A pandemia de Covid-19 trouxe ao léxico uma nova expressão – o novo normal. Seis anos volvidos, a SCM Conference mostrou à evidência como essa expressão tem toda a razão de ser. E até se pode retirar o “novo” da equação: porque o normal é viver num equilíbrio instável entre o caos e o controlo. Obrigando a supply chain e todos os seus elos a um exercício permanente de adaptação que inevitavelmente será transformador dos processos e das organizações, e, claro, das relações comerciais globais.

Como consequência, a suppy chain deixou de ser do foro exclusivo das equipas de operações e passou a sentar-se à mesa com as lideranças. Porque o que está em causa é demasiado relevante para ficar fora da agenda dos CEO, como partilharam, no primeiro dia da conferência, Andrea Nunes, administradora da Wellow Network; Miguel Pinto, country head Portugal, da Aumovio; e Mauro Cardoso, general manager da Monliz; numa conversa guiada por Joaquim Oliveira, partner da BOSC – Business of Supply Chain.

A mudança é estrutural, obrigando, desde logo, a uma nova mentalidade: em vez de controlo sobre processos, fornecedores, rotas, as decisões tomam-se num equilíbrio instável ditado pelo caos geopolítico. O planeamento já não é o porto seguro dos decisores – ele existe e é necessário, mas como referência, não como uma cartilha que se segue à risca. O determinismo desses planos teve de ceder lugar a uma dose de improviso e adaptação, como atestaram os participantes no debate sobre o tema que deu o mote para esta conferência – “Entre o caos e o controlo: a nova supply chain”. Com moderação de Pedro Pinto Barros, da PwC, foi nesta leitura que convergiram Susana Pinho, logistics director da Altri; Nuno Jacinto, head of food service distribution da Makro; Pedro Camilo, logistics service manager da Lactogal; e Daniel Baptista, senior business developer & pre sales da Cegid.

Mas, em que medida as cadeias de abastecimento globais e as locais vivem o mesmo paradigma? Será a escala o fator decisivo na tomada de decisão ou serão a especificidades de cada uma das cadeias a ditar as soluções? Nuno Sousa Santos, supply chain & business enablement manager Asia Pacific & Japan da AMGEN, e Maria Joana Viana, area manager – transport commercial & eficiency da Sonae MC, foram convocados a responder a estas e outras questões no segundo dia da conferência. O debate, intitulado precisamente “Local vs Global Supply Chains – Diferentes na escala, iguais nas soluções?” já partia de uma interrogação, com os dois oradores a refletirem a partir das respetivas experiências, mas também do olhar da audiência, solicitada a participar num questionário interativo em tempo real.

E o que se evidenciou foi que a dimensão aporta, naturalmente, complexidade, mas, mais do que a escala, o setor de atividade é determinante. Se, no retalho, o custo e a eficiência estão em primeiro lugar quando se trata de agir perante uma disrupção, já na indústria farmacêutica é crucial assegurar a continuidade do serviço. E, se no retalho, as pessoas e a capacidade de improviso são determinantes em contexto de crise, na indústria farmacêutica os processos e a preparação são o garante da operação.

Diferentes, pois, na realidade, mas convergentes na navegação em tempos de incerteza. Afinal, este é um mundo fragmentado, em que as escolhas têm de ser cada vez mais estratégicas, escolhas, essas, que vão além das cadeias de abastecimento. A própria Europa, enquanto bloco geopolítico e comercial, está perante um momento de decisivo, como mostrou o keynote speaker desta conferência: Cristian Ferreyra, council of supply chain management professionals da Spain Roudtable, abordou a vulnerabilidade estratégica do continente, num contento de dependência de matérias-primas, de energia e, mesmo, de modelos de inteligência artificial.

Também Tiago Devesa, senior fellow do McKinsey Global Institute, advogou que a Europa precisa de assumir um novo papel no xadrez do comércio global, em que as peças são movimentadas pelos incidentes geopolíticos. Levou à SCM Conference os dados mais recentes sobre os fluxos comerciais, desconstruídos algumas perceções, nomeadamente a de que a instabilidade está a fomentar a desglobalização. Não há dados que apontem nesse sentido, o que há, sim, é uma oportunidade para a Europa rever a sua estratégia, mitigando as suas vulnerabilidades na relação com a China e os Estados Unidos.

E, se a transformação é a palavra de ordem neste (novo) normal, não sobram dúvidas de que as cadeias de abastecimento têm de ser mais inteligentes, mais rápidas e mais conectadas. Uma dialética de que as empresas não se podem abstrair – antes pelo contrário, como testemunharam os vários casos concretos que passaram pelo palco da conferência. Desafiados por João Queirós, senior manager supply chain & operations da EY, John Callan e António Guedes, respetivamente business development Iberia e business consultant, mostraram como a CodeOne está a contribuir para a transformação organizacional; Fábio Santos, national business development manager da Modula, partilhou as soluções e as decisões que a empresa aplica no terreno. E soluções concretas – direcionadas à otimização do espaço no transporte de carga – foi também o que apresentaram Torben Lund, CEO da SpaceInvader, e Pedro Ferreira Queimado, fundador da Kronolog, enquanto Carlos Oliveira, chief technology officer da Netcapital Systems, exemplificou como a tecnologia se pode converter numa ferramenta de poupança e mitigação de custos.

De uma forma ou de outra, o que está em causa é a integração – de dados, de processos, de sistemas. Mas, em que medida integração é sinónimo de colaboração? E se a colaboração é um caminho inevitável, quem ganha com estes novos modelos? Embora identificando limites para a integração, a mesa-redonda sobre o tema resultou na conclusão de que toda a supply chain tem a ganhar com os modelos colaborativos. Para o debate contribuíram Rui Castanheira, da Amorim Cork; Cláudia Brito, da Nokia; Ivo Bastos, da Emma – The Sleeping Company; e Hugo Duarte Fonseca, da Devlop Leviahub; moderados por Susana Ratinho, partner da Cross Logistics.

É no equilíbrio instável entre o caos e o controlo que as empresas vivem. Com camadas cada vez mais consistentes de tecnologia, é certo, mas sem esquecer que, no fim do dia, as decisões são tomadas por pessoas. E na SCM Conference deu-se voz a aprendizagens individuais.

A chief supply chain officer da Cimpor, Ailana Vilela, partilhou a gestão que faz do seu quotidiano na cimenteira, enfatizando o tempo que dedica a cultivar o seu talento: no seu gabinete disse, há sempre gente, com assuntos relevantes e outros nem tanto, mas que precisam de ser escutadas.

E Vítor Costa, com uma carreira na logística, levou ao palco uma planta da sua horta em Viseu, para, com ela, simbolizar as lições de perseverança que a agricultura lhe ensinou, deixando a mensagem de que é preciso olhar para além da superfície das coisas.

A encerrar a SCM Conference 2026, um rosto de perseverança e de resiliência – o de Francisco Lufinha, kitesurfer com dois recordes do Guiness na travessia marítima. Subiu ao palco para contar o que aprendeu nas muitas horas em que navegou sozinho no Atlântico – a sobrevivência alimentou-se da capacidade de relativizar, de se adaptar. Mas conseguiu manter o rumo perante o caos trazido pela ausência de vento – a maior vulnerabilidade das suas expedições –, sabendo (e aceitando) que não conseguiria controlar tudo.