Planear já não é o que era. Num mundo em que a previsibilidade deu lugar à volatilidade, será que os modelos de decisão estão a tornar-se obsoletos? Sandra Durães, service manager na Logista Pharma e professora convidada na Licenciatura em Gestão da Distribuição e da Logística no IPS, propõe uma reflexão sobre o novo paradigma: uma realidade em que a logística passa a lidar com a incerteza como uma nova competência estratégica.

Durante muito tempo, o planeamento assentou numa expectativa relativamente confortável de previsibilidade. A variabilidade existia, naturalmente, mas surgia dentro de margens que permitiam identificar padrões, estimar comportamentos e sustentar decisões com um grau considerável de confiança. A evolução da supply chain foi, em grande medida, construída sobre esta lógica de progressivo refinamento analítico. Mais dados, melhores modelos e maior capacidade de previsão traduziam-se numa perceção crescente de controlo.

Nos últimos anos, essa perceção tem vindo a ser progressivamente desafiada. A sucessão de eventos disruptivos, com origens distintas, mas impactos interligados, tornou evidente que a estabilidade pode ser menos estrutural do que durante muito tempo se assumiu. A incerteza deixou de se manifestar apenas como exceção e passou a fazer parte integrante do enquadramento em que as decisões são tomadas. O que anteriormente era tratado como desvio tornou-se parte do próprio sistema.

Esta transformação não reduz a importância do planeamento, mas altera profundamente a sua natureza. Planear já não significa apenas antecipar com precisão. Significa, cada vez mais, decidir com consciência de que a informação disponível será sempre parcial, dinâmica e, por vezes, contraditória. A qualidade da decisão deixa de depender exclusivamente da robustez da previsão e passa a incluir a capacidade de interpretar contexto, reconhecer limites e agir com responsabilidade mesmo quando a certeza permanece incompleta.

Neste contexto, a logística assume um papel particularmente relevante. Pela sua posição entre intenção estratégica e execução concreta, é frequentemente uma das primeiras funções a sentir os efeitos da volatilidade. Alterações inesperadas na procura, constrangimentos de abastecimento, variações de custo, flutuações de capacidade ou mudanças nas expectativas de serviço traduzem-se rapidamente em decisões operacionais com impacto direto no desempenho da organização.

A proximidade à realidade confere à logística uma perspetiva privilegiada sobre a forma como a incerteza se materializa. Ao mesmo tempo, exige a capacidade de agir antes que exista uma imagem totalmente estabilizada do cenário. Ajustar níveis de stock, redefinir prioridades de abastecimento, gerir compromissos de serviço ou reavaliar pressupostos operacionais implica assumir que nem todas as variáveis estarão completamente esclarecidas no momento da decisão. Este enquadramento contribui para reposicionar a própria função logística. Mais do que executar planos previamente definidos, passa a participar ativamente na sua construção, questionando pressupostos, sinalizando vulnerabilidades e contribuindo para decisões que influenciam diretamente o equilíbrio entre custo, serviço e risco. A logística deixa de ser apenas um espaço de implementação para se afirmar como um espaço de interpretação informada da realidade.

Decidir em contexto de incerteza não significa abdicar de rigor. Pelo contrário, exige maior clareza de critérios, maior consistência de pensamento e maior responsabilidade nas escolhas efetuadas. A abundância de dados aumentou significativamente a capacidade analítica das organizações, mas não eliminou a necessidade de julgamento. A informação continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente por si só.

Também por isso, a maturidade da gestão logística tende a revelar-se na forma como consegue transformar sinais imperfeitos em decisões coerentes. Nem sempre será possível esperar por validação completa. Nem sempre será possível reduzir todas as ambiguidades. Em muitos casos, será necessário agir com base no melhor entendimento disponível, assumindo que a decisão faz parte de um processo contínuo de aprendizagem e ajustamento.

Este movimento exige igualmente uma evolução cultural. Durante muito tempo, associou-se qualidade de gestão à capacidade de eliminar variabilidade. No entanto, quando a volatilidade se torna estrutural, a tentativa de controlo absoluto pode gerar bloqueios decisórios que comprometem a capacidade de resposta. A consistência deixa de resultar apenas da precisão das previsões e passa a depender da clareza de prioridades e da confiança nos critérios utilizados.

A logística encontra-se numa posição particularmente sensível neste equilíbrio. Funciona como ponto de convergência entre expectativas comerciais, restrições operacionais e objetivos financeiros, sendo frequentemente chamada a gerir compromissos que exigem ponderação contínua. A sua contribuição para a competitividade da organização passa, cada vez mais, pela capacidade de apoiar decisões que preservem coerência mesmo em ambientes ambíguos.

O custo da incerteza não se traduz apenas em oscilações de desempenho ou desvios face ao planeado. Traduz-se também no tempo necessário para decidir, na hesitação gerada por informação incompleta e na dificuldade em reconhecer que, em determinados momentos, esperar por maior certeza pode representar o maior risco.

Num contexto em que a previsibilidade deixou de ser garantida, a solidez da decisão poderá depender menos da perfeição da informação e mais da qualidade do pensamento que a sustenta.

Porque, quando a estabilidade deixa de ser o ponto de partida, a verdadeira competência estratégica pode não estar em ter sempre as respostas certas, mas em desenvolver a capacidade de decidir com responsabilidade antes que todas as respostas existam.

© 2026 Sandra Durães · ORCID: 0009-0009-7043-8466

Sandra Durães, Service Manager na Logista Pharma | Professora Convidada na Licenciatura em Gestão da Distribuição e da Logística (ESCE, IPS)