No terceiro artigo da série “O lado menos óbvio do Procurement”, a especialista em compras Juliana José questiona um pressuposto que poucos se atrevem a pôr em causa: terá o excesso de dados deixado as equipas mais informadas, ou apenas mais inseguras para decidir?

O Procurement nunca teve tanto acesso a informação como hoje. É indiscutível. Dashboards, KPI, relatórios em tempo real, sistemas integrados — a visibilidade é maior do que nunca. E, teoricamente, isso deveria traduzir-se em melhores decisões.

Mas a realidade é mais complexa.

Cada vez mais, o que observo não é falta de informação, é excesso dela. Mais dados não significam, automaticamente, mais clareza. Muitas vezes significam o contrário: mais dúvida, mais análise, mais hesitação. E, em tantas em situações, necessidade de validação das fontes de informação. Equipas inteiras ficam presas na procura de validação adicional. Mais um indicador. Mais um cruzamento de dados. Mais um nível de detalhe. E, entretanto, a decisão fica em espera.

Instala-se um fenómeno subtil: a análise substitui a decisão. E isso acontece porque confundimos conceitos que não são equivalentes: informação, conhecimento e decisão.

Ter dados não significa compreender. Compreender não significa decidir. Decidir implica algo que nenhum dashboard consegue substituir: julgamento. Sensibilidade para o negócio, na perspetiva de todos os players. A capacidade de interpretar contexto, priorizar o que é relevante e agir, mesmo com informação imperfeita.

Num ambiente cada vez mais complexo, a tentação de “esperar por mais dados” é forte. Mas, muitas vezes, essa espera não acrescenta valor, apenas adia o inevitável. Com o tempo, tornou-se claro para mim que o verdadeiro desafio do Procurement não está em obter informação. Está em saber quando parar de a analisar. Porque, no final, o valor não está na quantidade de dados disponíveis, está na capacidade de tomar decisões com base neles. E isso exige clareza, não volume.

E, por isso, questiono(-me): estamos a usar os dados para decidir melhor… ou para evitar decidir?

Juliana José, Especialista de Compras