A produção farmacêutica na Europa Ocidental deverá contrair 2,7% em 2026, penalizada pelos efeitos indiretos do conflito no Médio Oriente, nomeadamente pelo aumento dos preços do petróleo e do gás, perturbações nas cadeias de abastecimento e subida dos custos de transporte. A previsão é da Crédito y Caución, no relatório “Industry Trends – Pharmaceuticals”, publicado em junho.

Depois de um crescimento acentuado de 14,6% em 2025, explicado sobretudo pela antecipação de produção face à ameaça de novas tarifas norte-americanas, o setor farmacêutico europeu deverá registar este ano uma correção dos níveis de produção. Segundo a seguradora de crédito, a quebra reflete não apenas o ajustamento face ao pico do ano anterior, mas também uma procura externa mais moderada e o agravamento dos custos operacionais associados à instabilidade geopolítica.

O relatório identifica o conflito no Golfo como um fator de pressão crescente sobre a indústria. Apesar de o Médio Oriente representar apenas uma pequena parcela da produção global de ingredientes farmacêuticos, o aumento dos custos energéticos e logísticos está a ter impacto direto na produção e distribuição de medicamentos. A Crédito y Caución assinala que matérias-primas, API e produtos químicos registaram aumentos significativos, na ordem dos 20% a 30%, enquanto alguns componentes, como a glicerina, terão encarecido cerca de 60%.

A pressão é particularmente relevante para fabricantes de medicamentos genéricos e empresas de desenvolvimento e fabrico por contrato, conhecidas como CDMO, que operam frequentemente em instalações intensivas em energia e têm menor capacidade para repercutir custos nos preços finais, devido à forte regulação europeia sobre o preço dos medicamentos. Pelo contrário, as grandes farmacêuticas, com portefólios mais diversificados e maior poder de fixação de preços, têm demonstrado maior capacidade para absorver o aumento dos custos.

Mesmo com a reabertura do Estreito de Ormuz, a Crédito y Caución antecipa que os efeitos negativos se prolonguem durante a segunda metade de 2026, uma vez que a retoma do tráfego deverá ser gradual. O relatório alerta ainda para o risco de uma nova escalada do conflito, que poderia ter impacto significativo no risco de crédito das empresas farmacêuticas europeias.

A análise aponta também para desempenhos diferenciados entre os principais mercados europeus. Alemanha, Irlanda e Suíça deverão registar quebras na produção farmacêutica em 2026, enquanto a Dinamarca surge como exceção, com crescimento previsto de 6,5%, apoiado pela produção de medicamentos para a obesidade.

A nível global, a mesma fonte estima que o crescimento da produção farmacêutica estabilize em 2026, depois de um aumento de 9% em 2025, também influenciado pela antecipação de encomendas perante o risco tarifário. As tarifas norte-americanas deverão ter, para já, um impacto limitado, uma vez que incidem sobretudo sobre medicamentos patenteados e existem exceções para vários grandes produtores.

Apesar do contexto de curto prazo, as perspetivas estruturais para o setor mantêm-se favoráveis. O envelhecimento da população, o aumento da prevalência de doenças crónicas e a procura por medicamentos especializados e genéricos continuarão a sustentar a procura no médio e longo prazo. A seguradora sublinha ainda que a indústria farmacêutica e biotecnológica mantém, em geral, bom acesso a financiamento externo, o que permite suportar elevados custos de investigação e desenvolvimento.

Ainda assim, o setor enfrenta desafios relevantes. Entre eles está a expiração de um conjunto significativo de patentes até 2030, com impacto potencial na produção e nas margens de várias empresas, bem como a pressão dos governos para controlar ou reduzir despesas de saúde. A Crédito y Caución antecipa ainda que a inteligência artificial venha a contribuir para ganhos de produtividade nos próximos anos, sobretudo na fase pré-clínica e na I&D da cadeia de produção.

Na Europa, o relatório identifica uma perda gradual de competitividade face aos Estados Unidos e à China, motivada por tempos mais longos na preparação de ensaios clínicos, enquadramentos regulatórios e de financiamento menos favoráveis e bases de doentes mais reduzidas. Ainda que a região mantenha unidades produtivas consolidadas, cadeias de abastecimento seguras e elevados padrões de qualidade, a Crédito y Caución prevê que o crescimento anual composto do investimento farmacêutico entre 2025 e 2030 seja de 2,2% na UE e Reino Unido, abaixo dos 3% dos Estados Unidos e dos 4,5% da China.