Uma empresa que começou a vender bacalhau em 1776 tem muitas histórias para contar. Algumas estavam nos arquivos, outras na memória de quem lá trabalhou. “Garland 250 Years – All in One World”, apresentado a 13 de outubro, no Hotel Palácio Estoril, reúne-as num livro que permite acompanhar 250 anos de negócio e de vida em Portugal.

O que fica de uma empresa ao fim de 250 anos? Ficam documentos, fotografias, nomes, datas. Ficam também histórias que nunca chegaram a ser escritas, episódios que alguém ainda sabe contar, razões para decisões que os arquivos, por si só, nem sempre conseguem explicar.

Foi pelas memórias de Bruce Dawson que o livro começou. Há mais de três anos, a administração da Garland desafiou-o a registar o que recordava do seu percurso. Tinha estado ligado à empresa durante meio século, 25 desses anos como presidente. Conhecia pessoas, negócios e circunstâncias que importava guardar.

Desse trabalho nasceu “Garland 250 Years – All in One World”, apresentado no Hotel Palácio Estoril, a 13 de outubro. A obra recua a 1776, quando Thomas Garland fundou uma empresa para vender e distribuir bacalhau em Portugal e acompanha o caminho até ao grupo de logística, transportes e navegação de hoje.

No prefácio, Bruce Dawson imagina o espanto do fundador se pudesse ver o que aconteceu ao negócio. A atividade mudou profundamente e, ao longo de dois séculos e meio, apenas duas famílias estiveram à frente da sua propriedade e gestão: os Garland e os Dawson.

À volta da empresa, o país foi mudando. Vieram as invasões francesas, caiu a monarquia, atravessaram-se duas guerras mundiais, uma ditadura e uma revolução. Para quem agora conhece o desfecho, é fácil arrumar tudo numa cronologia. Quem teve de gerir o negócio em cada um desses momentos seguramente que decidiu muitas vezes sem saber o que vinha a seguir.

É nessa relação entre os acontecimentos e as escolhas que o livro encontra matéria para contar a história da Garland.

 

O que os documentos guardam
e o que as pessoas recordam

A investigação apoiou-se nos textos “Dawson Story” e “Garland in Newfoundland”, de Bruce Dawson, no arquivo histórico da empresa, em arquivos municipais e em obras sobre a história portuguesa. A editora Have a Nice Day desenvolveu ao longo dos últimos seis meses o trabalho complementar de pesquisa, entrevistas e escrita.

Foram ouvidas 35 pessoas, em cerca de 35 horas de conversas. Antigos e atuais colaboradores partilharam as suas recordações, a que se juntaram perspetivas de representantes de entidades empresariais, académicos e profissionais ligados à logística. Entre os contributos estão os da Câmara de Comércio Luso-Britânica, da APAT, de Filipe Barros, executive manager da Supply Chain Magazine e de Alcibíades Paulo Guedes, consultor e docente na área.

Reunir esse material obrigou a escolher. A jornalista Teresa Ribeiro, que escreveu a obra, destaca um episódio da crise de 2008–2012: com a economia em recessão, a Garland decidiu investir em novas instalações na Maia. A decisão ajuda a dar uma medida concreta à palavra adaptação, tão frequente quando se fala de empresas antigas. Neste caso, houve um investimento feito num período de incerteza, com consequências para o rumo do negócio. Noutros momentos, foi preciso reconhecer novas necessidades dos clientes e encontrar forma de lhes responder.

Na apresentação, Filipe Barros, executive manager da Supply Chain Magazine, recordou a aposta nas operações logísticas e na armazenagem, bem como a criação da Garland Customs Solutions e a ligação marítima direta à Irlanda, em resposta às dificuldades trazidas pelo Brexit. “O valor de uma empresa não está apenas naquilo que sabe fazer. Está também na sua capacidade de perceber quando o mercado precisa que se faça algo diferente”, afirmou.

 

250 anos para memória futura

A passagem destas histórias a papel permite que deixem de depender apenas da memória de quem as viveu ou ouviu contar. Os documentos ganham contexto, as recordações encontram outras vozes e os episódios dispersos passam a fazer parte de um relato que pode ser consultado, discutido e transmitido.

Há também uma escolha em dar-lhes esta forma. Num negócio habituado a medir tempos de trânsito, coordenar movimentos e responder ao que acontece a cada dia, um livro pede que se pare; que se volte atrás; que se demore numa fotografia ou até que se procure perceber uma decisão tomada décadas antes.

Ricardo Sousa Costa, administrador da Garland com o pelouro do Marketing e Comunicação, apresenta a obra como “um tributo a todos aqueles que, geração após geração, deram vida à admirável história da Garland e contribuíram para moldar o seu futuro”.

Muitos desses nomes e episódios poderiam ficar pelo caminho, mas agora estão em papel, ao alcance de quem vier a seguir.