não acompanha toda esta mudança: 42% das organizações não disponibilizam formação formal para desenvolver ou reconverter competências em IA.

Ao mesmo tempo, 34% dos responsáveis esperam que os trabalhadores atualizem, por iniciativa própria, as suas competências, funções e responsabilidades para se adaptarem ao impacto da tecnologia.

Preparação também falta no topo

As dificuldades não se limitam às equipas operacionais. Mais de metade dos dirigentes inquiridos no setor, 51%, consideram que as suas equipas de liderança não estão bem preparadas para utilizar ferramentas de IA na tomada de decisão.

Há também empresas a avançar sem orientações definidas: 23% dos responsáveis afirmam que a sua organização não tem uma política de inteligência artificial, deixando aos trabalhadores decisões sobre a forma de a utilizar.

Entre os obstáculos à melhoria da estratégia de gestão de pessoas, os dirigentes identificam a complexidade da mudança, referida por 38%, a falta de sistemas informáticos ou dados fiáveis, apontada por 33%, e a ausência de autoridade dos recursos humanos para implementar mudanças, mencionada por 29%.

O estudo defende, por isso, que a preparação das lideranças deve acompanhar as exigências colocadas às equipas, com formação prática e capacidade para explicar como a tecnologia vai afetar o trabalho.

Entre os trabalhadores, a disponibilidade para usar IA não significa ausência de preocupação. Se 81% dos inquiridos na logística acreditam que a tecnologia está a criar mais empregos, 37% dizem já ter observado, ou antecipar, situações de perda de postos de trabalho. O índice de confiança na IA entre os profissionais do setor situa-se nos 4,36 pontos numa escala de zero a dez, ligeiramente abaixo da média global de 4,5 registada no inquérito aos trabalhadores.

Estes resultados mostram que a aceitação das ferramentas pode coexistir com dúvidas sobre as suas consequências. Para a Adecco, envolver as equipas na introdução de IA e na redefinição das funções é uma condição para construir confiança, até porque são os próprios trabalhadores que conhecem as tarefas e as dificuldades da operação.

A vontade de acompanhar a mudança existe: 78% dos profissionais inquiridos pretendem desenvolver as suas competências para responder às novas exigências.

Novas funções, novas exigências de recrutamento

Na leitura do estudo, a automação e a IA estão a alterar o perfil do trabalho nos armazéns, com maior peso de tarefas de supervisão de sistemas, identificação de falhas e análise de dados. Esta evolução aumenta a necessidade de competências técnicas e de funções que combinam conhecimento operacional com capacidade para trabalhar com tecnologia.

A localização das instalações pode tornar o recrutamento mais difícil. Os polos logísticos, tradicionalmente próximos de portos, aeroportos e ligações ferroviárias, nem sempre estão perto dos profissionais com as competências digitais procuradas. Investir nas equipas existentes torna-se, assim, uma resposta às necessidades da operação e à concorrência por talento. Ainda assim, apenas 45% das organizações de logística inquiridas incentivam a mobilidade interna, uma via para aproveitar experiência acumulada e preparar trabalhadores para novas responsabilidades.

A Adecco propõe cinco prioridades para acompanhar esta transição: envolver os trabalhadores, desenvolver competências digitais nas lideranças, apoiar a formação e a reconversão profissional, melhorar a qualidade dos dados e medir os resultados. O desafio passa por perceber como a adoção de IA se traduz em mudanças nas funções, nas condições de trabalho e no desempenho das operações.

 

Nota metodológica: o estudo utiliza dados do “Global Workforce of the Future 2025”, que inquiriu 37 500 trabalhadores de 31 países e 21 setores, e do “Business Leaders Research”, de maio de 2026, realizado junto de 2000 dirigentes de topo de 13 países e 16 setores. Estas são as amostras totais dos dois inquéritos. O documento não discrimina a dimensão das amostras da logística nem apresenta resultados específicos para Portugal.