Há uma ideia amplamente aceite de que o procurement é uma função técnica, objetiva e neutra. Mas será mesmo assim? Neste quarto artigo da série “O lado menos óbvio do procurement”, Juliana José defende que as decisões de compra são inevitavelmente moldadas por relações, interesses, prioridades e dinâmicas de poder. Reconhecê-lo, argumenta, não diminui a credibilidade da função, bem pelo contrário.
Existe uma ideia amplamente aceite, e raramente questionada, de que o procurement é uma função neutra. Técnica. Objetiva.
Na teoria, é um conceito apelativo. Na prática, está longe de refletir a realidade.
As decisões de procurement não acontecem num vazio. São influenciadas por múltiplos fatores: interesses internos, relações estabelecidas, pressões operacionais, prioridades estratégicas e, muitas vezes, dinâmicas de poder.
Ignorar esta dimensão não torna o processo mais puro. Torna-o menos transparente.
Ao longo da minha experiência, percebi que muitas decisões de procurement são tanto organizacionais como técnicas.
Quem influencia? Quem decide? Quem valida? Quem detém o poder real e quem tem apenas capacidade de influência?
O procurement está frequentemente no centro destas dinâmicas. E isso não é, por si só, negativo. O problema surge quando fingimos que elas não existem.
A ideia de neutralidade pode ser confortável, mas cria uma ilusão. E decisões baseadas em ilusões raramente são boas decisões.
A verdadeira maturidade não está em eliminar a influência — isso seria irrealista — mas em saber geri-la de forma consciente.
Tornar explícito o que muitas vezes permanece implícito. Reconhecer o contexto em vez de o ignorar.
E decidir com essa consciência.
Porque as decisões de procurement não dizem respeito apenas a fornecedores, preços ou contratos.
São escolhas que influenciam o desempenho do negócio e são tomadas dentro de um sistema organizacional complexo, onde diferentes interesses e prioridades coexistem.
Assumir que o procurement não é neutro não fragiliza a função. Pelo contrário: torna-a mais transparente, mais consciente e, por isso, mais eficaz.
Juliana José, Especialista de Compras


