A produção automóvel na União Europeia deverá contrair 0,6% em 2026, num contexto marcado pelas tensões comerciais, pela transição desigual para os veículos elétricos e pela quebra da confiança dos consumidores. Portugal surge entre os mercados com perspetivas desfavoráveis e os fornecedores de componentes estão entre os elos mais expostos da cadeia.

A indústria automóvel da União Europeia deverá recuar pelo terceiro ano consecutivo em 2026, com a produção a contrair 0,6%, antes de uma recuperação moderada de 1,2% em 2027. As previsões constam da mais recente análise setorial da Crédito y Caución, que aponta o protecionismo comercial, a transição desigual para os veículos elétricos e a fraca confiança dos consumidores como os principais fatores de pressão.

O cenário é particularmente exigente para a cadeia de fornecedores. A diminuição da procura, a perda de competitividade dos fabricantes europeus, o excesso de capacidade instalada e os investimentos exigidos pela eletrificação estão a reduzir as margens e a contribuir para o aumento dos atrasos nos pagamentos e das insolvências nos principais mercados.

No relatório que sustenta a análise, elaborado pela Atradius, grupo a que pertence a Crédito y Caución, Portugal recebe uma avaliação “fraca” quanto ao desempenho esperado da indústria automóvel e ao risco de crédito. O país surge no mesmo nível de mercados como Alemanha, Espanha, Países Baixos, Polónia, República Checa, Eslováquia e Turquia.

Fornecedores no centro da pressão

As maiores dificuldades deverão concentrar-se nos fornecedores de segundo e terceiro níveis, conhecidos como Tier 2 e Tier 3. Muitas destas empresas poderão não dispor da capacidade financeira ou tecnológica necessária para acompanhar a transformação da indústria e subir na cadeia de valor.

A situação é especialmente complexa para os fabricantes ainda muito dependentes da produção de componentes destinados a veículos com motores de combustão interna. Segundo a análise, estas empresas terão de transformar os seus modelos de negócio ou enfrentar o risco de desaparecer.

A indefinição em torno do ritmo da eletrificação torna, contudo, mais difícil decidir onde e quando investir. Fabricantes e fornecedores continuam a ter de afetar recursos às tecnologias de combustão, ao mesmo tempo que financiam a transição para plataformas elétricas, baterias, software e novos processos produtivos.

A eventual revisão do horizonte europeu para o fim da comercialização de veículos novos com motores de combustão interna acrescenta incerteza às decisões de investimento. Para as empresas, a questão passa por perceber durante quanto tempo ainda terão de manter duas trajetórias tecnológicas em paralelo.

Em mercados como França e Alemanha, a pressão é já visível na deterioração da situação financeira dos fornecedores. O relatório refere margens mais estreitas, níveis elevados de incumprimento e maiores dificuldades na obtenção de crédito ou no prolongamento de linhas de financiamento.

Os fornecedores de menor dimensão estão particularmente expostos, por disporem de menos reservas financeiras e enfrentarem custos elevados para converter a produção. A Atradius antecipa mesmo novas insolvências no setor automóvel francês nos próximos 12 meses.

Tarifas aceleram reorganização

As tensões comerciais constituem outro fator de instabilidade. As tarifas norte-americanas sobre os veículos produzidos na União Europeia estão a aumentar os custos dos fabricantes com maior exposição aos Estados Unidos e deverão acelerar a localização de capacidade produtiva na América do Norte.

Esta tendência poderá obrigar alguns fornecedores europeus a acompanhar os construtores e a instalar operações mais próximas das novas fábricas. No entanto, muitas empresas de menor dimensão não terão capacidade financeira para realizar essa deslocação, o que poderá conduzir a uma redução permanente da capacidade industrial na Europa.

A Alemanha é um dos mercados mais expostos. A produção automóvel do país deverá recuar 2,6% em 2026 e 1,8% em 2027, depois de já ter diminuído 1,9% em 2025. A quebra da procura europeia, as tarifas dos Estados Unidos e a perda de quota das marcas alemãs na China estão a pressionar simultaneamente volumes e margens.

Vários fabricantes alemães estão a avançar com cortes de custos e de postos de trabalho. Alguns planeiam também aumentar a produção nos Estados Unidos, uma estratégia que poderá levar os fornecedores a fazer o mesmo para manterem o acesso aos contratos. Para muitas pequenas e médias empresas, porém, essa relocalização poderá ser financeiramente inviável.

Ao mesmo tempo, as tarifas europeias aplicadas aos veículos elétricos produzidos na China oferecem apenas uma proteção limitada. Apesar das taxas adicionais, que variam entre 17,8% e 45,3%, os fabricantes chineses continuam a beneficiar de uma vantagem de custos relevante.

China como motor de crescimento

A China continua a ser o principal motor do crescimento automóvel mundial. A produção no país deverá aumentar 1,9% em 2026, depois de ter crescido 12,2% em 2025. Entre janeiro e maio deste ano, as exportações chinesas de automóveis de passageiros atingiram 3,5 milhões de unidades, mais 69,6% do que no período homólogo.

O dinamismo das exportações contrasta, contudo, com a pressão financeira exercida sobre a cadeia local. A guerra de preços no mercado dos veículos elétricos prolonga-se há três anos e terá provocado uma redução de cerca de 20% nos preços médios de venda.

Os fornecedores são o segmento mais vulnerável. O poder negocial dos fabricantes permite-lhes exigir reduções anuais de preços e alargar os prazos de pagamento. Em alguns casos, segundo o relatório, os pagamentos ultrapassam os 200 dias, agravando as necessidades de fundo de maneio, a pressão sobre a liquidez e o risco de cobrança.

A análise antecipa uma consolidação do mercado chinês no médio prazo, com os fabricantes mais rentáveis a reforçarem a posição através do controlo de custos, do aumento das exportações e da diferenciação tecnológica.

Dependência de matérias-primas críticas

A indústria automóvel permanece também exposta a eventuais disrupções no abastecimento de matérias-primas críticas. O anúncio feito pela China sobre a possibilidade de impor controlos mais rigorosos às exportações de terras raras, entretanto suavizado, voltou a evidenciar a dependência dos fabricantes ocidentais.

Estes materiais são utilizados não apenas nos veículos elétricos, mas também em motores, sensores, sistemas de direção assistida, travagem regenerativa e outros componentes eletrónicos. Uma limitação das exportações chinesas poderia, por isso, provocar estrangulamentos em diferentes pontos da cadeia de abastecimento automóvel.

Reduzir esta dependência será um processo de longo prazo, numa altura em que a eletrificação deverá continuar a ganhar peso. A Crédito y Caución estima que os veículos híbridos e elétricos representem 59% das vendas mundiais de veículos ligeiros em 2030, face a apenas 10% em 2020.

À escala global, a produção de veículos e componentes deverá diminuir 0,2% em 2026, depois de ter aumentado 2,9% no ano anterior. Para 2027, é antecipado um crescimento de 1,7%, apoiado sobretudo na recuperação do continente americano.

FOTO: Crédito y Caución/Atradius