Embora exista hoje, mais do que nunca, conhecimento científico e tecnologia, há um fosso entre a academia e a realidade operacional das empresas que não é benéfico para ambas as partes. Pedro Ferreira Queimado, founder & Senior Efficiency consultant da KronoLog Solutions, defende, nesta reflexão, que a verdadeira inovação não virá de um novo algoritmo, mas sim da capacidade de criar ecossistemas de colaboração entre a academia e a indústria para que se possa construir conhecimento e aplicá-lo, em conjunto.
Vivemos uma época extraordinária para a Supply Chain. Nunca existiu tanto conhecimento disponível, tantas tecnologias emergentes, tantos algoritmos capazes de otimizar decisões, tantos modelos preditivos, tantos artigos científicos e tantos especialistas dedicados a compreender os desafios das cadeias de abastecimento. Simultaneamente, nunca as empresas enfrentaram um contexto tão complexo, marcado pela instabilidade geopolítica, pela volatilidade da procura, pela escassez de talento, pela pressão sobre os custos e pela necessidade permanente de adaptação. Seria razoável esperar que estes dois mundos caminhassem cada vez mais próximos. No entanto, a sensação é precisamente a contrária. A academia continua a produzir conhecimento de enorme qualidade que raramente chega às operações, enquanto muitas empresas enfrentam problemas já estudados, analisados e, em alguns casos, resolvidos há muito pela investigação científica.
A questão não está na qualidade da investigação nem na competência dos profissionais. O problema é mais profundo. A academia e a indústria vivem condicionadas por objetivos, tempos e métricas de sucesso completamente diferentes. Um investigador procura produzir conhecimento robusto, metodologicamente sólido e passível de ser generalizado. Um diretor de operações procura resolver um problema que lhe está a custar milhares de euros por dia. Um projeto de investigação pode demorar meses ou anos até produzir resultados. Uma decisão operacional pode ter de ser tomada antes da próxima reunião da manhã. Enquanto um valoriza a validade científica, o outro mede o sucesso pelo impacto no serviço ao cliente, na produtividade ou na margem operacional. Nenhum está errado. Apenas respondem a incentivos diferentes.
Talvez por isso seja frequente ouvirmos empresas dizer que a investigação está demasiado distante da realidade e investigadores lamentarem a falta de abertura das organizações para experimentar novas abordagens. Mas esta crítica, feita de ambos os lados, parte de um pressuposto perigoso: o de que a responsabilidade pertence sempre ao outro. As empresas esperam soluções prontas para aplicar. A academia espera que as empresas se aproximem para colaborar. Entretanto, perde-se uma oportunidade que é, provavelmente, uma das maiores fontes de inovação que o setor pode explorar.
A verdade é que a inovação raramente nasce isolada. As melhores perguntas dificilmente surgem apenas num laboratório, tal como as melhores respostas dificilmente aparecem apenas numa sala de reuniões. Os problemas mais relevantes encontram-se nas operações. As metodologias mais rigorosas desenvolvem-se na investigação. Quando estes dois mundos trabalham em paralelo, ambos perdem. Quando trabalham em conjunto, ambos evoluem.
É precisamente aqui que reside um dos maiores desafios da próxima década. Durante anos discutimos a transformação digital, a Inteligência Artificial, os Digital Twins, a automação ou a análise avançada de dados como se a tecnologia fosse, por si só, o motor da mudança. Não é. A tecnologia apenas amplifica aquilo que já existe. Se existir colaboração, acelera a inovação. Se existir distância, apenas a torna mais evidente.
Talvez esteja na altura de deixarmos de perguntar como podemos aproximar a academia da indústria e começarmos a perguntar como podemos construir conhecimento em conjunto. Não através de relações ocasionais, criadas apenas quando surge um projeto financiado ou um estágio curricular, mas através de comunidades onde investigadores, empresas, fornecedores de tecnologia e profissionais partilham problemas reais, validam soluções e aprendem mutuamente. A investigação ganha relevância. As empresas ganham acesso a novas perspetivas. Os estudantes entram no mercado com uma compreensão mais profunda da realidade. E a profissão evolui.
Num setor tão crítico como a Supply Chain, onde as decisões de hoje condicionam a competitividade de amanhã, talvez a maior inovação não seja o próximo algoritmo nem a próxima plataforma tecnológica. Talvez seja conseguirmos criar, de forma consistente, espaços onde quem faz investigação e quem faz acontecer deixem de trabalhar em mundos separados e passem, finalmente, a resolver os mesmos problemas em conjunto.
Porque, no final, as grandes transformações não acontecem quando a academia fala para a indústria ou quando a indústria fala para a academia. Acontecem quando ambas começam, verdadeiramente, a conversar.
Pedro Ferreira Queimado, Founder & Senior Efficiency Consultant | KronoLog Solutions


