A subida dos custos dos combustíveis já é encarada como uma inevitabilidade e, em Portugal, este é o resultado de décadas de planeamento de transportes sem visão de futuro. João Figueiredo, CEO da Carmo Wood, defende que a crise da habitação e o despovoamento do interior são consequências causadas pelo abandono da ferrovia em detrimento de uma rede insustentável de autoestradas.

Amanhã de manhã, o visor da bomba de gasolina vai voltar a acender um número que dói. Mais uns cêntimos, mais uns euros no fim do mês. E lá vamos nós resmungar sem perceber que o problema nunca foi aquele número.

Foi uma escolha feita sem pensar no efeito. Durante décadas, entregámos a nossa visão logística à construção de autoestradas, pagas com os nossos impostos e com fundos europeus que também podiam ter modernizado o comboio. Não modernizaram. Entre 1995 e 2018, a estrada cresceu 346%, mais 2.378 quilómetros de asfalto, enquanto a ferrovia encolheu 18%, perdendo 460 quilómetros de linha e deixando cem mil pessoas sem comboio à porta de casa. Investimos mais do triplo em asfalto do que em carris, 23,4 mil milhões contra 7,65 mil milhões. Ninguém pensou no que isto ia custar daqui a trinta anos, nem a quem.

E o custo é este: uma empresa paga 1,13€ por quilómetro só para pôr um camião na estrada, quando o mesmo transporte por comboio podia custar metade, segundo a própria Infraestruturas de Portugal. Mas o custo maior não se vê na fatura, vê-se no mapa do país. A Espanha construiu quatro mil quilómetros de alta velocidade e liga Madrid a Barcelona. Quinhentos quilómetros, em duas horas e trinta e sete minutos. Em França, milhares de pessoas que trabalham em Paris e vivem noutras cidades, apanham o comboio todas as manhãs e todas as tardes como quem apanha o metro, porque a linha é rápida e é de confiança. Isso não é luxo, é planeamento. Em Portugal, ninguém pensa em viver no interior e trabalhar em Aveiro ou no Porto, porque essa viagem simplesmente não existe a uma velocidade que faça sentido para uma vida normal.

E é aqui que a conta fecha. A crise da habitação no litoral e o despovoamento do interior são a mesma crise, vista de dois lados. Se houvesse uma linha que ligasse o interior a trinta minutos de uma cidade do litoral, com regularidade e conforto, milhares de famílias que hoje pagam rendas insuportáveis na cidade estariam a viver a uma paragem de distância do emprego, numa casa maior, a pagar menos, sem perder qualidade de vida. Não construímos essa alternativa. Construímos estradas. E por isso fica a pergunta no ar: será que Portugal é produtor de petróleo, ou tem uma marca de carros a precisar de vender frotas, que eu não saiba? Porque se não temos nem uma coisa nem outra, o preço do gasóleo de amanhã não é o problema. É só o troco de uma escolha antiga que nunca pensou nas consequências.

João Figueiredo, CEO | Carmo Wood

O artigo de opinião foi publicado no Linkedin entre 21 e 27 de julho.