A logística foi encarada, durante muito tempo, como uma mera função operacional focada na redução de custos, mas as exigências do mercado potenciaram uma mudança de paradigma. Nesta reflexão, Sandra Durães, Service manager na Logista Pharma e professora Convidada na Licenciatura em Gestão da Distribuição e da Logística (ESCE, IPS), defende que a cadeia de abastecimento tornou-se numa das principais alavancas de criação de valor empresarial, em que a competitividade depende da capacidade de alinhar decisões logísticas com a gestão e sustentabilidade financeira das organizações.

Durante demasiado tempo, a logística foi avaliada pelos custos que conseguia reduzir. Talvez tenha chegado o momento de começar a avaliá-la pelo valor financeiro que consegue criar. Durante décadas, a gestão da cadeia de abastecimento foi encarada como uma função essencialmente operacional. O foco recaía na eficiência, na redução de custos, na otimização dos transportes, na gestão dos inventários e na melhoria dos níveis de serviço. Estes continuam a ser objetivos fundamentais. No entanto, a realidade empresarial exige hoje uma perspetiva mais ampla.

Cada decisão logística tem um impacto financeiro. E esse impacto vai muito além da rubrica dos custos operacionais. Quando uma empresa decide aumentar os níveis de stock para melhorar a disponibilidade de produto, não está apenas a reforçar o nível de serviço. Está, também, a imobilizar capital, a aumentar os custos de armazenamento e a alterar o seu ciclo financeiro. Quando reduz drasticamente os inventários para melhorar indicadores financeiros de curto prazo, pode comprometer a capacidade de resposta ao mercado, perder vendas e deteriorar a experiência do cliente. Da mesma forma, uma decisão aparentemente simples, como reduzir o número de fornecedores para ganhar escala, pode melhorar as condições comerciais, mas aumentar significativamente o risco de interrupção da cadeia de abastecimento.

A logística deixou, por isso, de ser apenas uma questão de eficiência operacional. Tornou-se um exercício permanente de equilíbrio financeiro. Imagine duas empresas com níveis de serviço semelhantes. A primeira mantém seis meses de inventário. A segunda, suportada por uma melhor previsão da procura e por uma maior colaboração com os fornecedores, consegue operar com apenas três meses de stock. Ambas vendem o mesmo volume e mantêm níveis de serviço comparáveis. No entanto, a segunda liberta uma quantidade significativa de capital que pode ser reinvestida em inovação, expansão do negócio ou redução do endividamento. A diferença não está apenas na logística. Está na capacidade de transformar decisões operacionais em criação de valor financeiro. É precisamente aqui que o conceito de Supply Chain Finance assume uma relevância crescente.

Ao contrário do que o nome poderá sugerir, não se trata apenas de instrumentos financeiros aplicados à cadeia de abastecimento. Trata-se, acima de tudo, de compreender como as decisões logísticas influenciam diretamente indicadores financeiros estratégicos, como o capital circulante, o ciclo Cash-to-Cash, a liquidez, a rentabilidade e o retorno sobre o investimento. Este enquadramento obriga a uma mudança de paradigma.

Durante muito tempo, a logística e as finanças falaram linguagens diferentes. Enquanto uma procurava maximizar o nível de serviço, a outra procurava otimizar o capital investido. Muitas vezes, ambas perseguiam objetivos legítimos, mas sem uma visão integrada do impacto global para a organização. Hoje, essa separação já não faz sentido. As organizações mais maduras começam a compreender que a competitividade não depende apenas da eficiência da operação, mas da capacidade de alinhar decisões logísticas com objetivos financeiros e estratégicos. A questão deixa então de ser ‘quanto custa armazenar um produto’ para passar a ser ‘qual o custo financeiro de não o ter disponível quando o cliente dele necessita’.

Da mesma forma, reduzir inventário não representa necessariamente uma melhoria de desempenho se essa decisão implicar perdas de vendas, ruturas frequentes ou deterioração da confiança do mercado. A verdadeira criação de valor reside na capacidade de encontrar o ponto de equilíbrio entre disponibilidade, risco, liquidez e rentabilidade.

Num contexto marcado por volatilidade, incerteza e crescente pressão sobre o capital, a Supply Chain assume um papel cada vez mais determinante na sustentabilidade financeira das organizações. Talvez por isso seja tempo de abandonar uma visão que encara a logística apenas como um centro de custos. Na realidade, a cadeia de abastecimento é hoje uma das principais alavancas de criação de valor empresarial. Não apenas porque movimenta produtos, mas porque influencia diretamente o fluxo mais importante de qualquer organização: o fluxo de capital.

© 2026 Sandra Durães · ORCID: 0009-0009-7043-8466

Sandra Durães, Service Manager na Logista Pharma | Professora Convidada na Licenciatura em Gestão da Distribuição e da Logística (ESCE, IPS)