A 4.ª edição das “Efficio Kitchen Talks” juntou em Lisboa, na “cozinha” da Efficio, profissionais de procurement e supply chain para discutir os desafios específicos do setor da saúde. Numa conversa com Pedro Lima, da Luz Saúde e GLSMED, e Daniel Peck e Melissa Leonard, da Efficio, a eficiência foi discutida para lá da poupança imediata. É que comprar melhor, neste contexto, é também garantir continuidade operacional, alinhar stakeholders e perceber o impacto real de cada decisão na cadeia de valor da saúde.
A saúde é um setor onde a palavra eficiência raramente pode ser lida de forma isolada. Reduzir custos continua a ser uma prioridade, mas a discussão promovida pela Efficio, na 4.ª edição dos Kitchen Talks, deixou claro que, no procurement aplicado aos prestadores de cuidados de saúde, a poupança só cria valor quando não compromete resultados clínicos, disponibilidade de produto e capacidade de resposta operacional.
A sessão, realizada na sede da consultora, em Lisboa, decorreu sob o tema “How Healthcare providers can unlock savings and efficiency” e contou com Pedro Lima, Group Director Supply Chain & Operations Support na Luz Saúde e Board Member & CEO da GLSMED, bem como com Daniel Peck e Melissa Leonard, da consultora. O encontro teve como ponto de partida os desafios enfrentados pelos prestadores de cuidados de saúde num contexto de pressão sobre custos, maior complexidade nas cadeias de abastecimento e necessidade de melhorar a articulação entre áreas clínicas, operacionais, financeiras e de procurement.
Uma das ideias centrais da discussão foi a de que o valor em procurement na saúde resulta de um equilíbrio particularmente exigente. Não se trata apenas de obter o melhor preço, mas de gerir uma relação entre custo, resultados clínicos e continuidade de negócio. Uma decisão de compra aparentemente bem-sucedida pode perder valor se gerar ruturas, limitar a capacidade de resposta dos hospitais ou obrigar a compensações operacionais mais caras do que a poupança inicialmente obtida.
Este ponto torna-se especialmente relevante em categorias críticas ou de utilização recorrente, onde pequenos consumíveis podem ter um impacto desproporcional na operação. O caso das luvas de nitrilo, hoje pressionado por fatores geopolíticos, matérias-primas e alterações nas cadeias globais de fornecimento, foi referido por Pedro Lima como um exemplo de como a visibilidade sobre o mercado e a relação com fornecedores podem fazer a diferença entre antecipar um problema ou reagir já em contexto de escassez. [Ler também: Das rotas do petróleo às luvas hospitalares: a crise que quase ninguém está a ver]
Para a Efficio, o desafio passa também por reposicionar o procurement dentro das organizações de saúde. As ferramentas tradicionais como negociar, analisar custos, consolidar volumes, rever especificações, continuam a ser relevantes, mas tornam-se insuficientes se forem aplicadas sem uma compreensão profunda do contexto clínico e operacional. A discussão sublinhou a importância de ouvir primeiro, perceber onde está o problema e evitar que o procurement seja visto apenas como a área que chega com metas de redução de custos, desligadas da realidade dos serviços.
Nesse sentido, a segmentação das categorias ganha especial importância. Nem todos os produtos e serviços têm o mesmo impacto na cadeia de valor da saúde. Há dispositivos médicos diretamente ligados ao resultado clínico, consumíveis com potencial de standardização, serviços internos com impacto operacional e categorias onde a inovação pode alterar a forma como o cuidado é prestado. Perceber essa diferença é essencial para decidir onde negociar preço, onde redesenhar especificações, onde envolver equipas clínicas e onde aceitar um custo superior se o valor gerado justificar a decisão.
Comprar à escala, adaptar à realidade
Outro eixo forte da conversa foi a colaboração. Os modelos de compra em grupo, a agregação de procura e a centralização de procurement foram debatidos como formas de ganhar escala, mas também como mecanismos que exigem governance, alinhamento e capacidade de execução. No caso apresentado por Pedro Lima, a experiência da Luz Saúde e da GLSMED mostrou como a escala pode permitir ir além da compra no mercado local, criando capacidade para procurar diretamente junto de fabricantes, em diferentes geografias, e adaptar produtos às necessidades reais dos hospitais.
Esse trabalho de adaptação pode passar por decisões aparentemente simples, mas com impacto expressivo quando aplicadas a produtos de utilização recorrente. Pedro Lima deu o exemplo das batas utilizadas em exames de raio-X: ao observar a utilização real do produto, a Luz Saúde percebeu que as batas podiam ser mais curtas e dispensar mangas, sem comprometer a privacidade ou a funcionalidade, necessárias ao exame. A alteração permitiu reduzir material, ajustar o produto ao uso efetivo e produzir um efeito financeiro significativo precisamente por se tratar de um produto repetido milhares de vezes na operação hospitalar. O exemplo ilustra como o procurement pode criar valor quando deixa de comprar apenas “o que existe no mercado” e passa a questionar se esse produto corresponde, de facto, à necessidade operacional.
A conversa deixou também claro que estes modelos são difíceis de implementar, sobretudo num setor onde coexistem múltiplos decisores, exigências clínicas, especificações técnicas e enquadramentos regulatórios. Agregar compras ou standardizar produtos pode fazer sentido do ponto de vista económico, mas exige capacidade para envolver equipas clínicas, validar requisitos, gerir resistências e garantir que a eficiência não compromete a qualidade do serviço prestado.
A inovação foi outro dos temas abordados. Num setor em rápida transformação, a capacidade dos sistemas de saúde para identificar, testar e escalar novas soluções será cada vez mais determinante. Mas comprar inovação exige métodos diferentes dos usados na aquisição de produtos standard. Implica avaliar benefícios clínicos, impacto operacional, risco, retorno no tempo e capacidade de implementação. Em muitos casos, o desafio não está apenas em encontrar uma nova solução, mas em criar condições para a integrar de forma segura e escalável dentro da organização.
A discussão tocou ainda a relação entre procurement e stakeholders internos. Num hospital, uma decisão de compra raramente é apenas uma decisão de procurement. Envolve médicos, equipas de enfermagem, operações, finanças, qualidade, logística e, em última instância, os próprios doentes. Por isso, a criação de valor depende da capacidade de construir consensos, traduzir dados em decisões úteis e aproximar a função de compra do utilizador final.
A pandemia e os choques sucessivos nas cadeias de abastecimento contribuíram para dar maior visibilidade ao papel da supply chain e do procurement. O encontro apontou, contudo, para a necessidade de transformar essa visibilidade em capacidade de decisão. Mapear riscos, conhecer fornecedores e antecipar constrangimentos só cria resiliência se a organização tiver mandato, processos e agilidade para agir quando o problema surge.
Mais do que uma discussão sobre compras, a 4.ª edição das Efficio Kitchen Talks acabou por colocar em evidência uma mudança de estatuto do procurement na saúde. Num ambiente em que a pressão sobre custos continuará elevada, mas onde a continuidade assistencial não pode ser comprometida, comprar melhor significa decidir melhor. E o formato, bem como a cozinha da Efficio, ajudaram a dar esse tom. Como tantas conversas que acontecem nas cozinhas das nossas casas, também esta juntou temas sérios, exemplos concretos e uma proximidade que favoreceu a abertura e a franqueza. Porque, na saúde, a eficiência não se decide apenas nas folhas de cálculo; decide-se também na capacidade de ouvir quem está na operação, perceber o que realmente faz falta e garantir que o hospital não para.


