A empresa brasileira de software para supply chain inicia atividade no mercado português com uma plataforma de previsão e abastecimento dirigida sobretudo ao retalho alimentar, distribuição grossista e operações multiponto. A proposta passa por reduzir ruturas e excesso de inventário, automatizando decisões que ainda dependem de processos manuais, regras estáticas e folhas de cálculo.

A Kikker Software escolheu Portugal como ponto de partida para a sua expansão na Europa. A operação será liderada por Marcelo Vinhas, Partner & Europe Lead da empresa, e terá como foco inicial o retalho alimentar, a distribuição grossista e outras operações com múltiplos pontos de venda ou entrega e elevada complexidade na gestão de stocks.

Com origem no Brasil, a empresa pretende transferir para o mercado europeu a experiência adquirida em operações de grande escala, adaptando a plataforma às especificidades comerciais, logísticas e tecnológicas de cada mercado.

“Portugal será o ponto de partida da expansão europeia da Kikker”, afirma Marcelo Vinhas, adiantando que a experiência desenvolvida no país deverá servir de base a uma entrada progressiva noutros mercados europeus.

A empresa encontra-se já em conversações com operadores portugueses, embora, por razões de confidencialidade, não revele nesta fase nomes de potenciais clientes ou projetos em curso.

 

Entre os dados e a execução

A Kikker apresenta-se como uma plataforma de previsão e abastecimento suportada por inteligência artificial e machine learning, destinada a preencher o espaço entre os sistemas de gestão existentes e as decisões operacionais do dia a dia.

A solução não pretende substituir ERP, WMS ou ferramentas de business intelligence. Procura, antes, funcionar como uma camada adicional de inteligência, capaz de transformar os dados disponíveis em recomendações, encomendas, transferências e tarefas operacionais.

“Enquanto o BI mostra o que aconteceu ou o que está a acontecer, não toma a decisão nem executa a reposição”, explica Marcelo Vinhas. “A lacuna que procuramos preencher está precisamente na transição entre a visibilidade dos dados e a execução operacional.”

Entre as decisões que a plataforma pode apoiar ou automatizar encontram-se o cálculo das necessidades de compra, a emissão de encomendas, a distribuição de stock entre centros de distribuição e lojas, as transferências entre pontos de venda, a priorização do picking e a gestão de artigos perecíveis segundo critérios FEFO. A ferramenta considera parâmetros como lead times, agendas de fornecedores, níveis de serviço, velocidade de venda, sazonalidade, promoções e restrições logísticas.

 

Excel ainda está no centro de muitas decisões

Na análise feita ao mercado português, a Kikker identifica desafios semelhantes aos observados noutros países europeus: uma complexidade operacional crescente, sistemas pouco flexíveis e uma dependência ainda significativa de processos manuais e de folhas de cálculo.

Segundo Marcelo Vinhas, muitas empresas dispõem de sistemas robustos de gestão e de elevados volumes de informação, mas continuam a recorrer ao Excel para compensar a rigidez das regras instaladas ou a ausência de capacidade preditiva.

“O problema não é necessariamente a falta de dados ou de sistemas. É a dificuldade em ligar a estratégia comercial à execução logística e transformar informação em decisões concretas”, refere.

Esta distância torna-se particularmente visível na gestão de promoções, sazonalidade e artigos perecíveis. Uma previsão baseada apenas no histórico de vendas pode não captar variáveis como elasticidade-preço, canibalização entre produtos, condições meteorológicas, feriados locais ou eventos regionais. Também pode ignorar limitações da própria cadeia, como a capacidade disponível nos centros de distribuição, os prazos de entrega dos fornecedores ou os constrangimentos de transporte.

 

Reduzir ruturas sem aumentar o inventário

Um dos principais desafios do retalho continua a ser o equilíbrio entre disponibilidade em loja e controlo dos níveis de stock. Uma resposta excessiva ao risco de rutura pode resultar em inventário acumulado, perdas por validade e capital imobilizado. Uma política demasiado restritiva de stock pode, por outro lado, conduzir à perda de vendas.

A proposta da Kikker passa por calcular as necessidades de reposição de forma granular, considerando o comportamento específico de cada loja, produto e fornecedor.

A plataforma procura, deste modo, abandonar uma gestão assente em médias gerais e tratar cada ponto de venda de acordo com o seu perfil de procura. Uma loja de proximidade, um supermercado regional e um hipermercado podem ter padrões de consumo, sazonalidade e sensibilidade promocional muito diferentes, mesmo quando comercializam os mesmos artigos.

“Não olhamos para a rede como um bloco único. Cada loja tem o seu próprio pulso de procura”, salienta Marcelo Vinhas. No caso dos perecíveis, por exemplo, a gestão da vida útil e da rotação dos artigos assume particular importância. A plataforma integra regras de FEFO (First Expired, First Out) e procura ajustar as quantidades à procura esperada, reduzindo simultaneamente o risco de rutura e as perdas por expiração.

 

Da gestão diária à gestão por exceção

A introdução de inteligência artificial no planeamento e abastecimento levanta também uma questão sobre o papel das equipas. Para a Kikker, o objetivo não é retirar ao profissional de supply chain a capacidade de decidir, mas antes libertá-lo de tarefas repetitivas e de elevado esforço analítico.

A empresa defende um modelo de gestão por exceção, no qual a tecnologia trata as rotinas e sinaliza desvios, riscos ou situações que necessitam de intervenção humana. “Quando um diretor de supply chain passa a maior parte do dia a ajustar dados e a apagar incêndios operacionais, a sua capacidade estratégica é desperdiçada”, considera Marcelo Vinhas.

A decisão humana continuará, na sua perspetiva, a ser indispensável em situações de elevada incerteza, negociações complexas, alterações comerciais de grande impacto ou acontecimentos sem histórico suficiente para suportar uma recomendação automática.

A mudança exige, contudo, mais do que integração tecnológica. Requer que as organizações estejam disponíveis para rever processos, confiar progressivamente na automação e substituir decisões baseadas apenas na experiência, ou na intuição, por uma gestão apoiada em evidências.

 

Retalho e indústria mais próximos

Numa fase posterior, a ambição da Kikker passa também por reforçar a colaboração entre retalhistas e fornecedores, através de modelos como Vendor Managed Inventory (VMI) e  Collaborative Planning, Forecasting and Replenishment (CPFR).

A partilha de informação sobre procura, stock, promoções e capacidade pode permitir uma maior sincronização entre o que acontece no ponto de venda e as decisões de produção e distribuição da indústria.

Marcelo Vinhas considera que o mercado português revela uma abertura crescente a este tipo de colaboração, embora persistam obstáculos relacionados com integração de sistemas, qualidade da informação e confiança entre as partes. “O desafio tem sido menos de vontade e mais de meios técnicos. Retalho e indústria perceberam que a ineficiência num dos elos acaba por penalizar toda a cadeia”, afirma.

A presença da Kikker em Portugal será suportada por uma operação local, ligada à equipa técnica e operacional da empresa no Brasil. A empresa admite ainda trabalhar com parceiros de implementação, mantendo internamente a responsabilidade pelo conhecimento da solução e pela qualidade dos projetos. Nesta primeira fase, procura empresas que tenham atingido o limite da gestão manual ou baseada em fórmulas estáticas, independentemente de se tratar de grandes cadeias ou redes regionais em crescimento.

“A tecnologia não vem retirar poder de decisão ao gestor. Vem devolver-lhe o tempo que perde a gerir o passado e dar-lhe maior clareza para preparar o futuro”, conclui Marcelo Vinhas.

 

📸 A Kikker apresentou-se ao mercado português em maio, na SCM Conference.
NOTA: A entrevista completa será publicada na edição de setembro da SCM.