As restrições chinesas às exportações de gálio e germânio estão a obrigar as empresas a procurar novos fornecedores, constituir reservas e até redesenhar produtos. Mas, quando a oferta alternativa é insuficiente, diversificar o sourcing deixa de ser uma resposta imediata.
Três anos depois de a China ter introduzido restrições à exportação de gálio e germânio, as empresas ocidentais continuam a enfrentar dificuldades no acesso a dois metais essenciais para indústrias como os semicondutores, as telecomunicações, as energias renováveis, a defesa e a produção de equipamentos óticos.
A resposta passou pela procura de fornecedores alternativos, pelo reforço de stocks, pela reciclagem e, em alguns casos, pela substituição dos materiais utilizados. Ainda assim, a capacidade disponível fora da China continua longe de responder à procura, expondo os limites de uma estratégia de diversificação quando o mercado de fornecimento permanece altamente concentrado.
De acordo com dados citados pela Reuters, os preços do gálio e do germânio fora da China encontram-se atualmente entre nove e dez vezes acima dos níveis registados em 2023. A pressão poderá prolongar-se: a procura de gálio deverá crescer cerca de 12% ao ano até 2030, impulsionada, entre outros fatores, pelo desenvolvimento da inteligência artificial, pela expansão das redes de fibra ótica e pela utilização crescente de sistemas de imagem por infravermelhos.
Uma concentração difícil de contrariar
A China representava, em 2025, 98,9% da produção primária mundial de gálio e 68,6% da de germânio, segundo estimativas da consultora Project Blue. No caso do gálio refinado, a Agência Internacional de Energia coloca também a quota chinesa acima dos 90%.
Esta concentração significa que uma limitação das exportações pode transformar-se rapidamente numa insuficiência global de oferta. No final de 2026, a capacidade de fornecimento de gálio fora da China deverá situar-se nas 20 toneladas, deixando uma diferença de cerca de 678 toneladas face à procura prevista, segundo projeções da S&P Global.
A situação do germânio não é muito diferente. A produção fora da China deverá alcançar 31 toneladas, ficando 177 toneladas abaixo das necessidades estimadas. Estão em desenvolvimento novos projetos na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, na Coreia do Sul e na Índia. Na Grécia, por exemplo, a METLEN iniciou uma produção à escala piloto e pretende atingir uma capacidade anual de 50 toneladas de gálio em 2028. A procura manifestada por potenciais clientes já ultrapassa várias vezes esse objetivo.
Mas muitos destes projetos ainda se encontram numa fase inicial e terão de competir com uma indústria chinesa que beneficia de escala, capacidade instalada e custos de produção difíceis de replicar.
Quando o dual sourcing não resolve o problema
Para as equipas de procurement, o caso coloca uma questão que ultrapassa a simples identificação de um segundo fornecedor. Uma estratégia de dual sourcing pressupõe que existe capacidade alternativa, que o material pode ser adquirido noutra geografia e que a mudança não exige alterações profundas no produto ou no processo produtivo.
No caso do gálio e do germânio, nenhuma dessas condições está garantida. A substituição destes metais é possível em algumas aplicações, mas pode obrigar ao redesenho de componentes, a novos testes e certificações e a investimentos tecnológicos significativos. No caso do germânio, utilizado em equipamentos óticos e sistemas de imagem térmica, não existe um substituto direto capaz de responder da mesma forma a todas as utilizações.
Algumas empresas estão, por isso, a comprar materiais antes de os projetos estarem concluídos, garantindo antecipadamente a disponibilidade para a produção. Outras procuram reduzir o consumo, recuperar metais através da reciclagem ou trabalhar com fornecedores ocidentais, mesmo assumindo custos superiores.
O sourcing deixa, assim, de ser apenas uma decisão sobre fornecedor, preço ou localização, passando a envolver decisões sobre especificações, desenho de produto, investimento, níveis de stock e exposição financeira.
Europa quer limitar dependências
A dependência de matérias-primas críticas está também no centro da política industrial europeia. O Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas estabelece que, até 2030, não mais de 65% das necessidades anuais da União Europeia de cada matéria-prima estratégica, em qualquer fase relevante de transformação, deverá depender de um único país terceiro.
O objetivo está, porém, longe de estar assegurado. Mesmo que todos os projetos anunciados avancem, a S&P Global estima que, em 2030, os produtores fora da China consigam responder apenas a cerca de 35% das suas próprias necessidades de gálio. No germânio, a capacidade projetada poderá cobrir aproximadamente 48% da procura dos mercados não chineses, de acordo com notícias da Reuters.
O desafio já não consiste apenas em diversificar fornecedores. Obriga a decidir quanto custa assegurar o abastecimento, que dependências são aceitáveis e até onde uma empresa está disposta a alterar produtos e processos para reduzir a exposição, porque em mercados tão concentrados, ter uma lista mais extensa de potenciais fornecedores não significa necessariamente dispor de alternativas reais.
FOTOGRAFIA: Imagem gerada com recurso a IA.


