Ao negligenciar a dureza da geografia e a soberania das rotas, transformou-se a eficiência numa vulnerabilidade que agora ameaça as fundações da economia global. João Pires Ribeiro sublinha, neste artigo de opinião, a necessidade urgente de autonomia infraestrutural e deixa o aviso: o futuro pertence a quem autonomamente se reestrutura e organiza.
No verão passado, escrevi nestas mesmas páginas que tínhamos perdido a nossa inocência logística. O “cisne negro” dera lugar ao “elefante na sala” e o Estreito de Ormuz era o exemplo acabado de como um risco conhecido nos obrigava a passar da resiliência reativa para a gestão de risco ativa. No entanto, o tempo trouxe uma camada de complexidade mais profunda e persistente. O que antes parecia uma sucessão de espasmos isolados, meros testes à nossa capacidade de nos levantarmos após um soco, transmutou-se numa erosão das fundações que sustentam a economia global. Já não estamos perante uma crise de conjuntura, mas perante uma transformação estrutural onde o impacto nas infraestruturas se tornou duradouro e as soluções temporárias deixaram de fazer sentido.
A resiliência, na sua definição clássica, é a capacidade de um sistema recuperar a sua forma original após um choque. É a metáfora do elástico que estica mas não quebra. Contudo, o que enfrentamos hoje é a fadiga do material. Quando o Mar Vermelho se fecha por meses a fio, quando o Estreito de Ormuz vive sob uma ameaça latente que altera rotas de forma definitiva e quando os canais de passagem sofrem restrições climáticas ou geopolíticas prolongadas, a elasticidade esgota-se. O impacto deixou de ser um pico de tensão num gráfico para se tornar uma condição de existência. A gestão de fluxos materiais deu lugar à gestão de ativos críticos, onde a preocupação não é apenas aguentar o embate, mas deveria ser reconstruir o alicerce de forma permanente.
Vejamos o exemplo crítico da energia e dos seus derivados. A dependência do petróleo e do gás natural não é apenas uma questão de preço no posto de combustível; é uma rigidez infraestrutural que dita a viabilidade da indústria pesada. A transição energética europeia, embora necessária, revelou uma vulnerabilidade extrema quando tentámos substituir o gás russo por outros terminais de GNL em tempo recorde. Esta nova rede é geograficamente sensível e qualquer convulsão em Ormuz ou nas rotas do Médio Oriente, deixa de ser um problema conjuntural de mercado para passar a ser um risco de interrupção total de cadeias produtivas que não têm alternativa técnica a curto ou médio prazo. Esta fragilidade é o resultado direto de décadas de desinvestimento em fontes de base estáveis, nomeadamente na energia nuclear. Durante um longo período de falsa segurança e estabilidade geopolítica, a Europa negligenciou o nuclear em prol de uma dependência externa que parecia barata e infinita. Agora, o súbito interesse em reinvestir nesta tecnologia é a prova de que a economia/politica europeia percebeu, tardiamente, que a resiliência exige infraestruturas de produção doméstica e constante, capazes de mitigar a volatilidade das rotas marítimas.
Este cenário de instabilidade permanente alastra-se a áreas fundamentais como a dos fertilizantes e minérios. São estes os pilares invisíveis da resiliência real. A produção de fertilizantes e de minerais como o potássio por diversos fatores não é apelativa para os países europeus, o que leva a que as suas rotas de produção e distribuição estejam frequentemente em zonas de fricção. Uma interrupção aqui não causa apenas um atraso na prateleira do supermercado; compromete ciclos agrícolas inteiros. O mesmo aplica-se aos minérios essenciais para a eletrónica e para a mundo digital. Se a infraestrutura de extração e
transporte for comprometida de forma duradoura, não existe plano de contingência que nos salve, pois a criação de infraestruturas de substituição em geografias seguras demora décadas, não dias. Estamos a viver a tirania da duração, onde o risco quantificável deu lugar a uma incerteza instalada que altera permanentemente os custos de operação globais.
Ironicamente, quanto mais tecnologia injetamos nas cadeias de abastecimento, mais esbarramos na dureza da geografia física. O controlo dos pontos de passagem é a forma mais antiga de poder. Portugal compreendeu isto como ninguém durante a Epopeia dos Descobrimentos, quando a gestão da viagem marítima se tornou o motor da economia mundial. A presença do Forte de Nossa Senhora da Conceição em Ormuz, estabelecida por Afonso de Albuquerque, não era um capricho colonial, mas uma necessidade estratégica de controlar a “jugular” do comércio de especiarias. Hoje, os nomes mudaram, mas a lógica permanece intacta. O Canal de Suez e o Canal do Panamá continuam a ser os pontos de estrangulamento mundial. O bloqueio duma destas artérias causa uma falência multiorgânica num mundo ligado por nervos de aço que já não permite o isolamento. Por isso, a gestão de risco tem de evoluir para lá das simulações de curto prazo. Temos de perguntar como sobrevivemos se o modelo de globalização de alta velocidade e baixo custo tiver chegado ao fim, pelo menos por agora. A materialização da quantificação do risco serve agora para justificar investimentos massivos em redundância física, reshoring e soberania energética que, até há pouco tempo, seriam considerados ineficientes pelo mercado.
O futuro não será desenhado pela eficiência pura, mas pela segurança estratégica e pela autonomia infraestrutural onde a diplomacia, relações internacionais e visão política terão uma importância fundamental. Estamos a caminhar para uma era de re-regionalização, onde a ideia de uma cadeia de abastecimento global e invisível é substituída por blocos de confiança com infraestruturas partilhadas entre aliados. Assistiremos a um investimento sem precedentes infraestrutura. A política externa será, cada vez mais, uma extensão da logística de satisfação das necessidades nacionais. O soco que estamos a levar agora é um aviso final: o futuro será de quem for dono das suas próprias rotas (vejam-se os investimentos chineses) e tiver a inteligência de antecipar que a paz logística do passado não vai regressar tão cedo. A instabilidade vai continuar, com novas frentes no Ártico, no Mar do Sul da China ou no Espaço. Mas a nossa capacidade de não colapsar dependerá de quão depressa aceitarmos que o tempo das soluções temporárias acabou. O futuro será de quem for dono das suas próprias rotas, das suas próprias matérias-primas e, acima de tudo, da sua própria paciência estratégica.
João Pires Ribeiro | Doutorado em Resiliência da Cadeia de Abastecimento pelo Instituto Superior Técnico
Nota: O artigo foi inicialmente publicado na CNN Portugal, tendo tido autorização para a sua republicação.



