A indústria portuguesa está a passar por uma fase complexa com o aumento dos custos de produção, uma estagnação na produção e ainda com a escassez de talento qualificado. Num cenário volátil e incerto, competir por volume ou redução de custos já não é suficiente. Como explica Sérgio Aguiar, account executive – Industry leader da valantic, a verdadeira questão já não se resume a “como produzir mais?”, mas sim “como produzir melhor?”. A resposta está na forma como a tecnologia pode e deve ser utilizada.
A economia portuguesa fechou 2025 com um sinal que não deve ser ignorado. Os custos do trabalho por unidade produzida aumentaram 5,3%, num movimento explicado pela subida da remuneração média e por uma quebra da produtividade. Para 2026, a previsão aponta para uma recuperação muito limitada. Ou seja, as empresas continuam a enfrentar o mesmo desafio: crescer, proteger margens e competir melhor, num contexto em que produzir custa mais e a produtividade avança pouco.
Na indústria, esta pressão sente-se todos os dias. Cada paragem, cada desvio de qualidade, cada desperdício e cada decisão tardia tem impacto direto nos custos, nos prazos e na capacidade de resposta ao mercado. Durante muito tempo, falar de produtividade foi quase sinónimo de produzir mais: mais turnos, mais capacidade, mais volume. Hoje, essa resposta já não chega. Produzir mais não significa, por si só, produzir melhor.
O verdadeiro problema está, muitas vezes, na forma como a capacidade instalada é usada. Há produtividade que se perde sem grande visibilidade: numa máquina que para sem aviso, numa linha que consome mais energia do que deveria, numa matéria-prima desperdiçada ou numa informação que não chega a tempo a quem tem de decidir. São perdas que parecem pequenas quando vistas isoladamente, mas que, somadas, condicionam a eficiência, a rentabilidade e a competitividade das empresas.
A esta realidade junta-se outro fator que está a acelerar a transformação da indústria: a escassez de talento qualificado. A dificuldade em encontrar profissionais técnicos, a saída de conhecimento experiente e a necessidade de novas competências tornam a discussão ainda mais urgente. A questão já não é apenas como produzir mais. É também como manter capacidade produtiva, qualidade e eficiência quando os recursos humanos disponíveis são cada vez mais disputados.
É neste contexto que a automação, os dados e a inteligência artificial ganham relevância. Não como resposta futurista, nem como substituto das pessoas, mas como ferramentas práticas para usar melhor os recursos disponíveis. As empresas industriais já geram informação em praticamente todos os pontos do processo: máquinas, sensores, sistemas de gestão, manutenção, logística, qualidade e produção. O desafio não está apenas em recolher esses dados. Está em ligá-los, interpretá-los e transformá-los em decisões úteis.
Quando isso acontece, a tecnologia deixa de ser uma promessa distante. A inteligência artificial, a IoT e a integração de sistemas permitem perceber padrões, antecipar falhas, ajustar processos e apoiar decisões quase em tempo real. Em vez de reagir a uma paragem, é possível identificar sinais de risco antes de ela acontecer. Em vez de corrigir desperdício no fim do processo, é possível atuar durante a produção. Em vez de decidir apenas com base na experiência, é possível juntar esse conhecimento aos dados que a própria operação já produz.
Esta ligação entre tecnologia e conhecimento humano é essencial. Mesmo quando se fala em fábricas mais automatizadas, o ponto não deve ser retirar pessoas da equação. Deve ser libertar talento para funções em que o contributo humano é mais relevante: supervisão, melhoria contínua, análise, decisão e resolução de problemas complexos. A indústria não precisa de soluções que retirem valor às equipas. Precisa de ferramentas que lhes deem melhor informação, mais contexto e mais capacidade de intervenção.
Na prática, isto pode significar manutenção preventiva, melhor planeamento da produção, maior controlo de qualidade, redução de desperdício, menor consumo energético ou uma resposta mais rápida a alterações da procura. São ganhos que não vivem apenas em apresentações sobre inovação. Vivem nos tempos de paragem que se evitam, nos recursos que se poupam e nas decisões que passam a ser tomadas com maior segurança.
Mas para que este impacto exista, a tecnologia não pode ser tratada como um fim em si mesma. A inteligência artificial não resolve problemas mal definidos, nem compensa dados fracos ou sistemas que não comunicam entre si. O ponto de partida tem de ser sempre a operação: onde se gere eficiência, onde há mais variabilidade, onde as equipas precisam de melhor informação e onde uma decisão mais rápida pode gerar valor real.
A urgência da produtividade obriga a esta mudança. A indústria portuguesa e europeia não pode competir apenas por volume ou por custo. Tem de competir por eficiência, qualidade, capacidade de resposta e inteligência operacional. E, num contexto de escassez de talento, isso exige também uma utilização mais inteligente das competências disponíveis.
Produzir mais continuará a ser importante. Mas o verdadeiro salto está em produzir melhor. E, nesse caminho, os dados e a inteligência artificial deixam de ser uma promessa distante para se tornarem instrumentos práticos de produtividade e competitividade.
Sérgio Aguiar, Account Executive – Industry Leader | valantic


