Neste artigo de opinião, Fernando Grilo, business partner da Wide Four LDA, analisa as dinâmicas do transhipment nos portos espanhóis e o equilíbrio entre a carga local e a volatilidade das redes marítimas.
O transhipment continua a ser a principal componente do tráfego de contentores dos portos espanhóis, representando 9,6 milhões de TEU em 2025, cerca de 52% dos 18,6 milhões de TEU movimentados no total.
O crescimento excecional do transhipment em 2024 esteve associado aos ataques no estreito de Bab-el-Mandeb e ao consequente desvio dos serviços marítimos do Canal do Suez para a rota do Cabo da Boa Esperança. Esta alteração beneficiou especialmente os portos espanhóis do Mediterrâneo.
Em 2025, esse efeito perdeu intensidade. Embora os armadores tenham continuado a utilizar a rota pelo Cabo, dispuseram de tempo para reduzir e diversificar o número de escalas, reorganizar as redes marítimas e ajustar a capacidade colocada nos serviços.
Algeciras: manutenção da posição de hub
Algeciras manteve praticamente inalterado o tráfego de transhipment, com 4,1 milhões de TEU e crescimento de 0,3%. Este tráfego representa cerca de 87% do movimento total de contentores do porto, confirmando a sua forte especialização como hub de transhipment.
O tráfego total de Algeciras permaneceu estável em 4,7 milhões de TEU, com o crescimento moderado da importação-exportação a complementar a estabilidade do transhipment.
Valência: queda compensada pelo mercado interno
Em Valência, o transhipment caiu 7,4%, para 2,55 milhões de TEU. Apesar dessa redução, o porto conseguiu aumentar o tráfego total em 3,4% e conservar a liderança espanhola, graças ao crescimento de 15,4% no tráfego de importação-exportação. O caso de Valência demonstra que uma base significativa de carga associada ao hinterland reduz a exposição do porto à volatilidade das decisões dos armadores.
Barcelona: normalização após um crescimento oportunístico
O relatório classifica o forte crescimento do transhipment de Barcelona em 2024 — 31,9%, para 1,7 milhões de TEU — como resultado de um comportamento “oportunístico” dos armadores perante as perturbações das rotas marítimas.
Em 2025 ocorreu uma normalização, com uma redução de 13%, para 1,5 milhões de TEU. O crescimento da importação-exportação não foi suficiente para compensar essa quebra, levando o tráfego total de contentores de Barcelona a cair 4,1%.
Las Palmas
O relatório destaca que os armadores podem transferir rapidamente operações de transhipment para portos alternativos no quadro da otimização das redes. Em Las Palmas, o transhipment cresceu 26,6%, para cerca de 939 mil TEU, impulsionado pela MSC e pelo terminal OPCSA. Este crescimento permitiu ao porto atingir 1,54 milhões de TEU e ultrapassar Marselha no ranking europeu.
Primeiros cinco meses de 2026
O relatório indica uma recuperação nacional do transhipment de 2,8% entre janeiro e maio de 2026, porque os armadores mantiveram as escalas, introduzindo apenas pequenos ajustamentos.
Fernando Grilo, Business Partner | Wide Four LDA


