A correspondência entre as encomendas pedidas e recebidas tornou-se a principal preocupação do retalho em Portugal, destronando o cumprimento dos prazos de entrega. A 14.ª edição do Benchmarking Supply Chain, da GS1 Portugal, revela também uma subida expressiva da colaboração entre parceiros na hierarquia das prioridades do grande consumo.

A precisão está a ganhar terreno à velocidade na avaliação do desempenho das cadeias de abastecimento do grande consumo. A eliminação dos erros entre as encomendas pedidas e recebidas passou a ocupar o primeiro lugar entre as prioridades do retalho em Portugal, enquanto o cumprimento do lead time, que liderava a edição anterior, desceu para a sétima posição.

A conclusão resulta da 14.ª edição do Benchmarking Supply Chain, desenvolvido pela GS1 Portugal, que avaliou o desempenho registado em 2025 por oito grandes insígnias do retalho e 30 dos principais fornecedores a operar no mercado português.

Os resultados apontam para uma mudança no foco das empresas, que estão a atribuir maior importância à precisão, à previsibilidade e à colaboração num contexto de crescente complexidade das cadeias de abastecimento e de maior dependência da partilha de informação.

“Os resultados mostram que a competitividade da supply chain já não depende apenas da entrega. Hoje, a capacidade de reduzir erros, partilhar informação e colaborar eficazmente entre parceiros tornou-se um fator crítico de desempenho para toda a cadeia de valor”, afirma Paulo Gomes, diretor-geral da GS1 Portugal.

Apesar de ser considerada a principal prioridade, a eliminação das diferenças entre aquilo que é pedido e aquilo que efetivamente chega aos retalhistas recebeu uma das avaliações mais baixas atribuídas aos fornecedores. O desfasamento entre a importância reconhecida e o desempenho alcançado identifica, segundo o estudo, uma oportunidade clara de melhoria operacional.

 

Colaboração sobe do 16.º para o segundo lugar

Uma das alterações mais significativas encontra-se na valorização das relações entre parceiros. A construção de relações sólidas entre as equipas de logística, supply chain e customer service passou da 16.ª para a segunda posição entre as prioridades do retalho.

A evolução mostra que a colaboração está a deixar de ser encarada como uma dimensão complementar e começa a assumir um peso comparável ao dos indicadores operacionais tradicionais.

Entre as restantes prioridades identificadas pelo retalho encontram-se o cumprimento dos requisitos de validade dos produtos, o controlo da cadeia de frio, a execução promocional e a capacidade de resposta dos fornecedores perante alterações e imprevistos.

 

Fornecedores querem reduzir esperas e acelerar processos

Do lado dos fornecedores, as principais preocupações continuam concentradas na eficiência das operações de receção e dos processos administrativos do retalho.

A rapidez na descarga das mercadorias, a redução dos tempos de espera nos entrepostos e o processamento mais célere das faturas ocupam os primeiros lugares. Os fornecedores defendem igualmente uma melhor coordenação dos horários de entrega, de forma a facilitar a consolidação das cargas e a otimização do transporte.

A automatização das mensagens EDI e o alinhamento dos dados surgem também entre os aspetos valorizados, confirmando o papel da digitalização na redução de ineficiências ao longo da cadeia de valor.

No ranking global dos fornecedores, a Sociedade Industrial de Aperitivos alcançou a primeira posição, seguida pela Gallo, Pescanova, Sumol Compal e Matudis.

Entre os retalhistas, o Pingo Doce obteve a melhor classificação atribuída pelos fornecedores, seguido pela MC Sonae.

O desempenho global dos retalhistas registou uma evolução positiva: a classificação máxima subiu de 6,89 para 7,29 valores, enquanto a média geral passou de 5,71 para 5,99 valores.

 

IA, códigos bidimensionais e métricas partilhadas

Pela primeira vez, o Benchmarking Supply Chain integrou uma componente prospetiva, desenvolvida em parceria com o Iscte Executive Education. A análise identifica cinco tendências que deverão marcar a evolução das cadeias de abastecimento nos próximos anos: maior visibilidade de ponta a ponta das operações, utilização crescente de inteligência artificial, adoção mais alargada dos standards globais GS1, reforço das práticas de sustentabilidade e desenvolvimento de modelos de colaboração estratégica entre retalhistas e fornecedores.

A preparação para a nova geração de códigos bidimensionais GS1 e a expansão das mensagens EDI, nomeadamente DESADV e RECADV, estão entre os temas destacados. O estudo aponta ainda para a articulação destas ferramentas com práticas de circularidade, como o backhauling, as embalagens reutilizáveis e o Sistema de Depósito e Reembolso.

A criação conjunta de valor deverá igualmente ganhar importância, apoiada em métricas partilhadas entre retalhistas e fornecedores, como o OTIF – entregas realizadas na quantidade e no prazo acordados – e o cost-to-serve.

Os resultados foram apresentados pela GS1 Portugal a 17 de setembro, numa sessão que reuniu empresas do ecossistema do grande consumo e incluiu a entrega dos prémios de desempenho. A organização apresentou também um novo dashboard dinâmico, através do qual as empresas poderão consultar os resultados e identificar oportunidades de melhoria.