Numa economia global marcada por uma volatilidade sem precedentes, a resiliência das cadeias de abastecimento passou a ser o pilar central da sobrevivência organizacional. Luís Maldonado, Olefins Logistic technician, defende que num cenário em que as disrupções se tornaram a normal, a transição da função de procurement de negocional para uma visão estratégica é a única via para garantir a robustez necessária num mundo em que a próxima falha logística será o resultado de uma escolha de sourcing desalinhada com a realidade.
Quando uma cadeia de abastecimento falha, a explicação surge quase sempre do lado de fora. Fala-se de conflitos geopolíticos, de bloqueios de rotas marítimas ou de ataques a infraestruturas críticas. É uma leitura confortável. Na maioria dos casos, o colapso não ocorre no transporte, mas sim numa fase anterior, associada às decisões de procurement que moldam a arquitetura da cadeia.
É ao nível do procurement que se definem os graus de dependência, a concentração de risco e a capacidade de resposta a eventos adversos. Durante décadas, esta função foi orientada predominantemente para a eficiência de custo, privilegiando estratégias como o single sourcing, a concentração geográfica dos fornecedores e a rigidez contratual. Estas opções foram coerentes num contexto de estabilidade relativa. No entanto, a crescente volatilidade geopolítica e a fragmentação das cadeias de valor vieram alterar de forma significativa esse enquadramento.
Atualmente, a seleção de fornecedores não pode ser dissociada da avaliação de risco. A origem das matérias-primas, a estabilidade dos países de fornecimento, a exposição a sanções, a fiabilidade das infraestruturas logísticas e a dependência de corredores críticos passaram a ser variáveis determinantes. Ainda assim, em muitas organizações, a função de procurement continua a estar fortemente orientada para a negociação de preço, nem sempre incorporando de forma sistemática as implicações para a continuidade operacional.
A experiência recente tem mostrado que as cadeias altamente eficientes, mas pouco redundantes, apresentam níveis elevados de vulnerabilidade em contextos de disrupção. A crise no Mar Vermelho, entre 2024 e 2025, evidenciou esta fragilidade ao forçar o desvio de fluxos marítimos e ao aumentar significativamente os tempos de trânsito e os custos logísticos. Em paralelo, o agravamento das tensões no Médio Oriente em 2026, com impacto no Estreito de Ormuz, expôs a dependência estrutural de determinadas origens de matérias-primas, particularmente em indústrias intensivas em energia e produtos químicos.
No entanto, a vulnerabilidade das cadeias não decorre apenas de fatores geopolíticos. O início de 2026 em Portugal ficou marcado por tempestades atlânticas severas, que condicionaram a operação portuária e limitaram a atracação de navios durante vários períodos. Num porto como o de Sines, crítico para a entrada de matérias-primas energéticas e petroquímicas, estas condições traduzem-se diretamente em atrasos na receção e expedição de produto, evidenciando a exposição da cadeia a fatores ambientais extremos.
A redução de capacidade no Canal do Panamá devido a condições climáticas, bem como falhas operacionais em infraestruturas críticas ou a concentração de produção em unidades altamente especializadas, reforçam a ideia de que o risco é cumulativo. As cadeias desenhadas para eficiência máxima tendem a apresentar uma capacidade limitada de absorção quando são confrontadas com múltiplas disrupções.
As consequências são particularmente visíveis em contextos industriais. A indisponibilidade de matérias-primas conduz à redução ou interrupção da produção, afetando os níveis de serviço e os compromissos comerciais. Este efeito propaga-se ao longo da cadeia de valor, evidenciando que uma decisão aparentemente localizada no procurement pode desencadear impactos sistémicos relevantes.
Apesar deste enquadramento, práticas como a diversificação efetiva de fornecedores, a incorporação do risco associado aos países de origem nas decisões de sourcing, ou a introdução de flexibilidade contratual, continuam a ser implementadas de forma limitada. Em muitos casos, estas abordagens são vistas como um custo adicional, quando na realidade representam um investimento direto na continuidade do negócio.
Neste contexto, o procurement deixa de ser apenas uma função de negociação e passa a assumir um papel claramente estratégico. Exige capacidade para ler o contexto geopolítico, perceber como as cadeias estão interligadas e incorporar o risco nas decisões de sourcing de forma consciente.
A robustez implica investimento e decisões que nem sempre maximizam o curto prazo. No entanto, os custos associados à fragilidade são significativamente superiores quando a cadeia é exposta a disrupções.
A próxima rutura dificilmente será apenas uma consequência de um evento externo inesperado. Será, com elevada probabilidade, o resultado de uma decisão de sourcing considerada racional no momento em que foi tomada, mas desalinhada com a complexidade do ambiente atual. E quando esse momento chegar, já não será uma questão de eficiência ou de custo. Será uma questão de continuidade operacional.
Luis Maldonado, Olefins Logistic Technician



