O setor português do calçado vai apresentar em Bruxelas, no próximo dia 16 de junho, um modelo de reindustrialização assente na inovação, sustentabilidade e produção de proximidade. A iniciativa, promovida pela APICCAPS e pelo Centro Tecnológico do Calçado de Portugal, pretende reforçar a ideia de que a competitividade e a resiliência da Europa passam também pela recuperação de capacidade produtiva e pelo reforço das cadeias de valor industriais.
A sessão decorrerá na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia, em Bruxelas, com o apoio da REPER e da CEC – Confederação da Indústria Europeia de Calçado. O encontro deverá reunir mais de 100 personalidades europeias, entre eurodeputados, responsáveis institucionais, empresários e parceiros do setor, para debater o futuro da indústria europeia num contexto marcado por transformações geopolíticas, económicas e ambientais.
Num mercado global em que são produzidos mais de 24 mil milhões de pares de calçado por ano, cerca de 88% dos quais com origem na Ásia, a Europa enfrenta o desafio de recuperar capacidade industrial, reduzir dependências externas e tornar as suas cadeias de valor mais resilientes. É neste contexto que o setor português do calçado se apresenta como caso de estudo.
Nas últimas décadas, a indústria nacional construiu uma posição de referência internacional baseada na qualidade, no conhecimento, no design e na inovação tecnológica. Agora, pretende demonstrar que continua a ser possível produzir na Europa, criar valor e competir à escala global.
“É possível fabricar calçado de excelência na Europa, de forma sustentável, inovadora e economicamente viável”, afirma Luís Onofre, presidente da APICCAPS. “Acreditamos que a indústria tem um papel central no futuro do projeto europeu e queremos contribuir ativamente para essa reflexão.”
Nos últimos três anos, o setor concretizou o maior investimento coletivo da sua história, mobilizando mais de 100 milhões de euros ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência. O objetivo passou por preparar a indústria para uma nova geração de desafios, acelerando a transição digital e ambiental.
Entre os projetos mais relevantes está o BioShoes4All, uma iniciativa de cerca de 70 milhões de euros que envolveu mais de 60 parceiros, entre empresas, universidades e centros tecnológicos. O projeto tem vindo a trabalhar a transformação da cadeia de valor do calçado através do desenvolvimento de biomateriais, da digitalização dos processos produtivos, da valorização de resíduos e da promoção de modelos de economia circular.
Para Luís Onofre, o debate sobre a indústria europeia deixou de ser apenas económico e passou a ser estratégico. “Continuamos a acreditar no futuro da produção industrial na Europa. Mas a reindustrialização exige uma visão clara, políticas consistentes e condições de concorrência justas à escala global”, defende.
A sessão de Bruxelas pretende reforçar precisamente essa mensagem: a Europa precisa de uma política industrial mais ambiciosa, capaz de valorizar a produção local, estimular a inovação e construir cadeias de valor mais sustentáveis, competitivas e resilientes. O setor português do calçado quer posicionar-se na linha da frente dessa transformação.


