O crescimento do comércio mundial deverá abrandar para menos de 2% em 2026, depois de ter avançado 4,6% no ano passado. A subida dos preços da energia, a redução da procura de importações e a persistente incerteza em torno da política comercial estão entre os principais fatores de pressão identificados pela Crédito y Caución.

De acordo com o mais recente relatório «Perspetivas Económicas», o desempenho de 2025 superou as expectativas, beneficiando da antecipação de transações antes da entrada em vigor de novas tarifas e da forte procura por bens relacionados com inteligência artificial, sobretudo provenientes da Ásia.

As economias asiáticas, incluindo a China, foram responsáveis por 71% do crescimento do comércio mundial no ano passado. Só o comércio de bens associados à IA aumentou mais de 35%, muito acima do crescimento de cerca de 5% registado em setores como a eletrónica e o equipamento elétrico, a indústria farmacêutica e química, a agricultura e alimentação e a maquinaria.

O investimento em IA deverá permanecer elevado em 2026, continuando a suportar os fluxos comerciais, mas com menor intensidade. A Crédito y Caución antecipa também uma alteração gradual na composição deste investimento: depois de uma primeira fase concentrada em processadores, servidores, redes e sistemas de energia, mais intensiva em comércio físico, a despesa tenderá a deslocar-se para software, serviços e integração de soluções nas empresas.

Crise energética reduz procura de importações

A evolução do comércio global está, contudo, a ser condicionada pelo conflito no Médio Oriente e pelas restrições à navegação no Estreito de Ormuz. Antes do conflito, esta rota concentrava entre 35% e 50% do comércio marítimo mundial de petróleo bruto e produtos refinados e cerca de 20% dos fluxos de gás natural liquefeito.

A interrupção dos fluxos energéticos provocou a maior redução da oferta de petróleo alguma vez registada, estimada em dez milhões de barris por dia. O preço do Brent chegou a aproximar-se dos 140 dólares por barril, antes de recuar na sequência do cessar-fogo e da retoma gradual do tráfego no estreito.

A crise teve igualmente impacto nos preços do gás natural, dos fertilizantes e de outras matérias-primas essenciais para a indústria. Segundo o relatório, a subida dos custos energéticos poderá retirar entre 0,6 e 0,9 pontos percentuais ao crescimento do comércio mundial em 2026.

Os países importadores de energia são os mais penalizados. A perda de poder de compra limita a aquisição de outros bens e o próprio consumo energético diminui à medida que empresas e consumidores se adaptam aos preços mais elevados. O impacto estimado sobre o comércio poderá atingir um ponto percentual na Europa e 0,7 pontos percentuais na Ásia.

A pressão já se reflete na inflação. Nos Estados Unidos, a taxa homóloga subiu de 2,4% em janeiro para 4,2% em maio. Na zona euro, passou de 1,7% no início do ano para 3,2% em maio, tendo recuado para 2,8% em junho com a descida dos preços da energia.

Exportações da zona euro deverão recuar

As perspetivas para a zona euro são particularmente frágeis. A Crédito y Caución prevê uma contração de 0,2% das exportações em 2026, seguida de uma recuperação de 1,5% em 2027.

Além da menor procura global, os exportadores europeus deverão continuar a perder quota no comércio de bens, refletindo a menor competitividade da indústria transformadora e a presença limitada da Europa nos setores associados à IA, que apresentam um crescimento mais rápido e uma elevada intensidade comercial.

As economias mais orientadas para os serviços encontram-se numa posição relativamente mais favorável. O turismo internacional e os serviços transfronteiriços deverão beneficiar países como Espanha e França. Já a Alemanha permanece mais exposta aos custos estruturalmente elevados dos fatores de produção e ao enfraquecimento da procura industrial. A seguradora de crédito estima que o produto interno bruto da zona euro cresça apenas 0,4% em 2026, contra 1,5% no ano anterior.

A evolução do cenário dependerá, em larga medida, da duração do conflito e da normalização da circulação no Estreito de Ormuz. A previsão central da Crédito y Caución pressupõe uma reabertura gradual da rota e uma descida dos preços da energia ao longo do segundo semestre. Neste cenário, o comércio mundial poderá recuperar para perto de 3% em 2027. Uma nova escalada do conflito, porém, voltaria a pressionar os custos, a inflação e a atividade económica global.