A pressão climática, a volatilidade geopolítica, as mudanças nas políticas comerciais e a instabilidade dos custos de energia estão a obrigar as empresas alimentares a repensar a forma como compram. Num relatório dedicado ao futuro do procurement alimentar, o World Economic Forum defende que a função de compras já não pode limitar-se ao equilíbrio tradicional entre custo, qualidade e disponibilidade. Num sistema cada vez mais exposto a ruturas, garantir o abastecimento passa também por comprar de forma mais resiliente, sustentável e alinhada com os riscos futuros.
Durante décadas, os sistemas alimentares globais foram desenhados para operar num contexto de relativa estabilidade climática, previsibilidade de custos e crescimento consistente da procura. Esse enquadramento mudou. Segundo o World Economic Forum, os sistemas alimentares representam cerca de 10% do PIB global e asseguram aproximadamente 40% dos empregos a nível mundial, mas estão hoje sob pressão crescente devido a fenómenos meteorológicos extremos, escassez de água, tensões comerciais e conflitos geopolíticos.
Neste contexto, a função de compras ganha uma nova centralidade. O white paper CEO Lessons for the Future of Food Procurement, desenvolvido no âmbito da First Movers Coalition for Food, defende que as escolhas feitas pelas empresas sobre o que compram e como compram serão determinantes para a capacidade de adaptação e resiliência dos sistemas alimentares. A mensagem é clara: o procurement deixou de ser apenas uma função operacional ou transacional e passa a ser uma ferramenta estratégica para gerir risco, assegurar continuidade de fornecimento, acelerar a descarbonização e criar valor para empresas, fornecedores e produtores.
O fim do playbook tradicional
O relatório sustenta que o modelo tradicional de procurement, centrado na gestão de trade-offs entre preço, qualidade e disponibilidade, pode já não ser suficiente para garantir fornecimentos fiáveis e acessíveis. A dependência de um conjunto reduzido de culturas agrícolas, de mercados concentrados de inputs e de algumas regiões produtoras críticas aumenta a exposição das cadeias alimentares a choques externos. Ao mesmo tempo, o aquecimento global e os eventos climáticos extremos estão a afetar produtividades, a alterar zonas de produção e a aumentar a volatilidade de ano para ano.
Perante este cenário, o World Economic Forum propõe uma visão mais alargada para o procurement alimentar, capaz de manter as prioridades económicas (custo, qualidade e disponibilidade), mas integrando também continuidade de abastecimento, sustentabilidade e resiliência sistémica. A mudança passa por maturidade no sourcing, maior colaboração com fornecedores, incorporação de critérios ambientais nos contratos e maior alinhamento entre procurement, sustentabilidade, finanças e liderança executiva.
Entre as abordagens identificadas está a criação de programas de sourcing resiliente que comecem em projetos-piloto, mas tenham capacidade de ganhar escala. O relatório sublinha que os benefícios comerciais e ambientais têm de se reforçar mutuamente para que estes modelos sejam viáveis a longo prazo, sem depender exclusivamente de prémios pagos pelo consumidor. Um dos exemplos referidos é o programa SustainConnect, da Cargill, que prevê incentivos financeiros diretos a agricultores australianos que adotem práticas regenerativas, com compensação baseada na área inscrita e na implementação verificada dessas práticas.
Outro caso citado é o da DFI Retail Group, que lançou um programa de cinco anos para aumentar a disponibilidade de arroz de baixas emissões nos mercados de Hong Kong e Macau. A iniciativa inclui práticas agrícolas climaticamente inteligentes, como irrigação alternada, melhor gestão do solo e eliminação da queima de palha. De acordo com o relatório, o programa permitiu aumentar as vendas em loja em 25%, reduzir emissões de âmbito 3 e apoiar agricultores na adoção de práticas mais sustentáveis, sem prémio de custo nem aumento do preço ao consumidor.
Sourcing, rastreabilidade e parcerias ganham peso
O documento identifica ainda dois caminhos possíveis para escalar práticas de sourcing mais resilientes. O primeiro é o sourcing ancorado em especificações, que integra critérios de sustentabilidade nas especificações de compra, nos contratos e na avaliação de fornecedores, normalmente acompanhado por maior colaboração e verificação. O segundo é o sourcing desacoplado, em que os investimentos em sustentabilidade são feitos nas mesmas regiões de abastecimento das empresas, mas separados da compra direta da commodity ou das suas especificações comerciais.
A escolha entre estes modelos depende, em grande medida, do nível de dependência face aos fornecedores. Quando há poucos fornecedores capazes de cumprir requisitos de preço, qualidade e disponibilidade, como acontece em alguns produtos perecíveis ou em regiões produtivas altamente concentradas, a prioridade tende a ser reforçar a robustez no terreno. Já em commodities com maior diversidade de origens e bases de fornecimento mais amplas, a flexibilidade de sourcing pode assumir maior relevância.
A rastreabilidade surge também como elemento crítico. No caso da JBS, o relatório refere um investimento superior a sete milhões de dólares em rastreabilidade de gado e apoio a pequenos produtores na Amazónia brasileira, incluindo a disponibilização de dois milhões de brincos de identificação animal. O objetivo é reforçar a ligação entre animais e explorações registadas, reduzindo o risco de compra de gado associado à desflorestação.
Já a Nestlé é apontada pelo World Economic Forum como exemplo de uma abordagem de longo prazo através de um projeto de agrofloresta no cacau, na Costa do Marfim, envolvendo cerca de 11.500 hectares e 6.000 agricultores. A parceria deverá reduzir ou remover até 1,3 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente ao longo de 25 anos, contribuindo também para a resiliência dos produtores e para a redução da pegada de âmbito 3 das empresas envolvidas.
O relatório insiste que esta transformação não pode ficar circunscrita ao departamento de compras. Para ganhar escala, o procurement alimentar terá de trabalhar de forma mais integrada com sustentabilidade, finanças, operações e liderança executiva. Externamente, será igualmente necessária uma maior colaboração entre empresas, fornecedores, agricultores, financiadores e outros atores da cadeia de valor. O exemplo da Fonterra, em colaboração com a Nestlé e a Mars, é referido como modelo de incentivo à produção leiteira de baixas emissões através de recompensas financeiras aos produtores.
Para o World Economic Forum, as empresas que avançarem mais cedo poderão garantir melhor acesso a abastecimentos futuros, fortalecer relações com fornecedores e influenciar a evolução dos sistemas alimentares para modelos mais resilientes. A conclusão é que comprar melhor deixou de ser apenas uma questão de eficiência. No setor alimentar, pode tornar-se uma condição para continuar a comprar.
FOTOGRAFIA: Montagem gerada com recurso a IA


