Num momento de transição entre o modelo just in time para o just in case, Lorena Villegas, engenheira industrial e especialista em supply chain, defende que a sobrevivência das empresas já não se decide apenas na negociação de preços. Com mais de 15 anos de experiência internacional, a profissional sustenta que a robustez da supply chain moderna reside na simbiose entre processos maduros e o fator humano. 

A gestão da cadeia de abastecimento enfrenta hoje um contexto de volatilidade geopolítica, alterações climáticas e incerteza estrutural. O paradigma just in time deu lugar a modelos just in case, que exigem visibilidade end-to-end, gestão proativa de riscos e capacidade de resposta antecipativa.

Com mais de 15 anos de experiência em planeamento, compras e logística — do Peru a Portugal —, aprendi que a robustez de uma cadeia depende de processos maduros e de equipas resilientes. Na ProseMedic, empresa líder em dispositivos médicos no Peru, liderei as áreas de procurement e logística durante a pandemia de COVID-19. Garantimos o abastecimento contínuo de hospitais nacionais, apesar de ruturas globais e equipas reduzidas a 50% devido a contágios. O segredo residiu em quatro pilares: parcerias estratégicas com fornecedores, compromisso das equipas, flexibilidade operacional e comunicação em tempo real.

Posteriormente, integrados no grupo United HealthCare, implementámos a ISO 22301 para continuidade de negócio e alinhamo-nos à ISO 28000 para segurança da cadeia. Estas certificações consolidaram práticas preventivas, transformando reações em antecipação.

A minha chegada a Portugal — curiosamente, por convite de um fornecedor — confirmou que estes desafios transcendem fronteiras. Nas funções atuais de procurement e planning em empresas como JMD Brands e Keta Foods, vejo que o profissional evoluiu: já não basta negociar ou recolher cotações. Exige-se influência transversal, literacia digital, análise avançada de dados e propostas de melhoria estratégica.

Trabalhar em Portugal destacou-me o valor da multiculturalidade como vantagem competitiva. Em cadeias globais, a diversidade acelera a inovação e melhora a adaptação. Como migrante e mulher na supply chain — membro da AERCE Espanha, Mujeres Líderes de las Américas e Women in Supply Chain Perú —, observo que profissionais como eu, com visão transnacional, trazem adaptabilidade e empatia operacional essenciais. Um exemplo: numa negociação de preços, um diálogo genuíno sobre desafios mútuos gerou uma proposta competitiva sem confronto. Confiança gera eficiência superior.

Em resumo, numa era de disrupções permanentes, a supply chain europeia precisa de líderes preparados para o imprevisível. A combinação de experiência multicultural, tecnologia e colaboração colaborativa não é luxo — é necessidade estratégica.

Lorena Villegas, Engenheira Industrial e Especialista em Supply Chain