Dos 250 anos da Garland à transformação da cadeia logística da Philip Morris, da resiliência industrial à inteligência artificial, a edição #77 da SCM mostra como empresas e profissionais estão a responder a um contexto em que crescer, decidir e permanecer relevantes exige capacidade de adaptação.
Em destaque de capa está a entrevista a Mark Dawson, CEO da Garland, no ano em que o grupo assinala 250 anos. Uma longevidade rara, construída entre mudanças de regime, guerras, crises económicas, pandemias e disrupções logísticas globais. “Queremos crescer onde conseguimos acrescentar valor real”, afirma o responsável, apontando a consolidação da Península Ibérica, o reforço da operação em França e a integração entre serviços como prioridades.
A história da Garland serve também de ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre o que permite a uma empresa atravessar dois séculos e meio sem ficar presa ao peso da tradição. A resposta passa pela capacidade de transformar circunstâncias inesperadas em oportunidades, decidir com rapidez e modernizar a organização sem perder a identidade que a trouxe até ao presente.
Na logística, a edição #77 acompanha o redesenho da cadeia de abastecimento da Philip Morris International. A transição do negócio tradicional de cigarros para produtos sem fumo obrigou a empresa a passar de uma operação assente num número limitado de referências, volumes previsíveis e eficiência de escala para uma cadeia mais flexível, tecnológica e omnicanal. Dispositivos eletrónicos, consumíveis, acessórios, logística inversa e distribuição direta ao consumidor aumentaram a complexidade e aproximaram a operação do modelo da indústria eletrónica.
A resiliência é também o ponto de partida da estratégia da Casa Mendes Gonçalves. Depois de um corte no fornecimento de óleo de girassol, matéria-prima presente em produtos responsáveis por 52% da faturação, a empresa reforçou a capacidade de armazenagem, diversificou fornecedores e aumentou a aposta em cadeias de proximidade. Em 2025, investiu dez milhões de euros na fábrica, aumentando em 30% a capacidade de produção através da automação e da substituição de equipamentos.
Na área do procurement, Paula Sofia Ribeiro, senior procurement manager da FairJourney Bio, defende que o maior desafio continua a ser posicionar a função como parceira estratégica do negócio. Num contexto de volatilidade, pressão sobre margens e transformação digital, o futuro da profissão dependerá menos de quem tem mais informação e mais de quem sabe questioná-la, desafiar pressupostos e transformá-la em ação.
Quando os dados chegam à operação
A tecnologia atravessa vários conteúdos desta edição, sempre a partir de problemas concretos. Na intralogística, a SCM apresenta a MixPal, solução da Körber Supply Chain que procura tornar a paletização mista automatizada mais simples e acessível a armazéns de média dimensão. O sistema combina robótica, transporte autónomo e software baseado em inteligência artificial para responder à escassez de mão de obra, ao aumento dos custos operacionais e ao crescimento do número de referências.
Na sustentabilidade, a parceria entre a KITRO e o Pestana Hotel Group mostra como a medição pode transformar desperdício em informação de gestão. Através de uma balança inteligente, visão computacional e inteligência artificial, a solução identifica e classifica os alimentos descartados nas cozinhas profissionais. Em menos de um ano, o grupo hoteleiro reduziu o desperdício alimentar em cerca de 50%, o equivalente a 30 toneladas de comida, com uma poupança estimada de 300 mil euros.
A rastreabilidade alimentar é analisada a partir dos códigos 2D. Mais do que substituir os códigos de barras tradicionais, estes códigos podem ligar cada produto e lote a informação estruturada em tempo real, melhorar a gestão de inventário e permitir recolhas mais rápidas e direcionadas. A tecnologia já existe, mas o desafio permanece na integração dos dados, na interoperabilidade dos sistemas e na colaboração entre os vários intervenientes da cadeia.
Também em tecnologia, os responsáveis da Kikker Software, explicam por que razão a existência de ERP, WMS e ferramentas de business intelligence não impede muitas empresas de continuarem a tomar decisões críticas de abastecimento em folhas de cálculo. A plataforma procura preencher o espaço entre a análise e a execução, automatizando previsões, compras e reposição. “A tecnologia deve devolver ao gestor o tempo que perde a gerir o passado”, defendem.
Operações sem margem para erro
Nos transportes, a edição acompanha uma operação da Flying Sharks que atravessou seis países, combinou transporte rodoviário e aéreo e realizou quatro entregas sem perder nenhum animal. Peixes-lua, raias, pregados e lumpsuckers viajaram entre Portugal, França, Países Baixos, Alemanha, Dinamarca e Espanha, numa operação em que a carga respira e cada variável – oxigénio, pH, amónia, temperatura e tempo – pode determinar o sucesso da missão.
Ainda nesta área, Luís P. Santos, Management Consulting director da KPMG Portugal, analisa as ineficiências que consomem diariamente a margem das empresas de transportes. Combustível mal governado, quilómetros vazios, ativos subutilizados, planeamento reativo, manutenção corretiva e processos redundantes mostram que a rentabilidade não é apenas afetada pelos choques externos. É também o resultado direto da qualidade da gestão operacional.
Na secção “Carreira”, a SCM analisa o interim management como uma forma de mobilizar rapidamente experiência executiva quando uma organização não pode esperar pelos ciclos tradicionais de recrutamento. Paulo Jorge, sócio-gerente da EasyTalent – Interim Solutions e membro da direção da AIM – Associação Interim Management Portugal, explica a diferença entre aconselhar e assumir responsabilidade pela execução: “O consultor recomenda. O interim manager executa. O gestor permanente assegura a continuidade.”
A edição apresenta ainda o caso de uma PME industrial portuguesa em que dois interim managers foram chamados para uma missão transversal, envolvendo liderança, vendas, finanças, produção, planeamento, stocks, procurement e digitalização. O objetivo não era apenas resolver problemas, mas deixar processos, responsabilidades e equipas preparados para continuar depois da saída dos profissionais.
Há também lugar para acompanhar “Um dia na vida de…” Gonçalo Gomes, gestor de tráfego na LASO Transportes, e para conhecer o percurso de Mário Faria, head of Contract Logistics Portugal na DSV, que resume numa frase o que o mantém ligado ao setor: “A logística tem uma coisa que eu adoro: o resultado real.”
A SCM #77 inclui ainda uma análise ao comércio externo da União Europeia, uma reflexão sobre o futuro do planeamento na era dos agentes de inteligência artificial e três perguntas essenciais antes de iniciar uma negociação.
Como vê, tem muitas e boas razões para clicar AQUI.


