Os níveis historicamente baixos do Reno já estão a condicionar o abastecimento de químicos, carvão, cereais e outras matérias-primas. Com menos capacidade fluvial, custos de transporte mais elevados e fornecedores a invocarem força maior, o impacto da seca começa a chegar diretamente às decisões de procurement.
Meses de tempo quente e seco reduziram o nível do Reno, uma das principais vias de abastecimento da indústria europeia, impedindo muitas embarcações de operar com carga completa. Em alguns troços, o transporte fluvial foi praticamente substituído por camiões e comboios.
No ponto crítico de Kaub, próximo de Koblenz, a leitura do nível do rio chegou aos seis centímetros em 15 de agosto, abaixo do anterior mínimo de 25 centímetros registado em 2018. O rio tem, na realidade, cerca de um metro adicional de profundidade nesse local, mas a leitura da escala é utilizada para determinar a carga que as embarcações podem transportar em segurança.
O Reno liga os portos de Roterdão e Antuérpia a alguns dos principais centros industriais da Alemanha e por esta via circulam combustíveis, químicos, carvão, minérios, cereais, materiais de construção e produtos transformados.
A redução da capacidade de transporte já está a afetar o cumprimento de contratos por parte de algumas empresas, como a Covestro, que acabou por concluir que o recurso ao transporte rodoviário e ferroviário para o transporte dos seus produtos químicos utilizados, entre outras aplicações, no fabrico de colchões e no isolamento de frigoríficos, não permitia compensar totalmente a falta de capacidade fluvial.
Também a Evonik reconheceu perturbações na atividade do seu parque químico de Marl devido à redução das cargas recebidas. Na siderurgia, a Salzgitter teve de transferir para o transporte ferroviário o carvão proveniente de Roterdão e destinado à sua operação HKM.
Cereais também são afetados
A seca está igualmente a condicionar o transporte de produtos agrícolas. A empresa alemã RWZ costuma movimentar pelo menos 50 mil toneladas através dos seus terminais fluviais de Worms e Andernach durante julho e agosto. Este ano, transportou menos de 10% desse volume e teve de recorrer a camiões, uma alternativa mais cara.
A pressão poderá aumentar nos próximos meses se o nível do rio não recuperar antes do período de maior movimentação das colheitas e de preparação dos stocks de inverno.
O Bundesbank alertou, no relatório mensal divulgado a 20 de agosto, que as limitações nas principais vias fluviais e a forte subida dos custos de transporte deverão prejudicar de forma significativa a produção industrial e as exportações alemãs no terceiro trimestre. Segundo o banco central alemão, a situação está já a afetar a recuperação da maior economia europeia.
Disponibilidade, preço e contratos
Para as áreas de procurement, o problema vai além do aumento do custo do transporte. A redução da capacidade fluvial pode provocar atrasos, limitar as quantidades disponíveis e impedir fornecedores de cumprirem os contratos.
A declaração de força maior dada pela Covestro mostra como um risco climático pode rapidamente transformar-se num risco contratual para os compradores. Empresas dependentes de matérias-primas transportadas pelo Reno podem ter de rever prazos, procurar fornecedores alternativos ou suportar os custos da transferência das cargas para a ferrovia e rodovia.
A situação reforça a necessidade de avaliar a localização dos fornecedores e dos inventários, definir níveis mínimos de stock e clarificar nos contratos quem assume os custos adicionais quando o modo de transporte inicialmente previsto deixa de estar disponível.
Por outro lado, evidencia os limites da diversificação baseada apenas no número de fornecedores. Duas fontes de abastecimento diferentes podem continuar expostas ao mesmo risco se utilizarem a mesma rota, o mesmo terminal ou a mesma infraestrutura de transporte.
FOTO: Marion Halft / Wikimedia Commons - CC BY-SA 4.0


