Quando um agente de inteligência artificial passa a analisar propostas, excluir fornecedores e adjudicar compras, a eficiência deixa de ser a única questão. Diogo Carneiro, CEO da Conexus, defende que a adoção da IA nas compras dependerá da capacidade das empresas para definir limites, reconstruir decisões e saber quem responde por elas.

Quando uma decisão de compra passa a ser tomada por software, a pergunta deixa de ser se a tecnologia funciona. Passa a ser de quem é a assinatura.

Imaginem a cena. Um agente de inteligência artificial recebe sete orçamentos, exclui três por incumprimento de prazo de entrega, pede um esclarecimento ao quarto e adjudica ao segundo mais barato, porque o mais barato tem uma certificação fora de validade. Tudo isto em minutos, de madrugada, sem ninguém na sala. Tecnicamente, já é possível hoje. A pergunta que interessa é outra: se daqui a nove meses esse fornecedor falhar, quem explica a decisão?

Parece uma questão de burocracia e não é. É a diferença entre um piloto que corre bem e um sistema que a empresa consegue mesmo pôr a trabalhar. As organizações podem travar a IA por desconfiarem da tecnologia, mas travam-na sobretudo porque ninguém quer assinar por baixo de uma decisão que não consegue reconstituir.

E, reconstituir uma decisão, exige três coisas que quase nunca aparecem numa demonstração: saber que informação o agente tinha à frente naquele momento, saber que regra aplicou e saber o que teria acontecido se a regra fosse outra. Sem isto não há auditoria possível, não há resposta ao fornecedor excluído e não há defesa quando o tema chega ao compliance.

A boa notícia é que nada disto é novo para quem compra. As compras são das poucas funções da empresa que sempre viveram com rasto documental. Sabemos justificar uma adjudicação, arquivar um parecer, registar quem aprovou o quê e dentro de que alçada. A prática existe há décadas. O que falta é aplicá-la ao agente com o mesmo rigor com que a aplicamos às pessoas.

Na prática, são três perguntas antes de deixar um agente decidir sozinho. Até que valor pode decidir sem intervenção humana? Que decisões nunca pode tomar, independentemente do valor? E em que situações tem de parar e esperar por alguém?

Reparem que são exatamente as perguntas que fazemos a um comprador no primeiro mês de casa. Nenhuma empresa dá a um recém-chegado acesso ilimitado ao mercado e depois fica surpreendida quando corre mal. Damos-lhe um limite, uma lista de exceções e alguém a quem recorrer em caso de dúvida. Um agente merece o mesmo tratamento. Nem mais desconfiança, nem menos.

A conversa sobre IA nas compras tem estado presa na capacidade, ou seja, no que a ferramenta consegue fazer. A conversa que decide se isto chega à operação é outra: o que está autorizada a fazer, e quem responde quando o faz.

A assinatura continua a ser de uma pessoa. O que mudou é que passámos a assinar também aquilo que não fizemos à mão.

Diogo Carneiro, CEO | Conexus