A segunda edição do Last Mile Summit realiza-se a 23 de setembro, no Guincho, mais uma vez com organização da Delivery Express e PwC. Francisco Castanheira, fundador e CEO da Delivery Express, explica à Supply Chain Magazine por que razão melhorar o que já existe pode não ser suficiente para responder às transformações em curso nas cidades, na tecnologia, no consumo e no trabalho logístico.
Durante muito tempo, a última milha foi encarada sobretudo como um problema de transporte: levar uma encomenda de um ponto de distribuição até ao destinatário. A crescente complexidade das operações, as novas exigências dos consumidores e a pressão sobre as cidades vieram, porém, mostrar que a entrega é apenas a parte mais visível de um sistema bastante mais amplo.
«Quando uma encomenda chega à porta do consumidor, já houve decisões sobre inventário, tecnologia, localização, energia, veículos, rotas, experiência de compra e utilização do espaço urbano», sublinha Francisco Castanheira, fundador e CEO da Delivery Express.
É a partir desta perspetiva que será construída a segunda edição do Last Mile Summit, marcada para 23 de setembro, na Casa do Marquês, no Guincho. O evento volta a colocar na mesma sala operadores logísticos, empresas de retalho, fornecedores de tecnologia e outros intervenientes com influência na forma como as entregas são planeadas e executadas.
Para Francisco Castanheira, a primeira edição, realizada em 2025, confirmou que existia em Portugal «uma conversa por fazer» sobre os desafios da última milha ou, pelo menos, uma conversa ainda demasiado fragmentada.
«A última milha cruza hoje realidades muito diferentes. Falamos de operadores logísticos e retalho, naturalmente, mas também de tecnologia, energia, mobilidade, planeamento urbano e, cada vez mais, de pessoas e da própria experiência do consumidor», explica.
Mais do que apresentar soluções, o encontro procura confrontar diferentes perspetivas sobre problemas que nenhum dos intervenientes consegue resolver isoladamente. Esta abordagem transversal esteve na origem da primeira edição e levou a organização a avançar com um segundo encontro.
Otimizar uma parte pode criar pressão noutra
Um dos obstáculos a uma abordagem verdadeiramente integrada está, segundo o responsável, na tendência para as organizações continuarem a otimizar separadamente as diferentes partes de um problema que, na realidade, é comum.
Cada empresa trabalha com os seus próprios objetivos, métricas, sistemas e limitações. O problema surge quando uma melhoria numa determinada área transfere custos ou dificuldades para outra parte da cadeia.
«Uma promessa de entrega mais rápida tem implicações operacionais. Uma alteração na mobilidade urbana afeta rotas e veículos. Uma meta de descarbonização exige tecnologia, infraestrutura e investimento. E nenhuma destas decisões acontece isoladamente», exemplifica.
Trabalhar a última milha como um ecossistema exige, por isso, mais partilha de informação, colaboração e capacidade para compreender os efeitos de cada decisão sobre os restantes intervenientes. Francisco Castanheira reconhece que um encontro de uma manhã não resolverá esta complexidade. Pode, contudo, aproximar profissionais que habitualmente analisam o mesmo problema a partir de posições diferentes e criar condições para o aparecimento de novas soluções.
Três tensões a transformar a última milha
As conclusões retiradas da edição de 2025 influenciaram também a construção do programa deste ano. Se no primeiro encontro foram discutidos temas como rapidez, precisão, sustentabilidade, colaboração e transformação digital, este ano a organização optou por concentrar a conversa em três dimensões: sustentabilidade com inovação, micrologística urbana e dimensão humana do trabalho logístico. Os três eixos correspondem, segundo o fundador da Delivery Express, a outras tantas tensões que estão a transformar o setor.
A primeira é ambiental e operacional e traduz-se na necessidade de responder ao crescimento das entregas reduzindo simultaneamente emissões, quilómetros percorridos e ineficiências.
A segunda é urbana e questiona se os atuais modelos e infraestruturas de distribuição continuam adequados a cidades em transformação. Neste contexto, soluções como microhubs, pontos de proximidade e novos modelos de distribuição podem obrigar a rever a relação entre a logística e o espaço urbano.
A terceira tensão é humana. Apesar do avanço da automatização e da inteligência artificial, a logística continua dependente de pessoas. «Atrair talento, qualificá-lo, criar condições para o reter e dignificar estas funções é também uma questão de competitividade», defende Francisco Castanheira.
Estes temas não devem, contudo, ser analisados separadamente. «Tecnologia, cidade e pessoas não são três conversas independentes. O futuro da última milha acontece precisamente na interseção entre elas.»
Das tendências às decisões concretas
A segunda edição procura também fazer evoluir a natureza das conversas. A ambição, explica o responsável, é tornar o Last Mile Summit cada vez menos num espaço dedicado apenas às tendências e mais num lugar onde se confrontam experiências, decisões e soluções concretas. O impacto do encontro poderá traduzir-se em mudanças aparentemente pequenas, desde questionar um processo ou testar uma solução até procurar um novo parceiro ou passar a observar determinado problema a partir de outra perspetiva.
«O nosso objetivo não é chegar ao final da manhã com uma resposta única para o futuro da última milha. Ela provavelmente não existe», afirma. A organização pretende, antes, que algumas das decisões que vão moldar esse futuro possam começar nas conversas realizadas durante o evento. No final, Francisco Castanheira gostaria que os participantes regressassem às suas organizações com uma pergunta: «Estamos a tentar melhorar a última milha ou estamos preparados para a repensar?»
Melhorar os atuais modelos continua a ser necessário. Mas as transformações nas cidades, na tecnologia, no consumo, na sustentabilidade e no mercado de trabalho podem exigir mais do que ganhos incrementais de eficiência. Podem obrigar as organizações a questionar pressupostos que, durante muito tempo, foram considerados adquiridos.
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