Um relatório da Roland Berger antecipa maior pressão sobre a indústria transformadora, com a população em idade ativa a cair 18% na Europa e 24% na China até 2050. A automação avança, mas a fábrica totalmente autónoma ainda enfrenta bloqueios técnicos e operacionais.

A escassez estrutural de mão-de-obra está a acelerar a transição da indústria transformadora para modelos de produção altamente automatizados, capazes de operar com intervenção humana reduzida ou, em alguns casos, praticamente inexistente. A conclusão é do relatório “The lights-out factory – How to address the challenge of labor scarcity”, da Roland Berger, que aponta a demografia como um dos principais fatores de pressão sobre o futuro industrial.

De acordo com a consultora, a população em idade ativa deverá cair cerca de 18% na Europa até 2050, enquanto na China a redução poderá atingir os 24%. Esta evolução coloca uma pressão crescente sobre os fabricantes, num contexto em que a falta de talento dificilmente será compensada por ciclos económicos mais favoráveis. A resposta passa, cada vez mais, pela automação de processos produtivos e pela criação das chamadas lights-out factories, unidades capazes de funcionar sem presença humana permanente.

A viabilidade económica desta transição tem vindo também a melhorar. Segundo o relatório, o custo dos robôs industriais caiu mais de 50% desde 1990, enquanto o mercado de automação industrial cresce a um ritmo médio anual de 6% desde 2015. A previsão é que este crescimento acelere para cerca de 7% ao ano nos próximos anos.

“Embora a tecnologia esteja a avançar rapidamente, a produção totalmente autónoma ainda enfrenta desafios que não serão resolvidos a curto prazo, especialmente em funções de suporte e processos de montagem complexos. Neste contexto, a transição para fábricas sem intervenção humana requer um progresso contínuo e gradual através da automatização de processos específicos que são dispendiosos ou requerem muita mão-de-obra”, explica Pol Busquets, sócio responsável pelo setor Industrial da Roland Berger para os mercados da Península Ibérica.

Apesar dos avanços em robótica, visão computacional e inteligência artificial, a Roland Berger identifica a montagem como o principal obstáculo à automação integral. A variabilidade dos produtos e a necessidade de manipular componentes flexíveis, como cabos ou tubos, continuam a limitar a aplicação de soluções robóticas tradicionais e mesmo de sistemas mais avançados baseados em IA.

O relatório sublinha ainda que muitas funções de suporte e back-office permanecem dependentes de intervenção humana. A fragmentação dos sistemas, a baixa qualidade dos dados e a ausência de fluxos digitais contínuos obrigam frequentemente a reconciliações manuais, reduzindo o potencial da automação.

Para a consultora, a tecnologia não substitui os fundamentos operacionais. A automação eficaz exige processos estáveis, dados fiáveis e operações bem controladas. Sem esta base, a adoção de novas soluções tende a gerar ganhos limitados ou difíceis de escalar.

Automatizar por etapas antes de apagar as luzes

Embora as fábricas totalmente autónomas ainda não sejam a norma, o relatório aponta exemplos que mostram o caminho possível. Entre eles está o processo industrial de um fabricante alemão do setor aeroespacial, já capaz de operar até 66 horas consecutivas de forma autónoma, e uma fábrica chinesa de smartphones altamente automatizada, com produção anual próxima dos 10 milhões de unidades e automação total em processos-chave.

Ainda assim, estes casos continuam a ser exceções. Para acelerar a transformação, a Roland Berger identifica três alavancas estratégicas: estabilizar processos, fechar lacunas em sistemas e dados, e desenhar produtos e processos já a pensar na automação. Esta abordagem permite às empresas avançarem de forma progressiva, priorizando casos de uso com maior retorno económico.

O caminho para as “lights-out factories” não será igual para todos os perfis industriais. Fabricantes de componentes, produtores em massa e operações de elevada variabilidade enfrentam desafios distintos e deverão, por isso, definir prioridades diferentes.

A conclusão do relatório é que a fábrica totalmente autónoma não surgirá de forma abrupta. Antes do verdadeiro modelo lights-out, a indústria deverá passar por uma fase intermédia, automatizando etapas específicas e construindo gradualmente as condições para uma autonomia mais ampla.

Num contexto de escassez crescente de mão-de-obra, custos de produção elevados e pressão competitiva global, as empresas que iniciarem agora esta transição poderão estar melhor posicionadas para capturar ganhos de produtividade e reforçar a resiliência das suas operações a longo prazo.