Desde 2013, o programa Wake Up envolveu 469 motoristas e identificou 62 casos de apneia obstrutiva do sono moderada a grave. O receio de consequências profissionais foi uma das principais dificuldades na adesão ao rastreio.
Um programa de rastreio da Patinter identificou 62 casos de Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) moderada a grave entre motoristas de pesados. Criado em 2013, o Wake Up procura detetar a doença e encaminhar os profissionais para acompanhamento especializado, numa articulação entre a transportadora, a medicina do trabalho, a Linde Saúde e o Serviço de Pneumologia da ULS Viseu Dão-Lafões.
Segundo os dados divulgados em comunicado, 469 motoristas responderam ao questionário inicial de rastreio ao longo destes treze anos. Destes, 146 apresentaram sinais que justificaram a realização de um estudo do sono, tendo sido confirmado o diagnóstico em 62 casos. Atualmente, 45 motoristas encontram-se em tratamento ativo.
O programa nasceu após a identificação de sinais recorrentes de cansaço e fadiga entre os profissionais. A apneia obstrutiva do sono provoca interrupções repetidas da respiração durante o sono e pode causar sonolência diurna e dificuldades de concentração e atenção, com implicações para quem passa várias horas ao volante.
O rastreio começa por um questionário sobre sintomas e fatores de risco e, quando existe suspeita clínica, o motorista realiza um estudo do sono e, se o diagnóstico for confirmado, é encaminhado para acompanhamento hospitalar. Uma vez por ano, por ocasião do Dia Mundial do Sono, a iniciativa estende-se aos familiares diretos dos colaboradores.
Medo de perder trabalho dificultou o arranque
Nos primeiros anos, a equipa encontrou resistência entre os motoristas, que receavam as consequências de um eventual diagnóstico para a sua atividade profissional. A sensibilização tornou-se, por isso, uma parte central do projeto.
“No início, o maior desafio não era clínico, era humano: convencer os motoristas de que fazer o rastreio não os colocava em risco profissional, pelo contrário. Foi um trabalho de proximidade, feito ao longo de anos, que hoje se reflete numa adesão muito superior à que tínhamos no arranque do programa”, afirma Vasco Jorge, médico especialista em medicina do trabalho na Patinter.
Daniela Santos, responsável de comunicação e marketing da transportadora, sublinha a importância da confiança dos colaboradores no processo. “Não se trata apenas de identificar uma doença, mas de criar uma cultura de confiança em que os colaboradores sintam que o objetivo é protegê-los, cuidar do seu bem-estar e nunca penalizá-los”, refere.
A Patinter reporta também uma subida do tempo médio de utilização noturna do equipamento de tratamento entre os motoristas acompanhados. Em janeiro de 2026, era de quatro horas e 31 minutos por noite; nos dados agora divulgados, passou para cinco horas e dois minutos, mais 31 minutos.
Ana Macedo, especialista clínica da Linde Saúde, associa esta evolução ao trabalho de acompanhamento. “Ao longo destes 13 anos, temos vindo a aperfeiçoar continuamente o processo de rastreio e acompanhamento, tornando-o cada vez mais acessível para os motoristas”, explica.
Para António Reis, diretor do Serviço de Pneumologia da ULS Viseu Dão-Lafões, o rastreio permite chegar a pessoas que poderiam continuar sem diagnóstico. “A apneia do sono é uma das patologias mais subdiagnosticadas que vemos na prática clínica, e o seu impacto na segurança rodoviária continua a ser subestimado, tanto pelos próprios doentes como pela sociedade em geral”, afirma.
O responsável destaca o papel do programa na deteção da doença antes de surgirem consequências para os motoristas e para os restantes utilizadores da estrada. Os resultados divulgados dão conta dos diagnósticos e da adesão ao tratamento, sem apresentar, contudo, dados sobre a evolução da sinistralidade rodoviária.


