Contornar um ponto crítico não significa eliminar o risco. Fernando Cruz Gonçalves, professor da ENIDH, e Ana Novo Barros, professora associada com agregação da UTAD, analisam como o desvio de milhões de barris de petróleo do Estreito de Ormuz através do oleoduto East–West garantiu a continuidade dos fluxos, mas alterou a geografia da dependência. Os recentes ataques à infraestrutura mostram como uma resposta eficaz a uma disrupção pode transferir a vulnerabilidade para outros corredores e abrir caminho a novos efeitos em cascata.

 

Nos dias 10 e 11 de setembro, instalações de bombeamento do oleoduto saudita East–West Petroline foram atingidas por ataques de drones, obrigando à interrupção do seu funcionamento. Com cerca de 1.200 quilómetros de extensão, este oleoduto tinha assumido, nos últimos meses, uma importância estratégica no transporte do petróleo saudita, permitindo redirecionar o crude dos terminais do Golfo Pérsico para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, e contornar as fortes restrições no Estreito de Ormuz. Os danos foram significativos e as primeiras estimativas apontam para várias semanas de interrupção. Com o oleoduto inoperacional, as reservas disponíveis em Yanbu poderão assegurar as exportações sauditas por apenas alguns dias.

Durante os últimos meses, cerca de 4,5 milhões de barris de crude por dia — aproximadamente 4% da oferta mundial de petróleo — foram transportados através do oleoduto East–West, permitindo contornar as restrições no Estreito de Ormuz. Esta alternativa contribuiu para manter os fluxos de petróleo saudita para os mercados internacionais, atenuando a pressão sobre a oferta e, consequentemente, sobre os preços.

 

 

Migração do risco

Tratou-se de uma adaptação bem-sucedida à disrupção de um chokepoint individual. Mas uma resposta eficaz num determinado ponto de rede não implica necessariamente uma redução da vulnerabilidade ao nível do sistema no seu conjunto (Verschuur et al., 2025; Yu, 2026). 

 A literatura mais abrangente sobre resiliência das cadeias de abastecimento reconhece, aliás, que as estratégias de mitigação podem gerar novos riscos ou transferir riscos existentes para outras partes de uma rede, fenómeno designado por migração do risco (risk migration) (Tukamuhabwa et al., 2017).

É aqui que se coloca uma questão particularmente relevante no atual contexto do Médio Oriente: de que forma a adaptação à disrupção inicial no Estreito de Ormuz alterou a rede da qual passou a manutenção dos fluxos? 

A alternativa permitiu reduzir a exposição imediata a Ormuz, mas aumentou simultaneamente a importância funcional de outras infraestruturas e rotas, entre as quais o oleoduto East–West, o porto de Yanbu e o corredor do Mar Vermelho. Para parte dos fluxos com destino à Ásia, essa reconfiguração aumentou também a relevância de Bab el-Mandeb. A rede que resultou da adaptação passou, assim, a apresentar uma configuração de dependência e vulnerabilidade diferente daquela que existia antes da disrupção inicial.

 

 

Transferência de vulnerabilidade

A simples redistribuição dos fluxos não permite concluir que ocorreu uma transferência de vulnerabilidade. A questão crítica consiste em determinar se a adaptação (Estreito de Ormuz) altera materialmente as dependências funcionais através das quais é posteriormente assegurada a continuidade do sistema, nomeadamente através do corredor do Mar Vermelho e, para parte dos fluxos, do Estreito de Bab el-Mandeb.. Se os componentes dos quais o sistema é parte integrante estiverem, eles próprios, expostos a disrupções, a adaptação poderá preservar a funcionalidade imediata, mas cria simultaneamente uma configuração de exposição sistémica.

Partindo do conceito mais abrangente de migração do risco, o aspeto mais relevante é a análise do mecanismo de transferência de vulnerabilidade entre chokepoints (chokepoint vulnerability transfer). 

Trata-se do processo através do qual a adaptação à disrupção de um chokepoint marítimo reconfigura materialmente os fluxos ou as dependências, criando ou aumentando a dependência funcional relativamente a outro chokepoint, corredor ou infraestrutura expostos. 

A transferência de vulnerabilidade distingue-se, portanto, quer do reencaminhamento bem-sucedido, quer da disrupção em cascata. 

O primeiro demonstra que a adaptação permite manter ou restabelecer a funcionalidade (fluxo através do pipeline Este-Oeste); a transferência exige, adicionalmente, uma reconfiguração material da dependência, com aumento da exposição a outros componentes da rede, incluindo Bab el-Mandeb. . Por fim, a vulnerabilidade em cascata (cascading vulnerability) pressupõe uma etapa adicional, na qual a exposição transferida é ativada por uma disrupção simultânea ou subsequente e passa a produzir consequências operacionais (disrupção em Bab el-Mandeb). 

Esta distinção posiciona a dependência pós-adaptação entre a resiliência imediata e os potenciais efeitos em cascata, fornecendo uma base para avaliar não apenas se um sistema consegue adaptar-se, mas também de que passa o sistema a depender quando se adapta.

Na prática, importa perceber de que forma as respostas adaptativas à disrupção de um chokepoint marítimo reconfiguram a dependência e a vulnerabilidade num sistema marítimo interligado, podendo a adaptação absorver a vulnerabilidade, transferi-la para outro componente exposto ou criar uma trajetória conducente à vulnerabilidade em cascata perante uma disrupção adicional. 

 

 

Exposição Direta vs. Exposição Indireta

Esta perspetiva dinâmica exige igualmente a distinção entre exposição direta e exposição indireta ou mediada pela rede. A investigação sobre redes de transporte marítimo demonstra que as disrupções podem afetar não apenas os fluxos ou componentes diretamente expostos, mas também outras partes da rede, através de alterações na conectividade, nos percursos disponíveis e na afetação do tráfego (Xu et al., 2024; Verschuur et al., 2025). A exposição direta resulta da dependência relativamente ao chokepoint onde ocorre a disrupção inicial (Estreito de Ormuz), enquanto a exposição indireta pode emergir à medida que essa disrupção altera as rotas e os componentes da rede dos quais passa a depender a continuidade da conectividade.

 

 

Resultados sistémicos da adaptação 

Podemos identificar três possíveis resultados sistémicos da adaptação à vulnerabilidade: 

  • Absorção da vulnerabilidade;
  • Transferência da vulnerabilidade;
  • Amplificação/cascata da vulnerabilidade. 

A absorção da vulnerabilidade ocorre quando uma resposta adaptativa mitiga as consequências da disrupção inicial sem criar um aumento material da dependência ou da exposição noutras partes relevantes da rede. Neste caso, o sistema absorve o choque sem passar a depender de forma substancial de outro componente potencialmente vulnerável.

A transferência da vulnerabilidade ocorre quando a adaptação reduz a exposição ao chokepoint inicialmente afetado, mas reconfigura os fluxos ou as dependências de forma a criar ou aumentar materialmente a exposição a outro chokepoint, corredor ou infraestrutura. Trata-se, por conseguinte, de uma alteração da configuração da vulnerabilidade produzida pela própria adaptação, e não de uma falha da resposta adaptativa.

A amplificação/cascata da vulnerabilidade pode ocorrer quando a vulnerabilidade transferida é ativada por uma disrupção adicional. Tal sucede quando um componente do qual o sistema reconfigurado passou a depender em maior grau é, ele próprio, afetado ou condicionado, permitindo que os efeitos da disrupção se propaguem ou se intensifiquem ao longo da rede. Estudos sobre redes de transportes demonstram que a redistribuição de cargas e o reencaminhamento podem alterar as dependências da rede e contribuir para falhas em cascata quando os componentes recetores ficam sujeitos a restrições ou quando disrupções adicionais afetam a rede já reconfigurada (Cao et al., 2025a; Ren et al., 2026; Yu, 2026).

 

 

Da transferência de vulnerabilidade à potencial vulnerabilidade em cascata: Ormuz–Bab el-Mandeb

A transferência de vulnerabilidade não implica necessariamente uma disrupção em cascata. Enquanto as rotas e infraestruturas que recebem os fluxos redirecionados permanecerem operacionais, a exposição adicional criada pela adaptação pode permanecer latente. Uma cascata exige uma etapa adicional: uma disrupção simultânea ou subsequente tem de afetar um componente cuja importância funcional tenha aumentado em resultado da resposta ao choque inicial. Nestas condições, uma adaptação que inicialmente reforça a resiliência pode também criar uma trajetória através da qual uma disrupção subsequente se pode propagar.

O caso Ormuz – Bab el-Mandeb demonstra, assim, uma distinção fundamental para a avaliação da resiliência marítima. O oleoduto East–West reduziu com sucesso a exposição imediata a Ormuz, mas a resiliência que proporcionou não foi sistemicamente neutra: alterou a geografia da dependência. Quando uma parte dos fluxos redirecionados passou a depender mais intensamente do corredor do Mar Vermelho, o risco de disrupção em Bab el-Mandeb adquiriu maior relevância sistémica. A vulnerabilidade em cascata não resulta, portanto, simplesmente do facto de múltiplos chokepoints estarem expostos a disrupções, mas do facto de a adaptação a uma primeira disrupção poder alterar a configuração da rede através da qual uma disrupção subsequente se propagaria.

 

 

Conclusões

A resiliência marítima deve, consequentemente, ser avaliada não apenas como a capacidade de resistir, recuperar ou contornar uma disrupção, mas também em função da configuração pós-adaptação que resulta dessa resposta. A questão relevante não é simplesmente saber se o sistema consegue adaptar-se, mas sim de que passa o sistema a depender depois de se adaptar. Esta transição da eficácia da resposta para a dependência pós-adaptação fornece a base conceptual para distinguir a absorção da vulnerabilidade da transferência da vulnerabilidade e, quando a exposição transferida é posteriormente ativada, da vulnerabilidade em cascata.

Os acontecimentos recentes no Médio Oriente tornam esta questão particularmente atual: encontrar uma alternativa a um chokepoint pode não significar eliminar a vulnerabilidade, mas apenas alterar o lugar onde ela se concentra.

 

Referências

>> Cao, Y., Xin, X., Jarumaneeroj, P., Li, H., Feng, Y., Wang, J., Wang, X., Pyne, R., & Yang, Z. (2025). Data-driven resilience analysis of the global container shipping network against two cascading failures. Transportation Research Part E: Logistics and Transportation Review, 193, 103857. https://doi.org/10.1016/j.tre.2024.103857

>> Ren, W., Ma, F., Shang, Z., Wang, L., Liu, W., Liu, Q., Li, J., & Ko, J. (2026). Land transport network resilience to cascading failures: A systematic literature review of modeling, evaluation, and recovery. Journal of Traffic and Transportation Engineering (English Edition), 13(2), 491–523. https://doi.org/10.1016/j.jtte.2026.03.001

>> Tukamuhabwa, B. R., Stevenson, M., Busby, J., & Zorzini, M. (2017). Supply chain resilience in a developing country context: A case study on the interconnectedness of threats, strategies and outcomes. Supply Chain Management: An International Journal, 22(6), 486–505. https://doi.org/10.1108/SCM-02-2017-0059

>> Verschuur, J., Lumma, J., & Hall, J. W. (2025). Systemic impacts of disruptions at maritime chokepoints. Nature Communications, 16, 10421. https://doi.org/10.1038/s41467-025-65403-w

>> Xu, M., Zhu, Y., Liu, K., & Ng, A. K. Y. (2024). Assessing resilience of global liner shipping network to tropical cyclones. Transportation Research Part D: Transport and Environment, 131, 104189. https://doi.org/10.1016/j.trd.2024.104189

>> Yu, A. (2026). Cascading failures in the global container shipping network: Systemic impacts of escalating disruptions in Middle Eastern maritime choke-points. Global Networks, 26(3), e70058. https://doi.org/10.1111/glob.70058

 

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