A energia tornou-se num fator operacional crítico na cadeia de frio, sobretudo com o avanço da automação e da eletrificação das frotas. Neste artigo de opinião, Luís Pereira de Almeida, general manager da GreenYellow Portugal, explora como a integração de soluções de eficiência, armazenamento e novos modelos de serviço se apresenta como uma alavanca estratégica para transformar o desafio energético numa vantagem competitiva.

A logística de frio vive hoje sob uma tripla pressão: de serviço, custo e risco. Os armazéns e centros de distribuição exigem climatização, automação de forma contínua e iluminação; e, nas instalações refrigeradas, esse consumo sobe de patamar. A refrigeração e os ambientes com controlo de temperatura não são apenas mais uma utilização elétrica: são o coração da operação. Num setor que opera muitas vezes 24/7/365, a energia deixou de ser um custo inevitável para se tornar um fator operacional crítico.

Este desafio acentua-se com a evolução do próprio modelo logístico: a crescente utilização de robótica e automação aumenta a intensidade elétrica das instalações. Em paralelo, a simultaneidade de operações – cargas e descargas em docas, movimentação interna, preparação de encomendas, funcionamento de linhas automáticas e controlo de temperatura por zonas – gera picos de consumo. Importa aqui clarificar um ponto: o impacto não se mede apenas em quilowatts-hora. Os picos de consumo podem traduzir-se em custos associados à potência, numa maior complexidade de gestão e, em alguns casos, até na necessidade de reforçar a infraestrutura elétrica. Quando a procura energética varia de forma brusca, a previsibilidade, essencial para planear custos e garantir continuidade operacional, fica comprometida.

A eletrificação das frotas acrescenta mais uma camada ao cenário. A transição para veículos elétricos é um passo natural na descarbonização do setor, mas exige mais do que instalar carregadores. É necessária capacidade de rede, planeamento de carga e gestão inteligente para evitar criar novos picos, precisamente nas horas de maior atividade. Sem coordenação entre operação e energia, uma medida positiva do ponto de vista ambiental pode tornar-se um problema de custos ou de fiabilidade.

Energia como alavanca de eficiência e resiliência

Perante este cenário, há um conjunto de alavancas decisivas. A primeira é a produção renovável no local. Em muitos centros logísticos, a área de cobertura disponível e a estabilidade do consumo tornam a energia solar uma opção especialmente racional: reduz exposição à volatilidade do mercado e aumenta a autonomia. Contudo, a energia solar por si só não resolve tudo, porque a operação não consome energia apenas quando há sol. É por isso que o armazenamento em baterias tem um papel cada vez mais estratégico: não apenas para poupar, mas para gerir. As baterias permitem suavizar picos, melhorar o perfil de carga, aumentar a previsibilidade e criar um amortecedor operacional que ajuda a proteger a atividade em momentos de maior pressão energética.

A segunda alavanca é a eficiência energética, que deve ser entendida não como uma intervenção pontual, mas como uma ‘disciplina’ permanente. Na cadeia de frio, pequenas ineficiências têm grande impacto: equipamentos desajustados, setpoints inadequados, manutenção reativa, perdas em portas e docas ou controlo deficiente podem degradar rapidamente o desempenho. Por isso, medidas como a melhoria de sistemas de climatização e refrigeração, a automação e monitorização avançada ou a otimização da iluminação só atingem o seu potencial quando acompanhadas por uma gestão contínua do desempenho: medir, comparar, ajustar e manter ao longo do tempo. O objetivo não é apenas utilizar menos energia, mas sim utilizá-la de forma medida, controlada e alinhada com as necessidades reais da operação.

Para acelerar estas mudanças sem comprometer o capital que deve permanecer no core do negócio, modelos como o ‘Energy-as-a-Service’ (energia como serviço) tornam-se particularmente relevantes. Ao viabilizar modernizações com menores barreiras de investimento inicial, este modelo permite avançar mais depressa, reduzir tempo até ao impacto e integrar compromissos de desempenho e acompanhamento contínuo, essenciais num ambiente onde a operação não pode parar.

A terceira alavanca, e frequentemente a mais determinante na relação com o mercado, é a descarbonização com foco end-to-end. Reduzir emissões associadas à eletricidade (Âmbito 2) é uma parte do caminho, mas não chega. Os grandes players industriais e do retalho estão a aumentar a exigência sobre as emissões de Âmbito 3, o que significa que os operadores logísticos começam a ser pressionados para reduzir e reportar emissões ao longo da cadeia de valor. Neste contexto, energia e carbono passam a influenciar conformidade, auditorias, seleção de fornecedores e manutenção de contratos.

Por fim, importa a resiliência. Num mundo com maior variabilidade climática e maior pressão sobre recursos, constrangimentos como a disponibilidade de água em sistemas de arrefecimento/condensação podem influenciar as escolhas de infraestrutura e os custos futuros. Antecipar estes riscos é parte da gestão moderna da cadeia de frio.

Perante tudo isto, a gestão estratégica da energia deixou de ser um tema de redução de custos para se tornar um verdadeiro fator de competitividade. Quem conseguir combinar eficiência contínua, produção local, armazenamento, eletrificação inteligente e descarbonização total estará melhor posicionado para proteger margens, garantir serviço e cumprir as novas exigências de clientes e reguladores. Quando bem gerida, a energia torna-se uma vantagem tangível e, cada vez mais, um motor de resiliência.

Luís Pereira de Almeida, General Manager | GreenYellow Portugal