União Europeia importa quase dois mil milhões de pares de calçado por ano, gerando mais de 1,2 milhões de toneladas de potenciais resíduos. Circularidade e procurement entram no centro do debate.
A União Europeia importa anualmente cerca de 1,98 mil milhões de pares de calçado, o equivalente a 1,22 milhões de toneladas de potenciais resíduos caso estes produtos acabem por ter como destino final os aterros, considerando um peso médio de 616 gramas por par. Os dados, avançados pela Confederação Europeia da Indústria do Calçado (CEC), foram apresentados em Bruxelas, durante a conferência “Bioeconomy in Motion: How Portugal is Shaping Europe’s Sustainable Future”, promovida pela APICCAPS, a associação portuguesa dos industriais do calçado, no âmbito do projeto BioShoes4All.
A dimensão do problema surge num momento em que a União Europeia está a reforçar as exigências ambientais aplicáveis à moda e ao calçado, incentivando a durabilidade dos produtos, a reciclagem de materiais, a redução do desperdício e uma maior responsabilização ao longo da cadeia de valor. A CEC defende que os números demonstram a urgência de desenvolver soluções que permitam prolongar o ciclo de vida dos produtos e aumentar a incorporação de materiais sustentáveis, apontando a circularidade como um dos fatores que poderá determinar a competitividade do setor nos próximos anos.
Na conferência, o setor português do calçado foi apresentado como um exemplo de resposta europeia aos desafios da sustentabilidade, da inovação e da reindustrialização. Valdis Dombrovskis, comissário europeu para a Economia e Produtividade, que coordena o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), considerou que a indústria portuguesa do calçado demonstra como a Europa pode competir nos mercados internacionais “não por ser a mais barata, mas por ser melhor e mais fiável”.
Numa mensagem transmitida por Arnolds Eizensmits, membro do gabinete do comissário responsável por Portugal, Dombrovskis sublinhou que o setor reúne trabalhadores qualificados, empresas familiares, exportadores, designers, centros tecnológicos, investigadores e fornecedores, destacando a sua capacidade de adaptação às novas exigências dos mercados globais. O responsável europeu destacou ainda o papel do BioShoes4All, considerando que o projeto apoia áreas diretamente ligadas à competitividade futura, como os biomateriais, a eficiência dos recursos, as ferramentas digitais, a valorização de resíduos e a ligação entre investigação e indústria. “Este é o tipo de investimento de que a Europa precisa”, afirmou.
Para Luís Onofre, presidente da APICCAPS, “o modelo atual europeu não é sustentável”. O responsável defendeu que a indústria portuguesa do calçado tem procurado posicionar-se na linha da frente desta transformação através da inovação, da reutilização de resíduos, do desenvolvimento de biomateriais e de processos produtivos mais eficientes.
Perante representantes das instituições europeias, decisores políticos, empresários e investigadores, a APICCAPS e o Centro Tecnológico do Calçado de Portugal apresentaram os resultados de um processo de transformação que mobilizou mais de 70 milhões de euros de investimento nos últimos anos, grande parte apoiado pelo PRR. “Enquanto muitos discutem o futuro, nós escolhemos construí-lo”, afirmou Luís Onofre, acrescentando que “a Europa fala de reindustrialização. Portugal está a fazê-la acontecer”.
BioShoes4All junta 70 parceiros
O BioShoes4All é um dos maiores projetos colaborativos desenvolvidos pela indústria portuguesa do calçado, reunindo empresas, centros tecnológicos, universidades e marcas em torno do desenvolvimento de soluções para um calçado, nas palavras de Luís Onofre, “mais sustentável, mais inteligente, mais transparente e mais europeu”.
De acordo com Maria José Ferreira, coordenadora do projeto, o BioShoes4All envolve cerca de 70 parceiros e está estruturado em cinco pilares estratégicos: biomateriais, calçado ecológico, economia circular, tecnologias avançadas de produção, e capacitação e promoção. Ao longo dos últimos anos, o projeto permitiu desenvolver novos produtos, biomateriais, soluções de reciclagem, processos produtivos mais eficientes e ferramentas digitais orientadas para a redução do impacto ambiental da indústria.
Num contexto em que a União Europeia procura reduzir dependências externas, reforçar cadeias de valor estratégicas e recuperar capacidade industrial, a experiência portuguesa foi apresentada como um exemplo concreto de como a indústria pode contribuir para a competitividade, a inovação, o emprego qualificado e a autonomia estratégica europeia.


