No setor da intralogística, a transição energética já é uma prioridade estratégica. No entanto, não basta apenas a substituir frotas a combustão por modelos elétricos. É preciso analisar a dinâmica de cada armazém. É esta ideia que defende Mário Caciones, Regional director Portugal da Linde Material Handling Ibérica, SA, sublinhando que o sucesso da eletrificação não depende apenas do equipamento, mas sim do mapeamento da operação real, infraestrutura energética e correto dimensionamento da frota.
A transição energética já faz parte das decisões de muitas empresas e a intralogística tem vindo a acompanhar essa mudança. Ainda assim, eletrificar uma frota não passa apenas por substituir equipamentos a combustão por modelos elétricos. Antes de escolher a tecnologia é preciso perceber como funciona a operação.
Cada armazém tem ritmos, exigências e limitações diferentes. O número de turnos, as cargas movimentadas, as distâncias percorridas, os períodos de maior atividade e o tempo de utilização de cada equipamento condicionam a solução mais adequada.
Uma operação com pausas regulares pode aproveitar esses momentos para fazer carregamentos intermédios. Num centro logístico que trabalha de forma contínua, a realidade será outra. A autonomia necessária, o número de equipamentos disponíveis e a estratégia de carregamento terão de responder a um nível de exigência diferente.
Por isso, há perguntas que devem ser feitas logo no início. Quantas horas trabalha cada máquina e em que momentos está parada? Existem equipamentos pouco utilizados ou máquinas sujeitas a uma pressão maior do que as restantes? A resposta a estas questões ajuda a evitar decisões baseadas apenas em estimativas.
Uma bateria sobredimensionada representa, muitas vezes, um investimento que a operação não justifica, sobretudo, quando existem oportunidades de carregamento ao longo do dia. O equipamento aquém das necessidades também tem custos porque gera paragens e compromete o ritmo de operação. A escolha deve partir do trabalho real de cada equipamento.
Mas há mais alguns pontos a considerar. A infraestrutura de carregamento também não pode ser deixada para segundo plano. Até porque, a potência disponível no edifício, o número de carregadores, a sua localização e a possibilidade de vários equipamentos carregarem ao mesmo tempo têm impacto direto no dia a dia do armazém.
Em algumas instalações, a infraestrutura existente pode ser suficiente. Noutras, será necessário adaptar a rede elétrica, reorganizar espaços ou criar zonas próprias para carregamento. Até a localização dos carregadores deve ser bem pensada. Se uma máquina tiver de percorrer uma distância significativa sempre que precisa de carregar, esse tempo acumula-se ao longo do dia e acaba por ter peso na operação.
A autonomia também não depende apenas das horas indicadas numa ficha técnica. O peso das cargas, o piso, os acessórios utilizados, a frequência das elevações, os trajetos e a forma de condução influenciam o consumo. Duas máquinas iguais podem ter desempenhos diferentes quando trabalham em contextos distintos.
Este processo pode ainda ser uma boa oportunidade para rever o dimensionamento da frota. Trocar cada equipamento por um equivalente elétrico pode significar manter uma configuração que já não corresponde às necessidades atuais. Ao analisar a utilização real, é possível identificar máquinas subutilizadas, situações de sobrecarga e funções que podem ser reorganizadas.
Por isso, nenhuma operação tem exatamente a mesma resposta. Antes de avançar, é essencial conhecer o funcionamento do armazém e envolver as áreas com impacto na mudança, da logística e manutenção às instalações e à gestão.
Na intralogística, a transição energética depende, antes de mais, da leitura atenta da operação e da capacidade de construir uma solução que resista ao funcionamento real do armazém, muito antes de qualquer escolha de equipamento.
Mário Caciones, Regional Director Portugal | Linde Material Handling Ibérica, SA


