A subida do preço do gasóleo volta a colocar o transporte rodoviário e as cadeias de abastecimento sob pressão. Os Estados Unidos estão a pedir à União Europeia que liberte mais reservas de emergência, enquanto Washington avalia medidas sobre as exportações que poderão aumentar ainda mais a exposição europeia. Em Portugal, os transportadores rodoviários reclamam novos apoios.

A pressão sobre os mercados internacionais de gasóleo ameaça traduzir-se numa nova subida dos custos de transporte na Europa. Segundo avançou a Reuters, citando duas fontes conhecedoras do processo, a Administração norte-americana pediu à União Europeia que recorra às suas reservas de emergência para ajudar a baixar os preços.

Washington continua, entretanto, a avaliar diferentes medidas para reforçar a disponibilidade de gasóleo no mercado interno. Entre as hipóteses consideradas esteve a limitação das exportações norte-americanas, embora não exista, até ao momento, uma decisão nesse sentido. A Administração de Trump estará também a estudar alternativas, como acordos voluntários com as refinarias e alterações regulamentares destinadas a aumentar a oferta doméstica.

Uma eventual restrição às exportações teria consequências nos mercados internacionais e, em particular, na Europa. Desde a redução das importações de produtos petrolíferos russos, os Estados Unidos ganharam peso no abastecimento europeu de gasóleo.

De acordo com dados da Kpler, citados pela Euronews, os Estados Unidos forneceram este ano cerca de 180 mil barris por dia dos aproximadamente 580 mil barris de gasóleo importados diariamente pela União Europeia de países terceiros. Este volume representa cerca de 32% das importações extracomunitárias, face a 17% em 2025.

A dependência é ainda mais expressiva no Noroeste da Europa, onde os fornecimentos norte-americanos representam cerca de 57% das compras realizadas fora da região. Uma eventual redução das exportações obrigaria os compradores europeus a procurar volumes alternativos num mercado já condicionado pelas perturbações no Médio Oriente e pela menor disponibilidade de produtos refinados.

 

Reservas disponíveis, mas preços elevados

A Comissão Europeia garante que não existe, para já, um problema de abastecimento. O Grupo de Coordenação do Petróleo, reunido a 29 de setembro, confirmou que o fornecimento à União Europeia se mantém estável, embora com preços elevados para o gasóleo e para o combustível de aviação.

Segundo a informação divulgada pela Direção-Geral da Energia da Comissão Europeia, as refinarias europeias estão a operar próximo da capacidade máxima e os níveis das reservas de emergência permanecem elevados. Já os stocks do principal centro de armazenamento europeu, que reúne Amesterdão, Roterdão e Antuérpia, encontram-se abaixo da média dos últimos cinco anos, ainda que tenham permanecido relativamente estáveis nas últimas semanas.

O comissário europeu da Energia, Dan Jørgensen, confirmou que Bruxelas discutiu com a Agência Internacional de Energia a possibilidade de uma nova libertação coordenada de reservas. No entanto, qualquer decisão terá ainda de ser debatida entre os Estados-membros e os restantes países participantes na agência.

Em março, cerca de 30 países acordaram disponibilizar 400 milhões de barris de petróleo e produtos petrolíferos para responder às perturbações provocadas pelo conflito com o Irão e às limitações no estreito de Ormuz. Os Estados Unidos comprometeram-se a contribuir com 172 milhões de barris, enquanto aos países europeus caberia cerca de 20% do volume total, segundo a Reuters.

Washington considera que alguns Estados europeus, nomeadamente França e Alemanha, libertaram apenas parte das quantidades acordadas. A União Europeia, por seu turno, não revelou os volumes já colocados no mercado.

A Agência Internacional de Energia exige aos seus países-membros a manutenção de reservas equivalentes a, pelo menos, 90 dias de importações líquidas, que podem incluir petróleo bruto e produtos refinados.

 

Transportadores portugueses pedem novas medidas

Em Portugal, a ANTP – Associação Nacional das Transportadoras Portuguesas já reclamou a adoção de novas medidas para ajudar as empresas a enfrentar a escalada dos preços. Como a SCM noticiou a 21 de setembro, a associação defende o reforço extraordinário do gasóleo profissional enquanto persistirem preços excecionalmente elevados e a criação de um mecanismo automático de estabilização que permita responder de forma previsível a aumentos acentuados.

A ANTP propõe também um mecanismo de referência para a atualização dos contratos de transporte, que permita refletir objetivamente as variações extraordinárias do custo do gasóleo, e uma linha de tesouraria destinada a evitar que empresas economicamente viáveis sejam obrigadas a reduzir ou interromper a atividade por falta de liquidez.

Segundo a associação, algumas empresas não conseguem repercutir imediatamente estes aumentos nos preços praticados aos clientes, acabando por absorver os custos, comprimir margens e agravar a pressão sobre a tesouraria. Alertou ainda para a insatisfação existente no setor e para a possibilidade de alguns transportadores avançarem com protestos, paralisações ou outras ações reivindicativas. Ressalvou, no entanto, que não está a promover, convocar ou organizar qualquer paralisação.

Embora a oferta europeia permaneça assegurada, a manutenção de preços elevados repercute-se diretamente na estrutura de custos das empresas de transporte rodoviário. O gasóleo continua a representar uma das principais parcelas dos custos operacionais, deixando estas empresas perante três possibilidades: absorver a subida, renegociar tarifas ou repercuti-la nos clientes.

A pressão pode, por isso, propagar-se à distribuição, à indústria e ao retalho, sobretudo nas operações com elevada intensidade de transporte e nos contratos que não incluem mecanismos de atualização automática associados ao preço do gasóleo.

O agravamento surge, além disso, num momento em que os conflitos no Médio Oriente continuam a condicionar algumas rotas marítimas, aumentando distâncias, tempos de trânsito e consumo energético.

A Comissão Europeia afirma que continuará a acompanhar o mercado em articulação com os Estados-membros. A próxima reunião do Grupo de Coordenação do Petróleo está marcada para 15 de outubro, embora Bruxelas admita antecipá-la se a situação se agravar.